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quinta-feira, 27 de maio de 2010

EUA revelam pela 1ª vez total de ogivas nucleares

Seg, 03 Mai, 06h56

WASHINGTON (Reuters) - Os Estados Unidos divulgaram nesta segunda-feira pela primeira vez o tamanho do seu arsenal nuclear: 5.113 ogivas operacionalmente mobilizadas, mantidas na reserva ativa ou armazenadas de forma inativa.

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Segundo os dados divulgados pelo Pentágono, o arsenal nuclear do país chegou a 31.225 ogivas no ano fiscal de 1967, e desde então foi reduzido em 84 por cento.

Analistas dizem que os Estados Unidos, ao divulgarem esses dados durante a revisão de conferência do Tratado de Não-Proliferação (TNP), estão tentando enfatizar a redução do seu arsenal, de modo a convencer outros países a reforçar o regime de não proliferação nuclear.

O total revelado pelo Pentágono não inclui ogivas "aposentadas" ou destinadas ao desmanche, cerca de 4.600, segundo a ONG Federação dos Cientistas Americanos.

Washington anteriormente havia divulgado o número de ogivas estratégicas operacionalmente instaladas em 1.968 no fim de 2009, bem menos que as 10 mil de 1991. Esta é a primeira vez, no entanto, que o total geral é revelado.

O TNP tem o objetivo de impedir a disseminação de armas nucleares e encorajar a eliminação de arsenais existentes.

"É enormemente importante para os Estados Unidos conseguirem dizer: 'Olhem, estamos cumprindo nossas obrigações sob o TNP'", disse Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação dos Cientistas Americanos. Só assim, segundo ele, Washington conseguirá convencer outros países a adotar novas medidas para limitar a proliferação.

Outros analistas, no entanto, acham que a divulgação da cifra pode ter efeito contrário, demonstrando que, duas décadas após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos ainda preservam milhares de armas nucleares.

"Acho que os Estados que estão mais preocupados com o desarmamento nuclear vão ficar mais focados no número que permanece, em vez do número (reduzido)", disse George Perkovich, diretor do Programa de Política Nuclear do Fundo Carnegie para a Paz Internacional.

Historicamente, o tamanho total do arsenal nuclear dos EUA era mantido em sigilo para impedir que adversários usassem essa informação para tentar neutralizá-lo de modo mais preciso. Para analistas, a manutenção dessa postura até agora era uma relíquia da Guerra Fria.

(Reportagem de Arshad Mohammed e de Phil Stewart)

terça-feira, 7 de abril de 2009

Obama promete liderar discussão climática; UE mantém cautela

PRAGA - Os Estados Unidos estão prontos para liderar uma discussão na questão das mudanças climáticas, disse o presidente Barack Obama neste domingo, recebendo uma saudação cautelosa dos anfitriões europeus em um encontro em Praga, capital da República Tcheca.

"Juntos, nós precisamos confrontar a mudança climática para dar fim à dependência mundial de combustíveis fósseis, utilizando o poder de novas fontes de energia como o vento e o sol, e apelando a todas as nações para que façam sua parte", afirmou Obama em um discurso para a multidão do lado de fora do castelo medieval de Praga.

"Eu prometo a vocês que os Estados Unidos agora estão prontos para liderar os assuntos neste esforço global."

Obama tomou uma posição mais agressiva em relação ao aquecimento global do que o seu antecessor George W. Bush. Cientistas dizem que o aquecimento é causado pela liberação de gases como o dióxido de carbono.

No mês passado, ele convidou as 16 "maiores economias", incluindo a União Europeia, para fazer parte de um fórum sobre as mudanças climáticas com o objetivo de ajudar a garantir que um pacto da Organização das Nações Unidas sobre o aquecimento global seja alcançado em uma conferência em Copenhague em dezembro.

"Os Estados Unidos serão um parceiro ativo no processo de Copenhague e em outros", disse Obama a 27 líderes da União Europeia no encontro dos EUA com a Europa.

"Nós precisamos não apenas alcançar um acordo entre nós, mas também apresentar os interesses comuns que irão trazer outros países ao diálogo."

Jose Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, disse que os Estados Unidos e a Europa estão agora mais próximos para um acordo nestas questões.

"Nós saudamos os passos tomados pela nova administração norte-americana e o aumento da convergência entre as posições dos europeus e dos Estados Unidos neste assunto", afirmou ele a repórteres após o encontro em Praga, mas acrescentou que há mais coisas a fazer.

"As declarações do presidente Obama são mais claras e mais ambiciosas...vamos trabalhar nisso."

A discussão sobre a mudança climática em Copenhague poderá levar a um novo acordo na luta contra o aquecimento global, substituindo o protocolo de Kyoto.

(Reportagem de Matt Spetalnick)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Chu promete política agressiva contra mudanças climáticas

WASHINGTON - O vencedor do Prêmio Nobel Steven Chu disse nesta terça-feira que, caso seja confirmado como secretário de Energia dos Estados Unidos, buscará agressivamente cumprir as políticas destinadas a conter as mudanças climáticas e atingir a independência energética, desenvolvendo fontes de energia limpa.

Mas ele também disse aos congressistas que vê a energia nuclear e o carvão como partes críticas da composição energética do país e disse que era otimista e acreditava que se podia encontrar uma maneira de tornar o carvão uma fonte mais limpa de energia, capturando suas emissões de carbono.

Chu foi indicado pelo presidente eleito Barack Obama para chefiar o Departamento de Energia. O físico compareceu nesta terça-feira, 13, diante do Comitê de Energia e Recursos naturais do Senado, onde recebeu apoio imediato tanto de democratas quanto de republicanos.

Em um comunicado preparado anteriormente, Chu, descendente de chineses e diretor do Lawrence Berkeley National Laboratory desde 2004, qualificou as mudanças climáticas como um "problema crescente e urgente". Para ele, a manutenção da dependência do petróleo representa uma ameaça para a economia e para a segurança norte-americanas.

Sobre os riscos do aquecimento global, Chu disse: "Agora é claro que se continuarmos nesse mesmo caminho, corremos o risco de mudanças drásticas em nosso sistema climático durante o período de vida de nossos filhos e netos."

Chu disse que a energia nuclear produz um quinto da eletricidade do país e 70% da eletricidade livre de carbono, acrescentando que "será uma parte importante de nossa composição energética."

Cientista largamente respeitado que dividiu um prêmio Nobel em 1997, Chu tem defendido mais pesquisas relativas a energia, especialmente trabalhos relacionados ao avanço de biocombustíveis e energia solar. Ele disse que a pesquisa cientifica é a chave para conter o aquecimento global.

No entanto, quando pressionado por senadores, ele também disse que o carvão não pode ser abandonado como fonte primária de energia, embora tenha prometido pesquisas agressivas sobre captura de carbono.

Fonte: O Estadão

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

ONU aprova resolução que pede cessar-fogo imediato em Gaza

Documento fala em retirada das tropas israelenses do território. Texto teve 14 votos a favor e a abstenção dos EUA.

Do G1, com agências internacionais

O Conselho de Segurança da ONU aprovou nesta quinta-feira (8) uma resolução que pede cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, a retirada das tropas israelenses e a entrada sem impedimentos de ajuda humanitária no território palestino.

O texto, aprovado por 14 votos a favor e a abstenção dos Estados Unidos, assinala "a urgência e faz um apelo ao cessar-fogo imediato, duradouro e plenamente respeitado, que leve à completa retirada das forças israelenses de Gaza."

A resolução "condena todo ato de violência e hostilidade dirigido contra civis e todo ato de terrorismo", sem citar diretamente os disparos de foguetes do grupo radical palestino Hamas contra Israel.

O documento defende ainda uma paz baseada na visão de uma região onde dois estados democráticos, Israel e Palestina, convivam em paz, com fronteiras seguras e reconhecidas.

Desde o início da ofensiva israelense em 27 dezembro, 763 pessoas morreram do lado palestino e 12 em Israel. Os feridos ultrapassam 3.100.

ONU suspende ajuda

A agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) anunciou nesta quinta-feira (8) que vai suspender todas as suas operações na Faixa de Gaza por conta do "risco" causado pela presença de tropas no território palestino sob ataque.

Um ataque de um tanque israelense nesta quinta matou dois motoristas palestinos de um comboio de ajuda humanitário coordenado pela agência, segundo o porta-voz da entidade em Gaza, Adnan Abu Hasna. Ele não disse quanto tempo a suspensão vai durar.

Foto: AFP
Israelense fotografa pedaço de foguete lançado de território libanês que atingiu nesta quinta-feira (8) a cidade israelense de Nahariya. (Foto: AFP)

Richard Miron, porta-voz da ONU, disse que o Exército de Israel havia sido notificado sobre a passagem do comboio, atingido próximo à passagem de Erez, no norte de Gaza. Segundo Hasna, os caminhões estavam identificados pelo símbolo da ONU.

Depois do incidente, todos os comboios da agência pelas passagens de Erez e Kerem Shalon foram suspensos.

O Exército de Israel disse que está investigando o caso.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenou os ataques, segundo seu porta-voz.

A Faixa de Gaza teve, pelo segundo dia consecutivo, um cessar-fogo de três horas para que a população civil possa obter mantimentos. A trégua ocorreu novamente entre 13h e 16h (9h e 12h de Brasília), disse Peter Lerner, porta-voz do Exército israelense para a coordenação com os territórios palestinos, que disse que a medida tem por objetivo "permitir que a população se abasteça de artigos essenciais".

A situação humanitária é grave no 13º dia da ofensiva de Israel contra a Faixa de Gaza. Segundo o médico Muawaiya Hassanein, foi possível recuperar vários cadáveres em escombros de prédios e em campos de batalha durante os períodos de cessar-fogo temporário. Apenas em um campo de batalha, 35 corpos foram achados, segundo ele.

O Departamento de Estado dos EUA pediu que Israel amplie o acesso da ajuda, qualificando de "desesperada" a situação humanitária no território.


Foto: Arte/G1
Bombardeios de Israel e dos palestinos nesta quinta-feira (8) (Foto: Arte/G1)


Foguetes disparados a partir do território libanês atingiram o norte de Israel na manhã desta quinta, deixando duas pessoas feridas. Israel revidou ao ataque com um bombardeio na área de origem dos ataques. O ataque despertou temores de que um "segundo front" abra-se no conflito.

Três horas depois do ataque, houve o anúncio de novos disparos, mas foi um "alarme falso". O alarme antiaéreo no norte de Israel teria sido disparado pelo estrondo de um avião ultrapassando a barreira do som, segundo o Exército. O incidente ocorreu por volta das 11h locais (7h de Brasília). O exército do Líbano confirmou a versão.

Ainda não foi confirmado quem lançou os foguetes, mas representantes do movimento islâmico palestino Hamas no Líbano negaram responsabilidade, e a milícia xiita libanesa do Hezbollah disse ao governo libanês que não está envolvida.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

China pede que OMC crie grupo de especialistas para investigar medidas anti-subsídio e anti-dumping dos EUA

A China pediu ontem (22) que a Organização Mundial do Comércio (OMC) crie um grupo de especialistas para avaliar a legalidade das medidas anti-subsídio e anti-dumping adotadas pelos EUA contra produtos chineses como tubos de aço padronizados e tubos de aço retangulares.

Numa reunião para solução de conflitos, o representante chinês na OMC, Lu Xiankun, apontou que as medidas dos EUA levantaram uma série de dúvidas em relação à organização. A China está especialmente preocupada com a conformidade das medidas em relação aos regulamentos da entidade.

Lu afirmou que a China já expressou a sua preocupação aos EUA em diversas ocasiões, sem que uma solução tenha sido apresentada pela outra parte. Em vista desta situação, a China não tem outra opção senão exigir que a organização para solução de conflitos designe um grupo de especialistas para investigar o assunto.

Na reunião, os EUA impediram a criação do grupo de especialistas. No entanto, caso a China volte a formular o pedido na próxima reunião, o grupo de especialistas vai ser criado.

Fonte: http://portuguese.cri.cn/101/2008/12/23/1s100764.htm

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Impasses no Paraíso parte II

As avaliações sobre a Guerra do Vietnã e a modelagem das forças armadas dos Estados Unidos.

A derrota no Vietnã
É de conhecimento geral que o longo conflito do Vietnã trouxe um vasto elenco de contrariedades para os Estados Unidos. Seus objetivos militares foram totalmente frustrados. Em 27 de janeiro de 1973, todas as partes envolvidas no conflito – os Estados Unidos, o Vietnã do Sul, o Vietnã do Norte e o Comando da Guerrilha Vietcong – assinaram em Paris um acordo de paz que implicava na retirada total da forças norte-americanas do Vietnã. O governo dos EUA apostava na política de “vietnamização” da defesa do Vietnã do Sul, isto é, contando ainda com suporte material norte-americano, a defesa da república sulista ficaria inteiramente a cargo dos soldados do governo daquele país. Porem, à luz dos interesses americanos, a política de vietnamização redundou em fracasso. Em pouco mais de dois anos,(abril de 1975), as ofensivas do Exército do Vietnã do Norte e a desagregação do dispositivo militar sulista culminaram com a queda de Saigon e a unificação do país sob a égide do governo comunista de Hanói.
Os danos provocados ao Vietnã devido a décadas de guerra, a bombardeios maciços e a perda de vidas em todas as faixas etárias são simplesmente incalculáveis. Coube então ao povo vietnamita, contando com muito pouca ajuda internacional, lamber suas feridas, incinerar seus mortos e catar seus próprios cacos. A frase que melhor sintetiza o drama do Vietnã foi emitida com habitual crueza por um major dos marines ao comentar a grande batalha travada pela posse da cidade de Ben Tree durante a Ofensiva do Tet (1968): It became necessary to destroy the town in order to save it. [1]
As avaliações sobre a derrota americana no Vietnã se acumularam com o passar dos anos. Livros, teses, filmes e até canções contaram e cantaram, cada qual à sua maneira, detalhadas versões na tentativa de deslindar por todos os ângulos episódio tão sofrido. Para muitos, a retirada das forças americanas do Vietnã não foi determinada por uma vitória militar dos comunistas. Por mais competentes, corajosos e abnegados que fossem, nem o talentoso general Vo Nguyen Giap (comandante do Exército do Vietnã do Norte), nem seus rapazes, soldados regulares e guerrilheiros, eram páreo para o poderio militar esmagador do Estados Unidos. Caso o governo norte-americano decidisse fazer uso de toda a sua panóplia de morte, certamente tornariam-se verdadeiras as palavras do general Curtis LeMay, ex-comandante do Comando Aéreo Estratégico dos Estados Unidos na década de 50. Procurado pelos jornalistas em seu retiro de aposentadoria, ao ser indagado sobre que faria com o Vietnã caso ainda estivesse no comando, o general respondeu sem sequer se despentear: “eu bombardearia o Vietnã do Norte de volta à Idade da Pedra”.
O fato é que não havia condições políticas para tanto, seja internamente, seja no panorama internacional. À medida em que a guerra se arrastava, ficava cada vez mais difícil convencer o público norte-americano que os comunistas vietnamitas do norte e o pavoroso VC (termo resumido que a inteligência usava para designar a guerrilha vietcong, logo apelidada também de Charlie, pois com algum sarcasmo, para o soldado de infantaria do front, VC significava na verdade Víctor Charlie), eram um perigo para manutenção do American way of life nos rincões do Kansas, ou uma ameaça ao direito das crianças saborearem seus sorvetes na Disneylândia.
Além disso, o sistema de recrutamento vigente e o modo pelo qual o pessoal era distribuído nos vários serviços das Forças Armadas, espelhavam de forma clara as desigualdades vigentes na sociedade norte-americana. Os ricos e os jovens da classe média, ou conseguiam furtar-se ao serviço militar graças à influência política, ou eram destinados às funções mais interessantes e nobres devido à sua melhor escolaridade (pilotar aeronaves, serviços de inteligência e planejamento por exemplo). Aos pobres, os “caipiras” dos estados do Sul ou os negros das pocilgas dos grandes centros urbanos, sobrava, ou os serviços mais cansativos e aviltantes ou o preenchimento das fileiras da “maldita infantaria”.
Diante do desconforto com essas contradições sociais, com as baixas crescentes e temendo a convocação para o serviço militar, os movimentos de protesto e os grupos pacifistas passaram a disputar o domínio das ruas com a polícia. No musical Hair, hipies coloridos dançavam a inutilidade daquela guerra. Os rapazes estavam morrendo por causa de nada. Let the sunshine! A turma mais dura e insensível a tais apelos, bem que tentou travar a luta pelos corações e mentes na mídia, escalando o velho John Wayne para justificar a guerra no filme “Boinas verdes”. O resultado foi que jamais saberemos se o número de jovens que protestavam nas portas dos cinemas era maior ou empatava com a quantidade de pessoas que pagaram o ingresso para assistir o filme.
Se internamente os tumultos antiguerra se avolumavam, as condições externas de sustentação do conflito também não eram nada boas. No campo militar, a URSS envidava esforços para sustentar militarmente Hanói. A China, sempre desconfiada de tudo e de todos fazia a sua parte, dentro de suas possibilidades, mas não com muito entusiasmo. O eixo Moscou-Hanói acendia na liderança chinesa um elenco de preocupações, pois a enorme fronteira entre China e URSS, constituída por vastidões desérticas e montanhas agrestes, tornava-se cada vez mais coalhada de tropas exibindo cenho franzido e muita disposição em pressionar os gatilhos[2]. Mesmo assim, a despeito dos muxoxos mútuos, os dois poderes reunidos agiam de modo a impor uma moderação forçada ao grau de intensidade dos golpes desferidos pelo muque norte-americano contra Hanói. Forneciam armas antiaéreas, sistemas de radar e mantimentos para o Vietnã do Norte. Seus próprios arsenais nucleares eram uma garantia de que a liderança dos EUA se manteria distante de qualquer “exagero radioativo” e seus serviços diplomáticos açulavam o quanto podiam a reprovação internacional à guerra[3].
Os bons e velhos aliados europeus ocidentais por seu turno, estavam longe de aceitar qualquer tipo de parceria com os EUA na aventura vietnamita. Nada de enviar tropas, nenhum apoio moral. O governo britânico (o aliado de sempre), exibia um ânimo modorrento em relação ao assunto Vietnã. Enquanto preparava o chá da tarde, escorava-se na adesão dos australianos e neo-zelandeses ao esforço americano. De acordo com Londres, já que a Austrália e a Nova Zelândia haviam resolvido participar diretamente do conflito (mesmo modestamente), os americanos contavam com todo o apoio britânico que seria possível arranjar no momento. Nas veneráveis ilhas nebulosas, os jovens dedicavam-se a deixar crescer os cabelos e tocar um rock cada vez mais elaborado, enquanto as tropas de Sua Majestade lidavam com um belo atoleiro de encrencas, ali mesmo, ao lado de casa, na Irlanda do Norte. Afinal, quem tem o IRA como vizinho, não precisa cruzar os mares para criar caso com os vietcongs.
Já entre os europeus continentais, os apelos norte-americanos também se deparavam com ouvidos moucos. Entre os franceses, por exemplo, espalhava-se um certo “cruel divertimento” ao perceberem que, mesmo com todo o seu poder, os americanos falhariam no Vietnã, exatamente como havia acontecido com as armas da França na década de 50. Restava saber quanto tempo levaria para que os americanos tivessem de suportar o seu próprio Dien Bien Phu[4].
A Guerra do Vietnã portanto, tornou-se um exemplo clássico de episódio que despertava uma formidável impopularidade internacional. Dessa maneira, as explicações acerca do insucesso dos EUA bem que poderiam se escorar unicamente nos contratempos provocados por tal impopularidade. Os adeptos da guerra, patriotas, militares durões e congêneres sempre poderiam atribuir a responsabilidade do fracasso aos derrotistas, liberais, hipies, aliados vacilantes e, naturalmente, aos comunistas que eram onipresentes e conspiravam o tempo todo. Como é de conhecimento geral, quando as coisas não caminham bem, a culpa é sempre do outro, especialmente quando ousa pensar diferente.

Avaliações e conseqüências

Mas uma posição cômoda como essa não seria compartilhada por todos aqueles que se dedicaram a tirar lições do conflito do Vietnã. Militares americanos profissionalmente lúcidos, muitos deles veteranos que experimentaram o calor dos combates, não caíram na cilada de atribuir exclusivamente aos civis o fracasso da campanha. Suas reflexões basearam-se na idéia de que a senda da derrota havia também sido pautada pelo planejamento equivocado, liderança militar deficiente e um uso da força de modo inadequado. A onda pacifista só ganhou volume e intensidade porque os militares, no campo de batalha, não conseguiram resolver o assunto rápido e de forma eficaz. A retirada dos Estados Unidos do conflito do Vietnã foi algo resolvido a partir do clamor das ruas, respondendo aos brados de civis enfurecidos, mas a derrota militar foi na verdade construída palmo a palmo no campo de batalha[1].
As melhores contribuições para a análise sobre os erros da liderança militar do Vietnã procederam das avaliações de oficiais da Força Aérea. Sua crítica pode ser sintetizada no seguinte ponto: o comando dos Estados Unidos no Vietnã deixou de lado as lições de Clausewitz. É interessante notar que foi a partir dessa linha de aproximação de cunho tradicional, que se preparou uma espantosa revolução na teoria da guerra aérea[2].
Durante a Segunda Guerra Mundial, a estrutura do poder aéreo dos Estados Unidos inspirou-se nas idéias do teórico italiano do início do século XX Giulio Douhet e do ás norte-americano William “Billy” Mitchell. Ambos acreditavam que o poder aéreo se expandiria a ponto de formar uma arma totalmente independente das demais. Douhet em particular, imaginava que as forças aéreas poderiam vencer as guerras sozinhas. Para tanto, era necessário que desenvolvessem um poder de ataque devastador, a ponto de se tornarem capazes de destruir com bombas todos os centros vitais do inimigo. O adversário, aterrorizado, com suas cidades em ruínas e suas fábricas transformadas em escombros fumegantes, acabaria ficando sem outra alternativa a não ser a rendição para evitar o total aniquilamento.
É ponto pacífico que, tanto os norte-americanos quanto os ingleses, testaram essa teoria durante a Segunda Guerra Mundial denominando-a “bombardeio estratégico”. A aplicação de tais idéias criou o cenário mais funesto das guerras do século XX. A distinção entre a população civil e militar desapareceu. Os tapetes de bombas cobriam cidades inteiras, matando indiscriminadamente combatentes e não-combatentes. Por fim, o corolário lógico da prática do bombardeio estratégico é o uso da arma nuclear. De acordo com o objetivo proposto, o de levar a mais violenta destruição possível contra a sociedade do inimigo e leva-lo a render-se logo, nada é mais eficiente do que a bomba nuclear.
Com o advento da Guerra Fria, a Força Aérea dos Estados Unidos preparou-se para um confronto desta natureza contra os soviéticos. O núcleo central da frota aérea era integrado por bombardeiros de médio e de longo alcance, aptos a carregar os artefatos nucleares até o coração do território soviético. As aeronaves representavam um dos vetores possíveis de lançamento de tais armas. Além delas, confiava-se no uso de mísseis (de médio e longo alcance - intercontinentais), navios de superfície e submarinos. A resposta dos soviéticos, isto é, seus sistemas de ataque e defesa, geralmente se estruturavam segundo padrões semelhantes. O mais irônico de tudo isso, é que o tipo de guerra que ambas as Forças Aéreas se prepararam com tanto afinco para travar jamais aconteceu (ainda bem aliás).
Os conflitos que as forças americanas se envolveram diretamente (em especial a Guerra da Coréia e do Vietnã), exigiram empenhos totalmente diferentes. Para prevalecer sobre seus inimigos, mais importante do que uma força aérea estratégica armada com artefatos nucleares, era a necessidade de uma força tática, capaz de apoiar as tropas de linha de frente, desempenhando o papel de uma “artilharia aérea”. Assim poderia abrir caminho para os avanços das tropas, e unidades em dificuldades pulverizando as concentrações de ataque dos adversários.
Ainda assim, ao menos no Vietnã, os americanos tentaram apressar a resolução do conflito por meio de bombardeios estratégicos contra Hanói e o porto de Haiphong (principal porto do país por onde chegavam os suprimentos para o Vietnã do Norte – além de bombardear os depósitos, os americanos minaram as águas da baía). No entanto, a linha do bombardeio estratégico mostrou-se ineficaz. No panorama militar, além dos vietnamitas cavarem muito bem – praticamente criaram uma outra “Hanói subterrânea” – estabeleceram uma rede de defesa antiaérea das mais densas do mundo. O céu, dividido em camadas de altitude, era protegido por mísseis terra-ar e canhões guiados a radar fornecidos principalmente pelos russos. O problema é que as fontes de suprimentos militares que apoiavam o esforço de guerra vietnamita estavam situadas na URSS e na China, áreas politicamente fora do alcance dos ataques aéreos dos EUA.
Na dimensão da opinião pública, o bombardeio estratégico contra o Vietnã do Norte foi um desastre de propaganda. Cada bomba largada contra Hanói tornava-se munição explosiva que nutria os discursos pacifistas. Logo os grupos de protesto exibiram as estatísticas fornecidas pelas próprias forças armadas americanas. A tonelagem de bombas jogadas contra o Vietnã era maior do que o total usado pelos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Nada poderia justificar o custo em vidas civis que aqueles bombardeios estavam causando. E foi de Hollywood que o movimento pacifista recebeu poderoso reforço. Ninguém esquece de beldades tais como Jane Fonda, desfilando sua invejável e curvilínea silhueta por cima dos escombros de uma Hanói fumegante, distribuindo biscoitos e afagos para criancinhas vietnamitas com vestes rotas e frontes assustadas.


As mudanças

Todos os elementos constantes acima figuraram nas avaliações retrospectivas dos problemas militares e de liderança de campanha dos EUA no Vietnã. A ênfase no bombardeio estratégico baseado no tapete de bombas teria de ser abandonada. Mais importante do que isso era aperfeiçoar a capacidade da força aérea em apoiar os avanços das forças em terra, abrindo caminho através da destruição dos pontos fortes adversários, ou correr em auxílio de unidades em dificuldades bombardeando os pontos de concentração das tropas atacantes e suas linhas de suprimentos. Em última análise, tratava-se de aperfeiçoar o papel tático da força aérea, exigindo uma colaboração mais estreita com as unidades de terra, aperfeiçoando seu papel de artilharia aérea.
Ao mesmo tempo, uma outra questão de relevo se impunha. Caberia à força aérea o esforço no sentido de atacar com poder devastador e liquidar o “centro de gravidade” das forças inimigas. O termo descreve o ponto exato onde o inimigo é mais vulnerável, o ponto em que o ataque terá a melhor chance de ser decisivo. [3] Quase sempre o centro de gravidade representa o lugar onde estão situados os principais sistemas de comando e controle do adversário. Eliminar o centro de gravidade significa deixar as forças do inimigo descoordenadas e às cegas. Tratava-se então de refinar o velho conceito de bombardeio estratégico.
A princípio este conjunto de preocupações traduz um retorno doutrinário ‘as reflexões clássicas de Clausewitz. Em sua obra “Da Guerra”, o oficial prussiano insistia em afirmar que o objetivo primordial das operações de guerra vinculava-se `a necessidade de desarmar o inimigo. O autor enfatizava ainda que o meio (cenário a ser buscado) da guerra era o combate, também chamado de “recontro”. Toda a atividade visa à destruição do inimigo, ou melhor, da sua capacidade de combater, porque é nisso que se resume o próprio conceito de recontro. Daí que a destruição das forças armadas do inimigo seja sempre o meio para atingir a finalidade do recontro. [4]
A aplicação adequada das idéias de Clausewitz, isto é, a concentração de esforços na tarefa de destruir as forças militares adversárias, apelava também para uma outra reflexão emitida pelo prussiano: este afirmava que, para defrontar a violência, a violência mune-se com as invenções das artes e das ciências[5]. Em outras palavras, para cumprir o papel doutrinário que se propunha, os militares americanos enxergaram que acima de tudo deveriam apostar no desenvolvimento de uma sofisticada tecnologia de precisão. As ferramentas e mentes para tanto existiam em profusão. Nos campi das universidades, pululavam cientistas prontos para o trabalho. Quanto ao dinheiro para o financiamento das pesquisas, todos sabemos que este é um fator que a sociedade norte-americana possui em boa profusão. Ainda durante o conflito do Vietnã, foram utilizados artefatos de precisão, tais como bombas guiadas até alvo com a ajuda de sistemas de tv instalados nas aeronaves e os primeiros sistemas utilizando orientação com raio laser. A primeira geração de armas deste tipo dos EUA galgava seu início nos céus vietnamitas.
Os passos seguintes foram dados ao longo da década de 80 e enveredaram por uma mudança de ênfase na pesquisa. Até então, boa parte da “massa cinzenta” preocupara-se em aperfeiçoar as plataformas de lançamento, isto é, os aviões. Nesse campo, modelos e mais modelos, dotados de aperfeiçoamentos cada vez mais apurados se sucediam. Geralmente, a ação da bomba que conduziam até o alvo e lançavam ficava por ser resolvida pelas leis da física. Os sistemas ópticos de pontaria localizavam o alvo, a bomba era lançada e a gravidade cuidava do resto. A idéia agora era a de buscar o aperfeiçoamento de sistemas de orientação para as próprias bombas, desenvolvendo da forma mais eficaz e sofisticada possível as precision guided munitions (PGM). Em última análise, os dispositivos eletrônicos de alta tecnologia permitiriam que a vontade humana interferisse na trajetória do artefato conduzindo-o precisamente até o alvo.
Dotada de uma precisão cada vez maior, a arma aérea poderia economizar munição. Os bombardeios de saturação, em que áreas inteiras tinham de ser devastadas devido `as precariedades dos sistemas ópticos, tinha chances de ser abandonado de vez. O custo em vidas civis para a obtenção das vitórias e o ônus político provocado pelos protestos dos movimentos pacifistas devido às inegavelmente criminosas chacinas que o bombardeio pesado efetuava seriam minimizados. Durante a Guerra do Golfo de 1991, e o último conflito no Iraque, muitos jornalistas ironizavam ou colocavam em dúvida a veracidade do termo “Bombardeio Cirúrgico” propalado pelas autoridades do Pentágono. Porém, embora ironia seja muitas vezes imaginosa e divertida e os militares (assim como quaisquer outros profissionais) tentem vez por outra dourar as tintas de seus méritos, é necessário dizer que o grau de precisão do armamento moderno é verdadeiramente extraordinário.
A maior precisão do armamento e os sofisticados sistemas de comunicação, detecção e interferência contra o comando e controle do inimigo, implicaram também numa possibilidade de redução das forças terrestres dos Estados Unidos, notadamente o Exército e as unidades anfíbias dos Marines. O fato, é que uma vez contando com o suporte de uma força aérea de apoio aproximado e dispondo de precisão suficiente para pulverizar os pontos de concentração do adversário, as unidades de terra podem se tornar menos numerosas e com isso, adquirirem maior mobilidade e flexibilidade. A redução de efetivos permitiu ainda uma remodelação do modo de recrutamento do pessoal para as formações regulares de primeira linha dos EUA. Enquanto que na época do conflito do Vietnã, o modo de obtenção de quadros militares subalternos ainda dependia basicamente do alistamento militar obrigatório, a nova realidade indicava uma transição para forças armadas dependentes fundamentalmente de voluntários cujo treinamento teria por objetivo alcançar elevados padrões de profissionalização. O serviço das armas nas unidades regulares deixava de ser predominantemente uma tarefa a ser exercida por “soldados cidadãos” alistados. Os soldados das fileiras passaram a ser profissionais, e o Exército transformava-se em mais um empregador.
Esse novo desenho poderia atenuar um pouco os protestos e as preocupações presentes na sociedade civil durante os episódios de emprego de tropas norte-americanas no exterior. Afinal de contas, não eram mais pobres conscritos alistados que estavam arriscando a vida, e sim profissionais militares que haviam escolhido a vida das armas. A massa de conscritos passaria a ser inteiramente absorvida pela Guarda Nacional, formando assim a segunda linha (as reservas) da nação[6].
Não podemos deixar de ressaltar que essa redução de efetivos foi proporcionada também pelo fim da Guerra Fria. A inexistência de um conflito, mesmo que de âmbito convencional contra os soviéticos na Europa, abriu caminho para a remodelação que estamos discutindo.

[1] FRIEDMAN, George e Meredith. The future of war. New York, Crown Publishers, 1996.
[2] WARDENT, John A The Air campaign: planing for combat Washington D.C, National Defense University Press, 1988.
[3] FRIEDMAN, op.cit. pp.257.
[4] CLAUSEWITZ, Karl. Da Guerra. São Paulo, Martins Fontes, 1983. PP. 98
[5] idem, pp. 73.
[6] A política de emprego das forças militares é a seguinte. Na eventualidade de guerra ou intervenção armada no exterior, a responsabilidade de atuar pertence às unidades regulares profissionais. A Guarda Nacional pode ser convocada para substituir no trabalho guarnição as forças transferidas para o estrangeiro. Apenas na eventualidade das tropas regulares serem insuficientes para lidar com o conflito é que se cogita o uso da Guarda Nacional fora país.

[1] BARNES, Jeremy. The pictorial history of the Vietnam War. New York, Gallery Books, 1988, pp.136.
[2] JIAN, Chen. “China and the Vietnam wars”. In: LOWE, Peter (ed.) The Vietnam War. London, MacMillan Press LTD, 1998.
[3] GAIDUK, Ilya V. “Developing an alliance”. In: LOWE, Peter (ed.) The Vietnam War. London, MacMillan Press LTD, 1998.
[4] A batalha de Dien Bien Phu, em 1954, marcou a derrota definitiva do colonialismo francês no Vietnã. Naquele ano, milhares de soldados franceses cercados pelo Vietmih (o exército guerrilheiro do Vietnã) foram obrigados a se render ao general Vo Nguyen Giap, o mesmo personagem contra quem os americanos “quebraram seus dentes” anos mais tarde.

Impasses do Paraíso parte 1

Márcio Scalercio



Impasses no Paraíso:
A crise do Iraque: Clausewitz pode ajudar a vencer batalhas, mas é de muito pouca valia para o trabalho de gendarme.



Como você ousa cochilar à sombra da segurança complacente,
levando uma vida tão frívola quanto as flores do jardim, enquanto
seus irmãos na Síria não têm onde morar, a não ser as selas dos
camelos e as barrigas dos abutres? Sangue foi derramado! Jovens
belas foram envergonhadas (...). Será que os valorosos árabes
devem se resignar ao insulto e os valentes persas aceitar a
desonra(...). Jamais os muçulmanos foram tão humilhados.
Nunca suas terras foram tão selvagemente devastadas (...).

(Trecho do discurso do venerável cádi Abu Saad al-Harawi, ao califa de Bagdá, anunciando a invasão da Primeira Cruzada contra a Síria e Palestina em 1099 d.C e convocando o Comandante dos Crentes a reagir. O venerável cádi exibia sua cabeça raspada, nua por causa do luto. Citado de ALI, Tariq. Confronto de fundamentalismos. Rio de Janeiro - São Paulo, Record, 2002, pp. 63) .



O discurso proferido pelo venerável Abu Saad , que procurava sensibilizar o califa e os muçulmanos contra a ação dos cavaleiros cristãos invasores, se ajusta perfeitamente ao que se passa nos corações e mentes de muitos dos milhões de muçulmanos que habitam o mundo atual. Este é um dos elementos mais candentes presentes nas crises no Iraque e na Palestina. Ambas renovam a cada dia os descontentamentos e a fúria das massas islâmicas contra o Ocidente. Ambas transtornam as relações internacionais instilando discórdias entre velhos aliados (mesmo entre países ocidentais) e instabilidade no sistema entre as nações. Além disso, contribuem para a desmoralização da ONU, (Organização das Nações Unidas), revelando seus estreitos limites de influência e capacidade de formulação de políticas concretas para solucionar conflitos e crises graves. Finalmente, e porque não ressaltar, lamentavelmente, produzem vítimas fatais e prejuízos materiais por toda a parte, de Cabul a Nova Iorque.
A tarefa dos analistas e estudiosos em momentos como esse é árdua. Se devemos manter o olhar atento aos fulminantes acontecimentos do dia a dia da crise, não podemos deixar de reservar tempo para matutar as primeiras reflexões que a seriedade dos eventos exigem. Além dos lances quotidianos, diariamente exibidos com fartura pela mídia, a produção acadêmica provocada pela crise é tão abundante que a leitura minuciosa de tal quantidade de textos é de difícil execução, mesmo para os estudiosos mais dedicados e empenhados. Portanto, vai-se fazendo o humanamente possível, obedecendo os limites do engenho e as restrições de tempo, pois este fator nem sempre nos pertence inteiramente.
A proposição deste artigo é a de apresentar ao leitor a seguinte questão: enfatizando exclusivamente o cenário da atual crise do Iraque, demonstrar que a admiravelmente bem organizada máquina de guerra norte-americana, remodelada após a Campanha do Vietnã, que obteve com alguma facilidade a desagregação das forças armadas convencionais do Iraque e obrou a ocupação dos centros mais importantes do país, não está à altura da tarefa desejada pela liderança política dos Estados Unidos nesse momento: a de servir de principal suporte para a reestruturação do Estado e sociedade iraquianos que obedeça a um enquadramento entendido como viável aos interesses das Potências Ocidentais. O que se vai fazer aqui é um exercício de reflexão centrado em estudos de res militare (coisa militar, assuntos militares), um conjunto de temas em voga desde os tempos de antanho, cujas referências remontam aos textos greco-romanos da antigüidade clássica. A tradição que nutre a relevância de tais assuntos foi reforçada em nossos dias, dentre muitas outras razões, pelo fenômeno da liderança política dos EUA insistir em usar o poder militar como ferramenta fundamental de política externa.
Para que tenhamos uma idéia inicial dessa realidade, basta perceber que, durante os 50 anos de Guerra Fria, os EUA fizeram uso de seu poder militar no exterior por 16 vezes, enquanto que desde 1990, com a desagregação da URSS, forças norte-americanas se envolveram diretamente em conflitos internacionais pelo menos em 46 oportunidades (incluímos nessa contagem a Guerra do Iraque no ano de 2003)[1].

[1] Essa contagem é de Philip Bobbit e não temos razão para desconfiarmos da mesma. O cálculo do autor deixa de fora a Guerra no Iraque porque seu livro foi publicado em 2002. Ver: BOBBIT, Philip. A Guerra e Paz entre as Nações. Rio de Janeiro, editora Campus, 2002, pp. 235.

Em resposta a ataque, Síria fecha duas instituições americanas em Damasco

Damasco, 28 out (EFE).- A Síria decidiu fechar hoje a Escola Americana e o Centro Cultural Americano em Damasco, sua primeira medida após o recente ataque de helicópteros dos Estados Unidos em uma localidade fronteiriça com o Iraque, que deixou oito pessoas mortas e duas feridas.

A decisão foi anunciada pela agência estatal de notícias "Sana" após uma reunião do Conselho de Ministros que analisou a ação armada do último domingo na localidade de Abu Kamal.

O comunicado oficial aprovado no final da reunião de ministros qualifica o ataque como "uma bárbara agressão americana" e afirma que esse "crime brutal constitui um ato de terrorismo de Estado".

O ataque foi executado no domingo passado por quatro helicópteros americanos que chegaram do Iraque e retornaram a esse país, segundo a versão síria.

Por sua vez, fontes dos EUA sustentam que o alvo era um bando que supostamente facilitava a entrada de combatentes de grupos rebeldes no Iraque.

Mesmo assim, as autoridades americanas ainda não confirmaram oficialmente este incidente.

A nota oficial síria diz que o Governo ordenou aos Ministérios de Educação e de Cultura que adotassem as medidas necessárias para o fechamento das duas instituições americanas.

Embora o comunicado mencione que o colégio fechado é a Escola Americana, não existe uma instituição com esse nome na capital síria, e se presume que se trate da Escola Comunitária de Damasco, fundada em 1957, e que tem como alunos os filhos de diplomatas e de trabalhadores expatriados.

Trata-se da única escola de Damasco incluída na lista de colégios no estrangeiro do Departamento de Estado americano. Quando o comunicado oficial sírio foi divulgado, o centro já estava fechado.

Por outro lado, na nota oficial, o Governo sírio condena as declarações feitas pelo porta-voz do Governo iraquiano, Ali Dabbagh, que tentou justificar a ação pelo pouco controle que, em sua opinião, as autoridades de Damasco têm sobre sua linha fronteiriça com o país vizinho.

"O porta-voz do Governo iraquiano deu uma justificativa inaceitável e irresponsável a esta traidora agressão que partiu de território iraquiano contra um povo vizinho, árabe e irmão", acrescentou a declaração.

Além disso, como conseqüência do ataque de domingo, o Governo de Damasco decidiu suspender indefinidamente a próxima reunião da comissão bilateral entre Síria e Iraque, que aconteceria em 12 e 13 de novembro em Bagdá.

Por sua vez, as autoridades iraquianas mostraram rejeição à utilização por parte da Força Aérea americana do território do Iraque para lançar ataques contra a Síria.

Em comunicado divulgado hoje em Bagdá, o porta-voz iraquiano Dabbagh lembrou que seu país abriu uma investigação para esclarecer o ataque.

"O Executivo iraquiano deseja manter os melhores laços com o da Síria, mas, ao mesmo tempo, insiste em que deve acabar o treino armado que algumas organizações dão a terroristas em território sírio e que depois entram no Iraque para lançar ataques contra o povo iraquiano", disse Dabbagh.

Por outro lado, a Síria mandou hoje uma mensagem ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, no qual pede à comunidade internacional que exerça suas responsabilidades frente "à perigosa agressão americana", informou a "Sana".

"O Governo sírio espera que o Conselho de Segurança e os países-membros da ONU assumam sua responsabilidade para impedir a repetição desta perigosa violação, e que responsabilizem o agressor pelo assassinato de cidadãos sírios inocentes", disse a carta.

Ao mesmo tempo, o documento pede ao Executivo iraquiano que realize uma investigação sobre o ataque e que encare sua responsabilidade para impedir que seu território seja novamente utilizado como base para lançar agressões "que são contrárias aos acordos da Liga Árabe, da ONU e ao direito internacional".

O texto lembrou que "esta ação hostil" se produz no tempo em que tanto Washington quanto Bagdá reconheceram os grandes esforços que a Síria exerceu para ajudar a manter a segurança no Iraque e para impedir qualquer infiltração ilegal em seu território

domingo, 26 de outubro de 2008

Excelente palestra sobre o peso do lobby israelense na política externa norte-americana

Com John Mershaimer, Stephen Walt e Robert O. Kehone;


sábado, 30 de agosto de 2008

Resenha: O AMERICANO TRANQÜILO

Em 1952 Saigon está em plena guerra, envolvida na luta pela libertação do local do domínio francês. É nesta época que chega Alden Pyle (Brendan Fraser), um americano idealista que é enviado para ajudar as forças locais. Lá, ele conhece Thomas Fowler (Michael Caine), um veterano correspondente do jornal London Times, que lhe apresenta Phuong (Do Thi Hai Yen), uma bela vietnamita com quem está envolvido. Logo, as intensões de Pyle com Phuong e com o próprio país ficam claras e percebemos que nem tudo é o que parece. Adaptado do livro de mesmo nome de Graham Greene.



quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Enquanto isso, em Moscou...

Ameaçada de sofrer sanções, Rússia provoca os Estados Unidos

33 minutos atrás

MOSCOU (AFP) - O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, acusou nesta quinta-feira os Estados Unidos de terem fabricado o conflito na Geórgia, com o objetivo de favorecer sua política interna, no momento em que possíveis sanções contra Moscou são mencionadas pela União Européia.

O primeiro-ministro russo Vladimir Putin afirmou que o conflito desencadeado pela Geórgia na república separatista da Ossétia do Sul havia sido orquestrado por Washington.

"O fato é que os cidadãos americanos estavam realmente na área de conflito durante o período de hostilidades. Deveriam admitir que só poderiam fazê-lo seguindo as ordens diretas de seus líderes", disse Putin.

"Então, atuaram seguindo estas ordens, fazendo o que lhes foi recomendado, e a única pessoa que pode ter dado estas ordens foi seu líder", acrescentou.

"Se eu entendi bem, isso permite pensar que alguém nos Estados Unidos criou esse conflito especialmente para que a situação piore e para dar uma vantagem em favor de um dos candidatos (...) à eleição presidencial (americana)", acrescentou em referência velada ao republicano John McCain.

A Casa Branca rechaçou a acusação de Putin, considerando-a "não racional".

Um alto funcionário militar russo acusou a Geórgia de continuar a "enviar" forças militares para a Ossétia do Sul e de restabelecer a capacidade de combate de suas forças com a ajuda de países estrangeiros.

Os Estados Unidos, que anunciaram uma revisão des suas relações com a Rússia, evocaram uma possível anulação de seu acordo bilateral de cooperação nuclear civil, considerando qualquer anúncio como prematuro.

Já a presidência francesa da União Européia mencionou pela primeira vez desde o início da crise georgiana a possibilidade de sanções contra a Rússia, na perspectiva da reunião extraordinária da UE que será realizada na segunda-feira em Bruxelas.

"Sanções serão discutidas, assim como outros meios", declarou o ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner. A UE, entretanto, parece dividida em relação a essa questão e suas opções são limitadas.

Essas ameaças, ao que parece, impressionaram pouco o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, que ironizou afirmando que a União Européia estava "simplesmente irritada" com as decepções da Geórgia, "queridinha" do Ocidente.

Ele fez essa declaração durante a reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), em Douchanbé, onde a Rússia recebeu um apoio não muito firme da China e de outros aliados asiáticos, após a sua decisão de reconhecer as repúblicas separatistas georgianas.

Os seis países da OCS - Rússia, China, Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão - declararam que apóiam "o papel ativo da Rússia nas operações de paz e cooperação na região".

A Organização de Xangai se manteve muda em relação à questão da independência dos dois territórios pró-russos e insistiu sobre a necessidade de se "preservar a unidade dos Estados e sua integridade territorial", já que a própria China enfrenta ameaças separatistas.

Já o presidente bielo-russo Alexandre Loukachenko, fiel aliado de Moscou, declarou que a Rússia "não tinha outra escolha" a não ser reconhecer as duas repúblicas, com seu embaixador em Moscou levando a crer que Minsk poderá fazer o mesmo em breve.

Belarus se tornaria então o primeiro país, depois da Rússia, a reconhecer a Ossétia do Sul e a Abkházia.

O presidente russo, Dmitri Medvedev, muito criticado pelos ocidentais, se disse "seguro" de que a "posição unida dos Estados-membros da OCS teria uma repercussão internacional".

Em um novo desafio aos Estados Unidos e a seu projeto de escudo antimísseis, a Rússia anunciou a realização bem-sucedida de um teste com um míssil Topol, capaz de enganar uma defesa antimísseis.

Por sua vez, o presidente George W. Bush anunciou nesta quinta-feira que entregará 5,75 milhões de dólares para ajudar a Geórgia a arcar com as "necessidades mais básicas dos refugiados" do conflito com a Rússia.

Ainda nesta quinta-feira, o Parlamento da Geórgia conclamou o governo a cortar relações diplomáticas com a Rússia por sua "ocupação do território georgiano".

quinta-feira, 13 de março de 2008

Notícias mais Ortodoxas II

Rice e Lula discutem ampliação do conselho da ONU
13/03 - 9:00 am


A secretária americana de Estado, Condoleezza Rice, faz hoje, em Brasília, uma das mais importantes reuniões envolvendo o Brasil e os Estados Unidos. A agenda entre os dois países está dividida em assuntos de consulta em alto nível, como a discussão sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU, e questões diplomáticas de rotina, como o acerto de ponteiros para a reunião de segunda-feira da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, onde o organismo tentará pôr um ponto final na crise envolvendo Equador, Colômbia e o grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
O debate sobre o Conselho de Segurança (CS) não deve chegar a nenhuma posição definitiva, mas para o Brasil é um dos pontos mais importantes na relação com os EUA, pois a questão - concordaram duas fontes, do Itamaraty e da embaixada americana em Brasília - tem tido 'avanços pequenos, mas sensíveis'.
O desempenho diplomático e militar do Brasil no Haiti e na recente crise envolvendo Equador e Colômbia está 'amolecendo' a posição dos EUA sobre o Conselho de Segurança. Em público, nos fóruns internacionais, o governo americano ainda resiste à idéia de uma ampla reforma do CS e apóia apenas a inclusão do Japão como novo membro permanente. No bastidor, há sinais de que o governo americano poderá aceitar a ampliação do número de membros plenos.
A discussão prática do encontro bilateral vai ficar mesmo por conta da crise sul-americana deflagrada com a operação de militares colombianos, na madrugada do dia 1º, que invadiram o território equatoriano para atacar um acampamento das Farc. No bombardeio, 24 guerrilheiros foram mortos, entre eles Raúl Reyes, número 2 do grupo rebelde.
O chanceler Celso Amorim e a secretária de Estado americana tratarão ainda da instabilidade política e social no Timor Leste, da situação no Haiti, da cooperação trilateral (Brasil, EUA e Guiné-Bissau; Brasil, EUA e São Tomé e Príncipe...), além de trocar informações sobre as viagens que os dois, separadamente, fizeram no mês passado por vários países do Oriente Médio. A parte comercial está fora da agenda de Condoleezza.


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo