sexta-feira, 24 de abril de 2009
Década de 2020 deve consolidar poder dos BRICs
Para investigar que desafios cada país do BRIC terá pela frente, no caminho para se tornar uma potência em 2020, a BBC Brasil produziu uma série especial que começa a ser publicada nesta segunda-feira, reunido reportagens multimídia de nossos repórteres no Brasil e enviados especiais a Rússia, Índia e China.
Em 2020, com 3,14 bilhões de habitantes (40% da população mundial naquele ano, segundo projeções da ONU), eles devem chegar mais perto das economias do G-7, após terem crescido a taxas muito superiores às de nações ricas.
O National Intelligence Council, entidade do governo americano ligada a agências de inteligência, prevê que já em 2025 todo o sistema internacional - como foi construído após a Segunda Guerra Mundial - terá sido totalmente transformado.
"Novos atores - Brasil, Rússia, Índia e China - não apenas terão um assento à mesa da comunidade internacional, mas também trarão novos interesses e regras do jogo", afirma a instituição
"Muito provavelmente, por volta de 2020 vamos nos dar conta de que existe um equilíbrio muito maior no mundo em termos econômicos e políticos com o fortalecimento de países emergentes como China, Índia, Brasil e Rússia. Com um maior poder econômico, virá também um maior poder político e uma participação ativa desses países em organismos internacionais", disse à BBC Brasil Stepháne Garelli, professor da Universidade de Lausanne, na Suíça, e autor de um estudo que traça cenários para 2050.
Conceito complexo
O conceito de sistema multipolar é complexo e, ainda que boa parte dos analistas concorde que o mundo caminha para isso, o tempo que levará para que a China tenha voz no Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil tenha um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU ou o Banco Mundial seja dirigido por um russo ou indiano variam muito.
Mas a discussão já não se limita mais ao meio acadêmico. Diferentes aspectos do que pode vir a ser um mundo multilateral (ou multipolar) já começam a aparecer em discursos de autoridades que estão no centro do processo de tomada de decisões internacionais.
Um exemplo recente vem de Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico, que, às vésperas do encontro do G-20, em Londres, declarou no Brasil que "o tempo em que poucas pessoas mandavam na economia acabou".
Também às vésperas do encontro, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse em entrevista a uma TV francesa que "soluções globais supõem que a governança de instituições como o FMI seja mais legítima, mais democrática, com espaço para os países emergentes e pobres".
Reunião do G-20
A reunião do G-20, grupo que une países emergentes aos países-membros do G-8, pode ser vista como um sinal dessas mudanças. A voz dos emergentes no cenário de crise ganha especial relevância.
Segundo boa parte dos analistas ouvidos pela BBC Brasil, eles não apenas serão menos afetados do que os países desenvolvidos pela crise, como também podem se recuperar mais rapidamente.
Essa possível recuperação mais rápida se baseia em alguns pilares que serão também propulsores do crescimento de longo prazo.
"A situação das economias desses países é muito diferente. Mas, de maneira geral, os BRIC estão mais bem posicionados para a recuperação do que muitas outras economias", disse Markus Jaeger, responsável por análises de longo prazo no Deutsche Bank.
Para Alfredo Coutinho, analista mexicano da agência Moody's nos Estados Unidos, a crise revela ainda a vulnerabilidade das economias desenvolvidas e deixa clara a necessidade de equilíbrio na economia global.
"É uma oportunidade para as economias emergentes, que devem liderar a recuperação", disse Coutinho.
Crise
Em entrevista à BBC Brasil, Jim O'Neill, economista-chefe do Goldman & Sachs, que criou a sigla BRIC em 2001, prevê que a crise até mesmo acelere a escalada dos emergentes, e diz que já em 2020 a economia desses quatro países encoste nas dos países do G-7, o grupo das atuais nações mais ricas do mundo.
Não faltam céticos em relação à projeção de O'Neill. John Bowler, diretor do Serviço de Risco por País (CRS na sigla em inglês) da Economist Intelligence Unit é um deles.
"Acho que esse processo será mais demorado. Há uma série de obstáculos à confirmação dessas projeções tanto no campo econômico quanto político", disse Bowler.
Apesar das ressalvas feitas por muitos dos ouvidos pela BBC Brasil, o "otimismo" de O'Neill não é isolado.
Um relatório da consultoria Ernst&Young, Global Megatrends 2009, por exemplo, afirma que "a fome de crescimento, junto com a rápida industrialização das economias e populações em expansão, põe os emergentes no caminho da recuperação mais rapidamente, e os países do BRIC são claramente os atores principais".
Essa fome de crescimento vem, em parte, da nova classe média que tem revolucionado o consumo nesses países. Segundo o Banco Mundial, 400 milhões de pessoas se encaixavam nessa categoria em 2005 nos países em desenvolvimento. Em 2030, deverão ser 1,2 bilhão de pessoas.
"A classe média, principalmente dos países do BRIC, será o novo motor da economia mundial", prevê Stepháne Garelli, da Universidade de Lausane e diretor do índice de competitividade, publicado pelo Institute of Management Development, que avalia 61 países em 312 critérios.
"É uma classe média ávida por comprar seu primeiro carro, seu primeiro celular de última geração. Não é conservadora como a classe média do atual mundo rico. Ela quer 'comprar felicidade'", acrescentou.
Padrão de vida
O valor do PIB dará posição de destaque a esses países no ranking global de economias, mas não será suficiente para levar as populações desses países a padrões de vida próximos ao dos países hoje considerados ricos.
O PIB per capita da Índia, por exemplo, deverá praticamente dobrar num período de 15 anos até 2020, segundo um estudo do departamento de pesquisas do Deutsche Bank. Ainda assim, representará apenas 40% da renda per capita nos Estados Unidos.
De olho em indicadores como o PIB per capita, Françoise Nicolas, economista do Instituto Francês de Relações Internacionais, prevê a ascensão das "superpotências pobres".
"Será um mundo multipolar bizarro. Os BRIC serão superpotências pobres com mais peso econômico, mas o discurso ainda não estará no mesmo nível dos países ricos", prevê Nicolas.
Além da pobreza, esses países enfrentam outros desafios, como a proteção ao meio ambiente.
"Eles querem ter maior poder de decisão e, ao mesmo tempo, em certas questões como o meio ambiente, querem continuar a ser tratados como países emergentes, que não podem cumprir as mesmas exigências dos ricos", disse Thomas Klau, chefe do escritório de Paris do Council of Foreign Relations.
*Colaboraram nesta reportagem: Bruno Garcez, da BBC Brasil em Washington, Daniela Fernandes, de Paris para a BBC Brasil, e Marina Wentzel, de Hong Kong para a BBC Brasil
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Ossétia do Sul: Rússia criticou relatório da HRW sobre conflito com a Geórgia
Moscovo, 27 Jan (Lusa) - A Rússia criticou segunda-feira o relatório da organização Human Rights Watch sobre "os crimes de guerra" cometidos durante o conflito russo-georgiano de Agosto passado pelo controlo da Ossétia do Sul, afirmando que se baseia "em argumentos sem fundamento".
No seu relatório tornado público sexta-feira, a organização, com sede em Nova Iorque, acusou a Rússia e a Geórgia de terem atingido civis em ataques cegos e as milícias da Ossétia de terem levado a cabo "uma limpeza étnica" contra os Georgianos do território independentista.
"O relatório baseia-se em lugares comuns e argumentos sem fundamento" já referidos pelos meios de comunicação social, afirmou o ministério russo dos Negócios estrangeiros.
O ministério recusa a maneira como a HRW fala na "responsabilidade da Rússia nas acções das forças da Ossétia do Sul e na resposta desproporcionada (das forças russas) à agressão georgiana".
Mas, segundo o comunicado do ministério, "o relatório não menciona praticamente os estragos colossais sofridos pela Ossétia do Sul na sequência da agressão georgiana".
A Rússia enviou soldados para a Geórgia no início de Agosto, após o desencadeamento por Tbilissi de uma ofensiva para tentar reassumir o controlo da Ossétia do Sul.
LMP
Lusa/fim
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Acordo detalha missão de monitores internacionais na crise do gás
O objetivo do mecanismo de observação será facilitar o trânsito de gás natural fornecido pela Gazprom a seus clientes na UE, assinala o documento com os termos estipulados, divulgado pela Comissão Européia (CE).
A criação do sistema de observação tem "efeito imediato" e os observadores começarão "imediatamente" a supervisionar o trânsito de gás através da Ucrânia.
O grupo de observadores será formado por até 25 pessoas de cada uma das partes, e seu trabalho será recolher dados sobre o fluxo de gás em pontos-chave de Rússia e Ucrânia.
As três partes garantem "o acesso completo e sem restrições" a todos os pontos relevantes para o controle do fluxo, especialmente os armazéns subterrâneos e estações de medição na Ucrânia, assinala o texto.
Os monitores internacionais também estarão presentes nos países da UE que fazem fronteira com a Ucrânia, e deverão ter acesso à informação necessária para conhecer o fluxo de gás russo através do território ucraniana com destino ao bloco.
A informação recolhida pelos observadores será transmitida em tempo real às autoridades competentes em Bruxelas, Kiev e Moscou.
O documento estabelece que as autoridades ucranianas e russas facilitarão o trabalho dos monitores, e que o custo de suas atividade será pago pela parte que representam.
Os observadores serão enviados pela CE, os ministérios de Energia da Rússia e Ucrânia, as empresas Gazprom (russa) e Naftogaz (ucraniana), e por 12 companhias de 11 países, nove deles membros da UE (França, Alemanha, República Tcheca, Eslováquia, Áustria, Itália, Hungria, Bulgária e Grécia), além de dois extracomunitários (Noruega e Moldávia)
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
UE anuncia acordo com Rússia e Ucrânia para enviar monitores em crise do gás
Praga, 7 jan (EFE).- A União Européia (UE) alcançou um acordo com a Rússia e a Ucrânia para enviar monitores a ambos os países e controlar o fornecimento de gás natural para a Europa, anunciou hoje o presidente da Comissão Européia (órgão executivo do bloco), José Manuel Durão Barroso.
Os detalhes concretos serão fechados amanhã, em Bruxelas, em reuniões do comissário europeu de Energia, Andris Piebalgs, com a estatal de gás russa Gazprom e com autoridades da Ucrânia.
Essas reuniões vão fixar as condições técnicas e o estabelecimento da comissão de controle que verificará as alegações dos dois lados, explicou o primeiro-ministro tcheco, Mirek Topolanek, em entrevista coletiva conjunta com Barroso.
Topolanek acrescentou que a criação dessa comissão de controle não garante que as conversas entre Rússia e Ucrânia tenham êxito, e disse que se a provisão não for retomada "de forma imediata e fluente", a UE realizará na segunda-feira uma reunião extraordinária de Ministros de Energia.
Barroso exigiu que o fornecimento de gás "seja imediatamente retomado", e afirmou que o caso contrário pode significar uma crise de credibilidade para a Rússia.
Topolanek e Barroso não quiseram detalhar em que poderiam consistir as "medidas mais severas" que tinham sido anunciadas pouco antes pelo premiê tcheco para o caso de não haver um reatamento imediato da provisão de gás russo para a UE através da Ucrânia.
O presidente da CE se esforçou para mostrar imparcialidade, mas advertiu que "se a provisão não for retomada completamente, a UE terá que começar a considerar que o transporte de gás natural russo através da Ucrânia não é confiável".
Além da reunião técnica de amanhã em Bruxelas, os ministros de Exteriores comunitários analisarão a situação em reunião informal em Praga.
Barroso assinalou que o Grupo de Coordenação do Gás da UE se reunirá na sexta-feira, em Bruxelas, para debater, entre outras questões, o início de mecanismos de solidariedade entre os países comunitários "se houver falta (de gás)".
Mesmo assim, o presidente da CE reconheceu que os mecanismos atuais de solidariedade "não são suficientes", já que falta maior infra-estrutura de conexão, e lamentou que uma proposta da Comissão para destinar 5 bilhões de euros para ampliá-las não foi ainda aprovada pelo Conselho da UE.
"Uma lição que aprendemos desta situação é de que precisamos iniciar interconexões confiáveis e reais", acrescentou.
Barroso lembrou que falou pela manhã de hoje com os primeiros-ministros da Rússia, Vladimir Putin, e da Ucrânia, Yulia Timoshenko, e assinalou que ambos lhe alegaram que não estão causando problemas com a provisão.
"Ambos disseram que não querem tornar nossa vida mais difícil", acrescentou.
Por isso, disse que se isso se cumprisse na realidade "não deveria haver problemas" no fornecimento à Europa, por isso insistiu -sem querer inclinar-se por nenhum lado- que a UE espera que "Rússia ponha gás na rede e que a Ucrânia não o interrompa".
UE fará reunião com autoridades russas sobre fornecimento de gás
MOSCOU/KIEV (Reuters) - A União Européia programou conversações com a Rússia para pressionar por uma resolução rápida de uma disputa com a Ucrânia que vem prejudicando o fornecimento de gás a países do sul e leste da Europa, que enfrentam temperaturas geladas.
A empresa russa que detém o monopólio do gás no país, Gazprom, cortou o suprimento de gás à Ucrânia em 1o de janeiro, devido a uma disputa sobre dívidas e preços que não dá sinais de chegar ao fim.
A iniciativa preocupa alguns países europeus, que recebem um quinto de seu gás de gasodutos que atravessam a Ucrânia.
Uma missão de investigação de fatos da UE vai se reunir com representantes da Gazprom na terça-feira, apesar de não haver perigo imediato aos consumidores da UE decorrente da disputa, disse um porta-voz da Comissão da UE.
A Comissão disse que a reunião acontecerá numa capital européia, mas o local ainda não foi confirmado.
"Como somos o mercado principal para o gás russo ... temos interesse evidente em pressionar as partes para chegarem o mais rapidamente possível a um acordo que seja definitivo", disse Johannes Laitenberger.
Empresas de energia disseram que os problemas no fornecimento de gás, que já tinham atingido a Turquia, Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria, chegaram à Croácia e à Grécia na segunda-feira.
Um representante da empresa de gás grega DEPA disse à Reuters: "Fomos informados hoje de que vamos receber apenas 4 milhões de metros cúbicos de gás natural da Rússia, quando havíamos pedido 6 milhões de metros cúbicos."
Na República Tcheca, que ocupa a presidência rotatória da UE, o fornecimento de gás diminuiu no fim de semana, mas voltou ao normal na segunda, de acordo com a principal fornecedora do país.
A disputa do gás, que espelha outra crise semelhante de três anos atrás que prejudicou o fornecimento à Europa via Ucrânia, ameaça os laços de Moscou com o Ocidente, já sob tensão devido à guerra de Moscou com a Geórgia em agosto.
O Kremlin se opõe há muito tempo à ambição da Ucrânia de ingressar na Otan, e alguns políticos ocidentais enxergam paralelos entre o conflito na Geórgia e o tratamento dado pela Rússia à Ucrânia.
O executivo-chefe da Gazprom, Alexei Miller, vai se reunir na segunda-feira com o premiê russo, Vladimir Putin, para discutir a disputa, disse uma porta-voz do governo.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Rússia desenvolve mísseis contra armas espaciais

Agência AFP
Moscou pretende, desse modo, neutralizar supostos projetos dos Estados Unidos de posicionar armas no espaço.
Solovtsov mencionou especificamente o novo míssil intercontinental RS-24, que a Rússia planeja posicionar até o fim de 2009.
domingo, 28 de setembro de 2008
Cooperação Nuclear entre Venezuela e Rússia
Putin oferece ajuda nuclear à Venezuela em visita de Chávez
Por Christian Lowe e Oleg Shchedrov
NOVO-OGARYOVO, Rússia (Reuters) - O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, disse que está pronto para considerar uma ajuda à Venezuela no desenvolvimento de seu programa de energia nuclear, depois de se encontrar com o presidente Hugo Chávez na quinta-feira.
A medida em direção à cooperação mais próxima no setor militar entre Moscou e Caracas acontece pouco depois do conflito na Geórgia, que causou condenações generalizadas do Ocidente sobre a intervenção russa no país.
A proposta de apoio a Chávez, um crítico declarado dos Estados Unidos, acontece dias depois de a Rússia bloquear uma reunião entre líderes de grandes potências na ONU em Nova York para discutir sanções contra o Irã por seus planos nucleares.
"Estamos todos prontos para operar na esfera da energia atômica pacífica", disse Putin no início de uma conversa com Chávez em sua residência nos arredores de Moscou.
A visita do líder sul-americano acontece uma semana depois que aviões russos de bombardeio voaram até a Venezuela.
"Não posso deixar de te agradecer pela recepção cordial dada aos nossos bombardeiros estratégicos que ficaram por vários dias na Venezuela", disse Putin.
Em uma segunda manobra militar, navios de guerra russos estão se dirigindo para o Caribe para exercícios militares em conjunto com a Venezuela.
A Rússia deixou claro que os exercícios militares recentes são uma resposta aos Estados Unidos, que mandaram navios de guerra para levar ajuda humanitária para a Geórgia.
"AMIGO VLADIMIR"
Chávez, que chamou Putin de "amigo Vladimir", espera aprofundar os laços militares com a Rússia durante sua visita de dois dias. Putin disse que a Rússia está pronta para considerar vendas de armas para a Venezuela, acrescentando que Moscou estava prestando mais atenção em toda a região.
"A América Latina está se tornando uma ligação muito importante na corrente do novo mundo multi-polar que está se formando, e iremos prestar mais e mais atenção nessa direção de nossas políticas econômicas e externas", disse.
No dois últimos anos, 12 contratos de armas com o valor total de 4,4 bilhões de dólares foram assinados entre Rússia e Venezuela, segundo uma fonte do Kremlin. A Rússia também decidiu oferecer à Venezuela um crédito de 1 bilhão de dólares para comprar mais armas, disse a fonte.
Agências de notícias russas disseram que a Venezuela mostrou interesse na compra de submarinos, armas anti-aéreas e aviões militares.
Os Estados Unidos e a União Européia são dependentes das exportações de petróleo e gás vindos da Venezuela e da Rússia, outra esfera na qual Putin anunciou mais cooperação.
"Estou muito feliz de dizer que o lançamento da primeira plataforma de petróleo da Gazprom no golfo venezuelano está prevista para o final de outubro", disse Putin.
A fonte do Kremlin disse que a cooperação nos setores de energia e mineração seria um tópico importante nas conversas. As empresas russas de energia e mineração como Gazprom, Lukoil, TNK-BP e Rusal já operam na Venezuela.
"A cooperação no setor de energia e mineração continua sendo a principal prioridade para cooperação econômica", disse a fonte.
Copyright © 2008 Reuters Limited. Todos os direitos reservados. Republicação ou redistribuição do conteúdo produzido pela Reuters é expressamente proibido sem autorização prévia por escrito. A Reuters não se responsabiliza por nenhum erro de conteúdo ou atraso de sua distribuição, ou qualquer outra ação decorrente desta publicação.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Guerra e Paz
José Luís Fiori
A guerra nunca deflagra subitamente:
a sua extensão não é obra de um instante
Carl Von Clausewitz, Da Guerra, [1]
Os fatos mais recentes e importantes são conhecidos. Em abril, a última reunião de cúpula da OTAN, em Bucareste, reconheceu a aspiração da Geórgia a participar da aliança militar liderada pelos EUA, apesar da resistência alemã e da oposição explícita do governo russo. E em 11 de julho, aviões da Força Aérea Russa sobrevoaram o território da Ossitéia do Sul, na véspera da visita à Geórgia da secretária de Estado norte-americana, Condollezza Rice, para inaugurar a operação “Resposta Imediata 2008”, um exercício militar conjunto do exército norte-americano com as tropas da Geórgia, Ucrânia, Armênia e Azerbaijão, realizado na base aérea de Vaziani, que havia pertencido à Força Aérea Russa até 2001.
Logo em seguida, em 8 de agosto, as forças armadas da Geórgia atacaram a província da Ossétia do Sul e conquistaram sua capital, Tskhinvali. Não está claro por que a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, exatamente no dia da inauguração das Olimpíadas de Pequim. Mas não há dúvidas de que a grande surpresa dos governos envolvidos nesta história foi a rapidez, extensão e eficácia da resposta russa, que em poucas horas cercou, dividiu e atacou — por terra, mar e ar — o território da Geórgia, numa demonstração contundente de decisão política, organização militar e poder de conquista. Tudo feito com tamanha rapidez e agilidade que deixou os governos “ocidentais” perplexos, divididos e impotentes, obrigados a acompanhar os desdobramentos da ofensiva russa hora a hora, através de fatos consumados, sem conseguir saber ou poder antecipar o seu objetivo final.
Logo depois da Segunda Guerra Mundial, Hans Morgenthau, pai da teoria política internacional norte-americana, formulou uma tese muito simples e clássica sobre a origem das guerras. Segundo ele, “a permanência do status de subordinação dos países derrotados numa guerra pode facilmente produzir a vontade destes países desfazerem a derrota e jogarem por terra o novo status quo internacional criado pelos vitoriosos, retomando seu antigo lugar na hierarquia do poder mundial. Ou seja, a política imperialista dos países vitoriosos tende a provocar uma política imperialista igual e contrária da parte dos derrotados. E se o derrotado não tiver sido arruinado para sempre, ele quererá retomar os territórios que perdeu, e se possível, ganhar ainda mais do que perdeu, na última guerra”. [2] .
Em 1991, a vitória não foi apenas dos EUA, mas também da Alemanha e China. À Rússia, restou a condição de potencia derrotada — que se apressa em reverter o novo status quo internacional e retomar seu lugar na hierarquia do poder mundial
Em 1991, depois do fim da Guerra Fria, não houve um acordo de paz que estabelecesse as perdas da União Soviética e que definisse claramente as regras da nova ordem mundial imposta pelos vitoriosos — como havia acontecido no fim da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais. De fato, a URSS não foi atacada, seu exército não foi destruído e seus governantes não foram punidos, mas durante toda a década de 90 os EUA e a UE apoiaram a autonomia dos países da antiga zona de influência soviética e promoveram ativamente o desmembramento do território russo. Começando pela Letônia, Estônia e Lituânia, e seguindo pela Ucrânia, a Bielorússia, os Bálcãs, o Cáucaso e os países da Ásia Central. Neste período, os EUA também lideraram a expansão da OTAN, na direção do leste, contra a opinião de alguns países europeus. E, mais recentemente, os EUA e a UE apoiaram a independência do Kosovo, aceleraram a instalação do seu “escudo anti-mísseis”, na Europa Central e estão armando e treinando as forças armadas da Ucrânia, da Geórgia e dos países da Ásia Central, sem levar em conta que a maior parte destes países pertenceu ao território russo, durante os últimos três séculos.
Em 1890, o Império Russo, construído no século 18 por Pedro, o Grande, e Catarina II, tinha 22,4 milhões de quilômetros quadrados e 130 milhões de habitantes. Era o segundo maior império contíguo da história da humanidade e uma da cinco maiores potencias da Europa. No século 20, durante o período soviético, o território russo manteve-se do mesmo tamanho. A população chegou a 300 milhões de habitantes e a Rússia transformou-se na segunda maior potência militar e econômica do mundo. Pois bem: hoje, a Rússia tem 17,1 milhões de quilômetros quadrados e apenas 152 milhões de habitantes. Ou seja, em apenas uma década — a de 1990 —, perdeu cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados e 140 milhões de habitantes,
A maior parte dos analistas internacionais que se dedicam a prever o futuro se esquecem — em geral — de que os grandes vitoriosos de 1991 não foram apenas os EUA, mas também a Alemanha e a China. Foi uma virada histórica onde só houve um grande derrotado, a URSS, cuja destruição trouxe de volta ao cenário internacional uma Rússia mutilada e ressentida. Alemanha e China ainda tomarão muitos anos para “digerir” os novos territórios e zonas de influência que conquistaram, nas últimas décadas, na Europa Central e no Sudeste Asiático. Enquanto isto, o desaparecimento da União Soviética colocou a Rússia na condição de uma potencia derrotada, que perdeu um quarto do seu território, e metade de sua população, mas ainda mantém de pé seu armamento atômico e seu potencial militar e econômico, junto com uma decisão cada vez explícita “de desfazer a derrota, e jogar por terra o novo status quo internacional criado pelos vitoriosos (em 1991), retomando seu lugar na hierarquia do poder mundial”.
Por isto, neste início do século 21, a Rússia é um desafio e uma incógnita, para os dirigentes de Bruxelas e de Washington e para os comandantes militares da OTAN. Quando na verdade, o mistério não é tão grande, e se Hans Morghentau estiver com a razão, trata-se de um segredo de Polichinelo. A Rússia foi a grande perdedora da década de 90, e ao contrário do que diz o senso comum, será a grande questionadora da nova ordem mundial, qualquer que ela seja. Até que lhe devolvam — ou ela retome — o seu velho território, conquistado por Pedro, o Grande, e Catarina II. Por isso, a atual guerra na Geórgia não é uma guerra antiga. Pelo contrário, é um anúncio do futuro.
[1] Martins Fontes, São Paulo 1979 [1832] p: 77
[2] Morgenthau, H.J. (1993) [1948]. Politics Among Nations, The Struggle for Power and Peace, Mc Graw, New York, p:66
A Campanha da Rússia
Eu gosto muito desse tema porque uma das minhas músicas favoritas e meu nome não existiriam se essa campanha não existisse... Eu explico, mas primeiro, o que foi a campanha?
Ela começou na madrugada do dia 24 de junho de 1812, quando o grande exército napoleônico cruzou o Nemen e invadiu a Rússia sem avisos ou declarações formais de guerra, e a 17 de Agosto atacava Smolensk. A ação foi um golpe nos planos de Alexandre I, que desde maio vinha montando seu próprio grande exército. Incluindo cossacos e milícias populares, chegava-se à espantosa cifra de 900 mil homens. O problema é que essa massa militar estava sendo reunida na Moldávia, na Criméia, no Cáucaso, na Finlândia e em regiões do interior do império, longe demais do local de entrada do exército francês. Por isso, em junho de 1812 os russos só conseguiram colocar cerca de 280 mil homens e 934 canhões na fronteira ocidental.
Ao todo, eram três exércitos cuidando da fronteira. O 1° Exército, com 160 mil homens, combateria sob as ordens do general e ministro da guerra, Mikhail Bogdanovich Barclay de Tolly, posicionado em direção a São Petersburgo. O 2° Exército, de Pyotr Bagration, general e príncipe da Geórgia, tinha 62 mil homens e se fixara entre os rios Nemen e Bug, ao norte dos pântanos de Pripet. Já o Terceiro Exército, do general Pyotr Alexander Tormasov, tinha cerca de 58 mil homens e olhava para o sul, em direção a Kiev. Sem condições de contra-atacar, os russos começaram a se retirar para o interior da pátria-mãe. Era uma necessidade para oferecer combate aos invasores. Em 8 de julho, a Rússia saiu às ruas para ouvir um manifesto de Alexandre I que conclamava o povo a combater os franceses. As milícias populares vieram por causa do chamado, apoiado pela Igreja Ortodoxa. Cossacos, camponeses e até ciganos se alistaram aos milhares.
Mesmo assim, no dia 23 de julho o marechal Davout bloqueou a passagem do general Bagration em Mogilev (na atual Bielorrússia) e impediu sua reunião com Barclay e, por extensão, a reação russa. Os problemas, entretanto, já começavam a rondar a brigada francesa. Sem ter lutado nenhuma batalha decisiva, a grand armée havia sido reduzida em cerca de 2/3 por causa de fadiga,fome, deserção e morte. A vantagem, porém, continuava ao lado de Napoleão. No lado oposto, o czar reclamava da incompetência de Barclay em interromper o avanço francês e o substituiu pelo general Mikhail Illarionovich Kutuzov em 20 de agosto. Este, contudo, após tomar ciência da situação, continuou a estratégia de seu antecessor. Na época, ele disse o seguinte a seus homens: "Os franceses vieram para cá sozinhos e sozinhos voltarão". É preciso entender que essa retirada russa escondia um mecanismo perverso. Quanto mais os franceses avançavam, mais sofriam com a falta de comida e armamentos. Em paralelo, as fileiras de Alexandre I engordavam. Preocupado em conseguir suprimentos, Napoleão rumou para a capital russa, onde tinha a certeza de poder se reabastecer. Não foi bem o que aconteceu.
Kutuzov na Batalha de Borodino.
Em setembro, o general Kutuzov achou que chegara o momento de parar e lutar. Estacionou seus então 155 mil homens e 640 canhões na aldeia de Borodino, a menos de 150 km de Moscou. No dia 7 de setembro, às 6 horas da manhã, Napoleão deu início ao ataque com seus 135 mil homens e 587 canhões. O sangue jorrou até depois do pôr-do-sol. Foram cerca de 16 horas de confronto ininterrupto, transformando Borodino na maior batalha de um dia das Guerras Napoleônicas. Apesar de a vitória ter sido francesa, a armada de Napoleão amargou 58 mil mortos, incluindo 48 marechais. Os russos perderam quase metade de seu exército: 66 mil baixas, entre elas a do general Bagration. A demora na chegada do reforço e o massacre do dia anterior fizeram Kutuzov optar pela retirada. Enquanto Napoleão esperava a rendição do czar, o inimigo aumentava seus exércitos rapidamente.
O exército de Napoleão em Moscou.
Napoleão teve então de reavaliar as opções. Seu exército estava enfraquecido. As linhas de abastecimento foram cortadas. A rendição inimiga não dava mostras de acontecer. Após cinco semanas acampando sobre as cinzas da cidade, decidiu dar meia volta e iniciar o retorno à França em 19 de outubro. Junto aos soldados, seguiram uma lenta procissão de carroças carregadas de peles, prata, porcelana e seda — fruto de saques. Em 24 de outubro, 20 mil homens do marechal francês Delzons procuravam suprimentos em Maloyaroslavets, a 121 km de Moscou. Ao dar com os primeiros franceses, o general russo Kutuzov cometeu um erro. Acreditando se tratar de uma facção desgarrada, enviou apenas 12 mil homens para detê-la. Na Batalha de Maloyaroslavets, apesar da vitória tática de Napoleão, o imperador francês foi empurrado de volta ao caminho devastado usado na ida. No dia 4 de novembro, uma neve pesada começou a cair sobre os franceses desnutridos. No dia 9 de novembro, a temperatura caiu para cerca de -26°C e continuava baixando. O frio penetrava nas roupas esfarrapadas dos soldados e se somava à exaustão. Muitos mal conseguiam andar, quanto mais resistir aos constantes ataques dos cossacos liderados pelo chefe Matvey Ivanovich Platov. Quando essa multidão maltrapilha finalmente alcançou os suprimentos guardados em Smolensk, toda a disciplina militar desapareceu. Uma turba de soldados famélicos saqueou os armazéns e destruiu boa parte dos alimentos, que poderiam ter durado o inverno inteiro. Por volta do dia 16 de novembro, sob o frio de -32°C, a marcha tentava ir para casa.
O passo seguinte era atravessar o rio Berezina (na atual Bielorrússia). No dia 26 de novembro, os remanescentes da grande armée caíram numa armadilha. Pela frente os russos seguravam a ponte. Por trás pressionava o exército de Kutuzov. Em segredo, Napoleão enviou seu corpo de engenharia para construir uma ponte improvisada sobre o semicongelado Berezina. Quando os russos perceberam, abriram fogo. Cerca de 10 mil russos pereceram, contra 36 mil franceses, muitos dos quais só foram encontrados com o degelo da primavera. No dia 14 de dezembro de 1812, sob um frio de -38°C, apenas 10 mil homens conseguiram cruzar o rio Nemen de volta. A contagem das baixas do fracasso napoleônico: 550 mil homens mortos. No lado russo, 250 mil soldados efetivos e 50 mil entre milícias cossacas e populares. A campanha da Rússia mostrou que Napoleão não era invencível. Muitos países se rebelaram. Era o fim do sonho napoleônico de um domínio da Europa
Até 1941 a campanha era conhecida na Rússia sob o nome de Guerra Patriótica (em russo Отечественная война, Otechestvennaya Voyna). Atualmente, o termo russo Guerra Patriótica de 1812 a distingüe da Grande Guerra Patriótica, que designa a campanha levada à cabo pelos Soviéticos contra os Nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mais do que isso, essa vitória marcou profundamente a cultura Russa, tanto que Leon Tolstoi escreveu seu clássico "Guerra e Paz" como essa Guerra de pano de fundo. Além disso temos o famoso 1812 Overture de Tchaikovsky que também retrata esse momento.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Enquanto isso, em Moscou...
Ameaçada de sofrer sanções, Rússia provoca os Estados Unidos
33 minutos atrás
MOSCOU (AFP) - O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, acusou nesta quinta-feira os Estados Unidos de terem fabricado o conflito na Geórgia, com o objetivo de favorecer sua política interna, no momento em que possíveis sanções contra Moscou são mencionadas pela União Européia.
O primeiro-ministro russo Vladimir Putin afirmou que o conflito desencadeado pela Geórgia na república separatista da Ossétia do Sul havia sido orquestrado por Washington.
"O fato é que os cidadãos americanos estavam realmente na área de conflito durante o período de hostilidades. Deveriam admitir que só poderiam fazê-lo seguindo as ordens diretas de seus líderes", disse Putin.
"Então, atuaram seguindo estas ordens, fazendo o que lhes foi recomendado, e a única pessoa que pode ter dado estas ordens foi seu líder", acrescentou.
"Se eu entendi bem, isso permite pensar que alguém nos Estados Unidos criou esse conflito especialmente para que a situação piore e para dar uma vantagem em favor de um dos candidatos (...) à eleição presidencial (americana)", acrescentou em referência velada ao republicano John McCain.
A Casa Branca rechaçou a acusação de Putin, considerando-a "não racional".
Um alto funcionário militar russo acusou a Geórgia de continuar a "enviar" forças militares para a Ossétia do Sul e de restabelecer a capacidade de combate de suas forças com a ajuda de países estrangeiros.
Os Estados Unidos, que anunciaram uma revisão des suas relações com a Rússia, evocaram uma possível anulação de seu acordo bilateral de cooperação nuclear civil, considerando qualquer anúncio como prematuro.
Já a presidência francesa da União Européia mencionou pela primeira vez desde o início da crise georgiana a possibilidade de sanções contra a Rússia, na perspectiva da reunião extraordinária da UE que será realizada na segunda-feira em Bruxelas.
"Sanções serão discutidas, assim como outros meios", declarou o ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner. A UE, entretanto, parece dividida em relação a essa questão e suas opções são limitadas.
Essas ameaças, ao que parece, impressionaram pouco o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, que ironizou afirmando que a União Européia estava "simplesmente irritada" com as decepções da Geórgia, "queridinha" do Ocidente.
Ele fez essa declaração durante a reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), em Douchanbé, onde a Rússia recebeu um apoio não muito firme da China e de outros aliados asiáticos, após a sua decisão de reconhecer as repúblicas separatistas georgianas.
Os seis países da OCS - Rússia, China, Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão - declararam que apóiam "o papel ativo da Rússia nas operações de paz e cooperação na região".
A Organização de Xangai se manteve muda em relação à questão da independência dos dois territórios pró-russos e insistiu sobre a necessidade de se "preservar a unidade dos Estados e sua integridade territorial", já que a própria China enfrenta ameaças separatistas.
Já o presidente bielo-russo Alexandre Loukachenko, fiel aliado de Moscou, declarou que a Rússia "não tinha outra escolha" a não ser reconhecer as duas repúblicas, com seu embaixador em Moscou levando a crer que Minsk poderá fazer o mesmo em breve.
Belarus se tornaria então o primeiro país, depois da Rússia, a reconhecer a Ossétia do Sul e a Abkházia.
O presidente russo, Dmitri Medvedev, muito criticado pelos ocidentais, se disse "seguro" de que a "posição unida dos Estados-membros da OCS teria uma repercussão internacional".
Em um novo desafio aos Estados Unidos e a seu projeto de escudo antimísseis, a Rússia anunciou a realização bem-sucedida de um teste com um míssil Topol, capaz de enganar uma defesa antimísseis.
Por sua vez, o presidente George W. Bush anunciou nesta quinta-feira que entregará 5,75 milhões de dólares para ajudar a Geórgia a arcar com as "necessidades mais básicas dos refugiados" do conflito com a Rússia.
Ainda nesta quinta-feira, o Parlamento da Geórgia conclamou o governo a cortar relações diplomáticas com a Rússia por sua "ocupação do território georgiano".
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
A Declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Federação da Rússia
A Rússia reconheceu a independência da Ossétia do Sul e Abcásia, tendo consciência da sua responsabilidade pela garantia da sobrevivência dos povos-irmãos destas repúblicas perante o curso político agressivo e chauvinista de Tbilisi.
À base deste curso é o lema "Geórgia para os georgianos" lançado em 1989 por Zviad Gamsakhurdia, que o tentou por em practica em 1992 cancelando a autonomia das regiões e mandando as tropas para assaltar Sukhumi e Tskhinvali com o objetivo de consolidar pela força uma arbietraridade praticada. Já naquela altura na Ossétia do Sul teve lugar o genocídio: os ossetas sofreram o extermínio e expatriação em massa.
À abnegação dos povos insurgidos contra o agressor e os esforços da Rússia, levaram ao suspenção do derramamento do sangue e assinatura do acordo do cessar-fogo, a criaçãos os mecanismos de manutenção da paz e de estudo de todos os aspetos da solução dos conflitos.
Em 1992 na Ossétia do Sul e em 1994 em Abcásia foram criadas as forças de manutenção da paz, formadas as estruturas para incentivar por mediação da Rússia o fortalecimento da confiança mútua e a solução dos problemas da recuperação econômica e social e da questão do estatuto político. Estes passos tiveram o apoio da ONU e OSCE, que contribuíram para os trabalhos dos mecanismos respetivos e enviaram os observadores às zonas dos conflitos.
Os mecanismos da manutenção da paz e de negociação mesmo certos problemas funcionaram e ajudaram a aproximar as posições das partes e alcançar os entendimentos concretos.
No entanto todas as perspetivas da normalização foram borradas quando no final de 2003 Mikhail Saakhashvili se apropriou do poder de maneira "revolucionária" na Geórgia e começou ameaçar dar a solução à força dos problemas da Ossétia do Sul e Abcásia.
Já em maio de 2004 para a zona do conflito da Geórgia e Ossetia foram enviadas as forças especias e de segurança publica do Ministério do Interior da Geórgia e em agosto Tskhinvali sofreu o bombardeamento seguido pela tentativa do assalto. Por mediação ativa da Rússia o Primeiro Ministro da Geórgia Zurab Zhvania e líder da Ossétia do Sul Eduard Kokoity assinaram o protocolo de cessar-fogo e em novembro de 2004 o documento sobre as vias da normalização etapa a etapa das relações.
Depois da morte misteriosa de Zurab Zhvania, dirigente político de bom juízo, em 2005 Mikhail Saakhashvili recusou de forma categórica todos os entendimentos.
Teve a mesma posição a respeito da normalização na Abcásia, que se baseava no Acordo de cessar-fogo e separação das partes, assinado em 14 de maio de 1994 em Moscou. Em conformidade com este acordo as forças coletivas de manutenção de paz entraram à zona do conflito abcaso-georgiano. Foi também criada a missão de observadores da ONU na Geórgia e instituido o grupo de amigos junto ao Secretário-Geral da ONU.
Ao mandar em 2006 as tropas para a região de Alto Kodor, Mikhail Saakhashvili infringiu todos os acordos e resoluções da ONU e frustrou o progresso delineado e possível na normalização do conflito, inclusive na realização dos entendimentos entre Vladimir Putin e Eduard Shevarnadze, datados de março de 2003, sobre os trabalhos conjuntos com vista a garantir a regresso dos refugiados e restabelecimento do funcionamento da ferrovia Sochi – Tbilisi.
Continuando a ignorar abertamente os compromissos da Geórgia e entendimentos no âmbito da ONU e OSCE, Mikhail Saakhashvili criou as administrações marionetes para a Abcásia e Ossétia do Sul com o objetivo de enterrar definitivamente o processo negocial.
Todo o período do governo de Mikhail Saakhashvili está marcado pela sua incapacidade de alcançar os acordos, pelas provocações e encenações incessáveis nas zonas dos conflitos, assaltos às tropas de manutenção da paz russas, tratamento desrespeitoso dos líderes da Abcásia e Ossétia do Sul, eleitos democraticamente.
Desde o deflagração dos conflitos na Abcásia e na Ossétia do Sul no início dos anos 90 causada pelas ações de Tbilisi a Rússia fez tudo o possível para contibuir à sua solução, partindo do reconhecimento da integração territorial da Geórgia. A Rússia assumiu esta posição apesar do fato que na proclamação da independência da Geórgia foi violado o direito da Abcásia e Ossétia do Sul à autodeterminação. De acordo com a Lei da URSS "Sobre o procedimento da solução das questões relacionadas à saída duma república soviética da URSS" as regiões autónomas das repúblicas soviéticas tinham o direito de decidir independentemente sobre a sua permanência na URSS e sobre o seu estatuto político no caso da saída desta república da União. A Geórgia impediu à Abcásia e à Ossétia do Sul o uso deste direito.
A Rússia, no entanto, seguia a sua linha da maneiraconsequente, cumpria conscienciosamente as suas funções de mediador e de manutenção da paz, empenhava-se em contrubuir alcancar os entendimentos pacificos, demostrava moderação e tolerância perante as provocações. Continuamos na mesma posição mesmo após a declaração unilateral da independência de Kosovo.
Tendo lançado uma ataque agressiva contra a Ossétia do Sul na noite de 8 de agosto de 2008 que resultou em numerosas vítimas, inclusive entre os soldados da força de manutenção de paz e dos outros cidadãos russos, tendo preparado uma ação semelhante contra a Abcásia, o presidente georgiano Mikhail Saakashvili sepultou com suas próprias mãos a integridade territorial da Geórgia. Sempre aplicando a força militar contra os povos que, segundo Saakashvili, ele queria ver incorporados ao seu país, o presidente da Geórgia não lhes deixou outra opção, senão garantir a sua segurança e o direito de existir por meio de autodeterminação na qualidade dos estados independentes.
É pouco provável que Mikhail Saakashvili não entendia quais poderiam ser para a Geórgia as conseqüências de uma tentativa de solução à força dos problemas da Ossétia do Sul e Abcásia. Ainda em fevereiro de 2006 numa das entrevistas ele afirmou: "Não darei ordem de operação militar. Não quero que morram as pessoas, pois no Cáucaso o sangue derramada – é não para os decénios mas para os séculos." Assim, ele sabia o que estava empreendendo.
É necessário mencionar o papel daqueles que durante todos esses anos deram a indulgência ao regime militarista do sr. Saakashvili, violando as regras da OSCE e da União Européia, lhe forneciam as armas ofensivas, que o dissuadiam de assumir os compromissos de não aplicar força, criando nele o complexo de impunidade, inclusive no que diz respeito às repressões autoritárias contra a oposição na Geórgia. Sabemos que nas certas etapas os seus patronos externos tentavam detê-lo das aventuras militares imprudentes, mas evidentemente ele escapou de qualquer que seja o controle.
É preocupante que nem todos fizeram conclusões objetivas da agressão. As esperanças nascidas pela iniciativa conjunta dos presidentes da Rússia e da França de 12 de agosto de 2008 e a sua aplicação rapidamente desapareceram quando Tbilisi, no fundo rejeitou esta iniciativa e os protetores de Mikhail Saakashvili apoiaram a sua postura. Ainda mais, nos EUA e em algumas capitais européias prometem a Saakashvili a proteção da OTAN, apelam à rearmamento do regime georgiano e já começam a fornecer-lhe os novos armamentos. Tudo isso é um convite inequivoco às novas aventuras.
Tomando em consideração os apelos dos povos da Ossétia do Sul e Abcásia, dos parlamentos e presidentes dos dois países, a opinião do povo russo, a posição das duas Câmaras do Assembleia Federal (Parlamento da Rússia), o Presidente da Federação Rússia tomou a decisão de reconhecer a independência da Ossétia do Sul e da Abcásia e de celebrar com eles os Acordos de amizade, cooperação e ajuda mútua.
Nesta decisão a parte russa baseava-se nas disposições da Carta da ONU, Acta Final de Helsinque, nos utros documentos internacionais fundamentais, inclusive na Declaração de 1970 sobre os princípios do direito internacional que trata das relações de amizade entre os estados. É indispensável salientar que, de acordo com esta Declaração, cada estado deve abster-se de quaisquer ações violentas que privem os povos do direito à autodeterminação, liberdade e independência, observar nas suas ações o princípio de igualdade e autodeterminação dos povos e contar com os governos que representem todo o povo que abita no determinado território. Sem duvida, o regime de Mikhail Saakashvili não corresponde a esses altos padrões estabelecidos pela comunidade internacional.
A Rússia, que tem os sinceros sentimentos de amizade e simpatia pelo povo georgiano, permanece convicta em que, tarde ou cedo, este obterá os dirigentes dignos, capazes de cuidar do seu país de maneira real e desenvolver as relações de respeito, igualdade e boa vizinhança com todos os povos do Cáucaso. A Rússia estará pronta para contribuir para isso por todos os meios.
26 de agosto de 2008
