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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Quem são os Estados Unidos para Julgar?

Dando uma curta pausa na nossa programação normal, coloco aqui mais uma notícia do jornal "Oriente Médio Vivo".


O relatório anual de direitos humanos publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos provocou fortes críticas dos países que foram apontados como “violadores sistemáticos” de direitos humanos durante o ano de 2008. O relatório divulgado em março desse ano apresenta dados de 194 países e tece severas críticas aos países que, de alguma forma, fazem oposição aos Estados Unidos e aos interesses da Casa Branca.

Mas afinal, quem são os Estados Unidos para falar em direitos humanos? Essa pergunta é o mínimo que se espera de qualquer cabeça pensante. Obviamente, um país responsável por torturas sistemáticas de presos inocentes, sem acusação alguma, em que alguns casos levaram té a morte, como aconteceu em Guantánamo, Abu Ghraib e Bagram, não pode ditar regras de direitos humanos. Um país que mata civis diariamente no Afeganistão, Iraque e Paquistão com bombardeios indiscriminados a áreas residenciais não pode ter credibilidade nesse assunto. Uma nação não pode ser confiável após reeleger Bush para mais quatro anos no poder, mesmo depois de comprovadamente ter sido enganada pela administração dele e por ter visto com clareza os horrores da invasão ilegal ao Iraque.

Foram os mesmos eleitores que elegeram Barack Obama, mais no intuito de dar um sinal para o
mundo de que eles não são tão ruins assim do que pela vontade de “mudança”. Mas, por enquanto, Obama fez muito pouco do que vinha prometendo. Para ele, transformar Guantánamo
em um caso encerrado e passado era de extrema importância para a retórica de mudança adotada como slogan da campanha eleitoral.

Até agora a postura do novo presidente com relação à política de detenção sem causa ou quanto aos “outros Guantánamos”, como o campo de concentração de Bagram, continua a mesma do
antecessor.

Quanto ao relatório dos Estados Unidos, o informe denuncia violações das liberdades individuais em diversos países: Cuba, Venezuela, China, Egito, Irã, Sri Lanka, Zimbábue, Armênia, Mauritânia, República Democrática do Congo, entre outros. Mas ele diz algo sobre Guantánamo, Abu Ghraib ou Bagram? Ou sobre a invasão ilegal do Iraque? Os bombardeios diários contra civis no Afeganistão? Alguma linha foi escrita sobre o fornecimento de armas ilegais para Israel testar contra o povo palestino em Gaza? Não, para os estadunidenses isso simplesmente não aconteceu. Essa é a típica posição de descaso com relação ao resto do mundo que finalmente posicionou os Estados Unidos como inimigos do mundo nos últimos anos – e isso Obama parece não ter força nem caráter para mudar.

A atitude de dois pesos e duas medidas que reina nos relatórios dedireitos humanos publicados pelos Estados Unidos, em que aliados são parabenizados e inimigos são denunciados, é clara também na autoavaliação, em que os crimes que cometeu são sempre omitidos. Acontece que hoje, quando os crimes estadunidenses são claros para todos, esse relatório não serve mais para nada – não há credibilidade. Como afirmou o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores iraniano, Hassan Qashqavi, em resposta ao relatório, “os Estados Unidos, que são um dos principais violadores dos direitos humanos no mundo, não estão em posição de comentar sobre o
assunto.” Muitos países, pela primeira vez, assumiram essa postura. Entre eles estão muitos países da América do Sul, como Bolívia, Chile e Venezuela. O mundo só tem a ganhar com esse
levante contra os Estados Unidos, afinal, quem são eles para julgar?




Fonte: Oriente Médio Vivo, Nº 136, 6 de Abril de 2009


Humam al-Hamzah
Zaid Muhammad


sábado, 24 de janeiro de 2009

Fogo sobre o Camboja

Novas informações revelam: bombardeios dos EUA sobre o país, entre 1965 e 73, foram cinco vezes mais intensos que se supunha, e possivelmente os mais pesados da História. Brutalidade entregou população ao extremismo genocida do Khmer Vermelho — presságio do que pode ocorrer no Iraque

Taylor Owen , Ben Kiernan
(16/01/2008)

Em novembro de 2000, vinte e cinco anos após o fim da guerra na Indochina, Bill Clinton tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos, depois de Richard Nixon, a visitar o Vietnã.

Enquanto a cobertura da viagem pela mídia tratava do paradeiro de cerca de dois mil soldados norte-americanos ainda classificados como desaparecidos em ação, um pequeno ato de grande significado histórico passou quase despercebido. Num gesto humanitário, Clinton liberou um amplo banco de dados da Força Aérea sobre a campanha de bombardeio promovida pelos Estados Unidos na Indochina entre 1964 e 1975. Gerado por um sistema de alta tecnologia desenvolvido pela IBM, o banco de dados proporciona informações abrangentes sobre as surtidas efetuadas no Vietnã, Laos e Camboja.

O presente de Clinton destinava-se a facilitar a busca de explosivos não-detonados deixados no rastro dos bombardeios de saturação que varreram a região. Espalhado pelo campo, frequentemente submerso em terrenos de cultivo alagados, esse material bélico continua a despertar graves preocupações de ordem humanitária. Ele tem causado mutilações e mortes entre os camponeses, além de tornar terras valiosas praticamente imprestáveis. As organizações de desenvolvimento e de remoção de minas fizeram bom uso dos arquivos da Força Aérea nos últimos seis anos, mas não chegaram a sondar toda a profundidade de suas abismais implicações.

O banco de dados, ainda incompleto (ele apresenta vários períodos “obscuros”), revela que, de 4 de outubro de 1965 a 15 de agosto de 1973, os Estados Unidos lançaram sobre o Camboja uma quantidade de bombas muito maior do que se estimava até agora: 2.756.941 toneladas, totalizando 230.516 surtidas sobre 113.716 locais. Mais de 10% desse bombardeio foi indiscriminado: 3.580 locais apresentavam alvos “desconhecidos” e 8.238, simplesmente não apresentavam alvos. O banco de dados revela, também, que o bombardeio começou durante a presidência de Lyndon Johnson e não de Richard Nixon – portanto, quatro anos antes do que geralmente se supunha.

O impacto do bombardeio, objeto de muita discussão nas últimas três décadas, mostra-se agora mais claro do que nunca. A matança de civis no Camboja jogou um povo exasperado nos braços de um movimento guerrilheiro que até então recebera um apoio relativamente limitado da população, provocando a expansão da guerra do Vietnã no interior do Camboja, um golpe de estado em 1970, a rápida ascensão do Khmer Vermelho e, em última instância, o genocídio cambojano.

Ponto comum com o Iraque: recurso ao poder aéreo para combater uma insurgência heterogênea e volátil

Os dados demonstram que a forma pela qual um país decide retirar-se de um conflito pode ter conseqüências desastrosas, consideração que também se aplica aos conflitos armados da atualidade, inclusive, as operações militares dos Estados Unidos no Iraque. Apesar de muitas diferenças, a guerra no Iraque e o conflito cambojano apresentam em comum um ponto crucial: o crescente recurso ao poder aéreo para combater uma insurgência heterogênea e volátil.

Em 9 de dezembro de 1970, o presidente Richard Nixon telefonou para o seu conselheiro em assuntos de segurança nacional, Henry Kissinger, a fim de discutir a campanha de bombardeio do Camboja, então em andamento. Teatro secundário da guerra do Vietnã, iniciada em 1965 durante a presidência de Johnson, o Camboja – um reino neutro até nove meses antes do telefonema de Nixon, quando o general pró-EUA Lon Nol tomou o poder – já tinha recebido quase meio milhão de toneladas de bombas naquela altura (475.515 t). A primeira série de bombardeios intensivos, a Operação Menu, desfechada contra alvos localizados nas proximidades da fronteira com o Vietnã – rotulados Breakfast, Lunch, Supper, Dinner, Dessert e Snack [1] pelos comandantes norte-americanos – tinha sido concluída em maio, pouco depois do golpe de estado que derrubou o príncipe Sihanouk.

Nixon enfrentava uma crescente oposição do Congresso às suas políticas para a Indochina. A invasão do Camboja por terra, realizada por uma força conjunta dos Estados Unidos e do Vietnã do Sul em maio-junho de 1970, fracassara em seu objetivo de destruir as forças comunistas vietnamitas e agora Nixon queria uma escalada secreta dos ataques aéreos, a fim de neutralizar o comando móvel do Viet Cong/Exército Norte-Vietnamita (VC/ENV) nas selvas cambojanas. Após ter dito a Kissinger que faltava espírito de iniciativa à Força Aérea, Nixon exigiu a escalada do bombardeio no interior do Camboja: “Eles têm de ir fundo, mas fundo mesmo... Mandem tudo o que possa voar para lá e arrebentem eles! Não há restrição de milhas, não há restrição de verbas. Ficou claro?”

Kissinger sabia que a ordem de Nixon atropelava a promessa feita por ele ao Congresso, de que os aviões dos EUA não iriam além de 18 milhas da fronteira vietnamita; as suas próprias assertivas à nação, de que nenhum alvo situado a menos de um quilômetro de qualquer povoado seria bombardeado, e o parecer de setores das forças armadas, segundo os quais os ataques aéreos equivaliam a cutucar uma caixa de marimbondos com uma vara. Titubeante, Kissinger respondeu: “O problema, senhor presidente, é que a Força Aérea foi organizada para travar uma batalha aérea contra a União Soviética. Ela não está preparada para esta guerra... na verdade, não está preparada para nenhuma das guerras que possivelmente teremos de lutar.”
"Ele [Nixon] quer uma campanha de bombardeio maciço no Camboja. É uma ordem, deve ser cumprida"

Cinco minutos depois de terminada a conversação com Nixon, Kissinger chamou o general Alexander Haig para transmitir-lhe as novas ordens do presidente: “Ele quer uma campanha de bombardeio maciço no Camboja. Ele não quer ouvir nada. É uma ordem, deve ser cumprida. Qualquer coisa que voe contra qualquer coisa que se mova. Entendeu bem?”. A resposta de Haig, a custo audível na gravação, soa como uma risada.

O bombardeio do Camboja pelos Estados Unidos continua sendo um tema polêmico e emblemático. Ele contribuiu para mobilizar os movimentos pacifistas e, ainda hoje, costuma ser mencionado como um exemplo dos crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos. Autores como Noam Chomsky, Christopher Hitchens e William Shawcross surgiram como intérpretes políticos influentes depois de terem condenado o bombardeio e a política externa que ele simbolizava.

Do final da guerra do Vietnã para cá, estabeleceu-se um certo consenso quanto à amplitude do envolvimento norte-americano no Camboja. Os detalhes são controvertidos, mas a história começa para valer em 18 de março de 1969, quando os Estados Unidos lançaram a operação Menu. Seguiu-se a ofensiva terrestre conjunta EUA-Vietnã do Sul. Nos três anos seguintes, os Estados Unidos continuaram com os ataques aéreos ordenados por Nixon, atingindo cada vez mais fundo o território do Camboja, inicialmente para destruir o VC/ENV, e, em seguida, para proteger o regime de Lon Nol contra um número crescente de forças comunistas cambojanas. O Congresso cortou o financiamento para a guerra e impôs a suspensão do bombardeio em 15 de agosto de 1973, em meio a pedidos de impeachment para Nixon por sua conduta fraudulenta ao ordenar a escalada da campanha.

Graças ao banco de dados, sabe-se, agora, que o bombardeio do Camboja começou em 1965, durante o governo Johnson, e não em 1969. Esse último ano assinalou não propriamente o início da campanha, mas a sua escalada sob a forma de bombardeios de saturação. Entre 1965 e 1968, os Estados Unidos já tinham lançado 2.565 surtidas e 214 toneladas de bombas no Camboja.

Esses ataques iniciais tiveram provavelmente uma finalidade tática, de apoio às quase duas mil incursões terrestres realizadas em sigilo pela CIA e pelas Forças Especiais naquele período. A frota de B52 – bombardeiros de longo alcance, capazes de transportar uma potente carga de bombas – não foi acionada então, seja porque a sua utilização poderia pôr em risco vidas cambojanas e comprometer a neutralidade do país, seja porque a eficácia estratégica dos bombardeios de saturação era considerada limitada.

Nixon optou por um curso de ação diverso e, de 1969 em diante, a Força Aérea começou a enviar os B52 contra o Camboja. A nova justificativa apresentada para o bombardeio era a de que ele manteria as forças inimigas acuada durante o tempo suficiente para os Estados Unidos se retirarem do Vietnã. O general norte-americano Theodore Mataxis caracterizou a manobra como “uma ação de contenção... O grupo vai pela estrada, tendo os lobos no seu encalço; então, atiramos fora um troço qualquer e deixamos que eles mastiguem.” Como corolário, os cambojanos foram transformados em carne de canhão para proteger vidas norte-americanas.
Tiro pela culatra: os bombardeios dão ao pequeno Khmer Vermelho as condições para a chegada ao poder

A última fase da campanha, de fevereiro a agosto de 1973, teve por objetivo deter o avanço do Khmer Vermelho sobre a capital cambojana, Phnom Penh. Temendo a queda iminente do primeiro dominó do Sudeste Asiático, os EUA partiram para uma escalada da guerra aérea sem precedentes na história – um bombardeio maciço de B52 que se alastrou das cercanias densamente povoadas de Phnom Penh para quase todas as regiões do país. A verdadeira amplitude do bombardeio permanecia ignorada até agora.

Os dados liberados por Clinton mostram que a carga total de bombas lançadas durante o período em questão foi quase cinco vezes maior do que os números geralmente aceitos. A fim de situar em perspectiva o total retificado de 2.756.941 toneladas, os Estados Unidos lançaram pouco mais de 2 milhões de toneladas de bombas durante toda a II Guerra Mundial, incluídas as duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (de 15 e 20 mil toneladas, respectivamente). O Camboja terá sido o país mais bombardeado em toda a história.

Um B52-D “Big Belly” comporta uma carga útil de até 108 bombas de 225 quilos, ou 42 bombas de 340 quilos, lançadas sobre um alvo de aproximadamente 500 x 1.500 metros. Em muitos casos, as aldeias cambojanas foram atingidas por dezenas de cargas durante horas a fio. O resultado foi a destruição quase total. Um oficial norte-americano afirmou na época: “Tinham-nos dito, como disseram a toda a gente... que os tapetes de bombas eram totalmente devastadores, que nada sobrevivia a um raide de B52.” Anteriormente, o total de vítimas civis provocadas pelo bombardeio era estimado entre 50 e 150 mil mortos. Diante, porém, da quintuplicação da tonelagem revelada pelo banco de dados, esse número foi seguramente maior.

A campanha de bombardeio do Camboja teve dois efeitos colaterais imprevistos que acabaram interagindo para produzir exatamente o efeito-dominó que a intervenção dos EUA no Vietnã pretendia impedir. Primeiro, ela obrigou os comunistas vietnamitas a embrenhar-se no Camboja, colocando-os em estreito contato com os insurgentes do Khmer Vermelho. Segundo, ela empurrou o povo cambojano para os braços do Khmer Vermelho, um movimento que a princípio parecia ter reduzidas chances de êxito revolucionário. O próprio Pol Pot [2] admitiu que o Khmer Vermelho se resumia então a “menos de cinco mil guerrilheiros mal armados... espalhados pelo território do Camboja, inseguros de sua estratégia, tática, lealdade e liderança.”
Anos depois do fim da guerra, o jornalista Bruce Palling perguntou a Chhit Do, um ex-comandante do Khmer Vermelho, se as suas forças tinham se utilizado do bombardeio para alimentar a propaganda anti-EUA. Chhit respondeu:

Depois de um bombardeio, eles sempre levavam a gente para ver as crateras, para ver como elas eram grandes e fundas, para ver como a terra ficava revolvida e estorricada... Às vezes, os pobres-diabos cagavam nas calças, literalmente, quando vinham as bombas e granadas mais pesadas. Eles simplesmente saíam do ar, ficavam mudos, andando sem destino durante três, quatro dias... Aterrorizado e um tanto abalado, o povo estava preparado para acreditar naquilo que lhe diziam. Foi por causa de sua revolta com o bombardeio que eles continuaram a colaborar com o Khmer Vermelho, a engrossar as suas fileiras, a mandar os filhos embora de casa para se apresentarem como voluntários... Quando as bombas caíam e matavam criancinhas de colo, seus pais aderiam em peso ao Khmer Vermelho.

O governo Nixon sabia que o Khmer Vermelho estava ganhando os camponeses para a sua causa. O Diretório de Operações da CIA, após investigações conduzidas ao sul de Phnom Penh, informou, em maio de 1973, que os comunistas estavam “utilizando os danos causados pelos ataques de B52 como peça principal de sua propaganda.” Mas esse fato parece não ter recebido prioridade nas considerações de ordem estratégica.
Impotência do Congresso: por meio da mentira, Nixon prolonga ataques e guerra durante anos anos

O governo Nixon manteve o bombardeio em segredo por tanto tempo, que as discussões sobre o seu impacto tiveram lugar tarde demais. Somente em 1973 o Congresso, irritado com a devastação causada pela campanha e com a fraude sistemática utilizada para acobertá-la, decretou a sua suspensão. Mas então, o estrago já tinha sido feito. O Khmer Vermelho, contando com mais de 200 mil soldados e milicianos por volta de 1973, tomou Phnom Penh dois anos depois. E não parou, submetendo o Camboja a uma revolução agrária maoísta e ao genocídio que matou mais de 1,7 milhão de pessoas.

A Doutrina Nixon partia do pressuposto de que os Estados Unidos poderiam suprir um regime aliado com os recursos necessários para enfrentar desafios internos ou externos, enquanto as suas tropas terrestres eram desengajadas ou, em certos casos, simplesmente se mantinham de prontidão nas proximidades. No Vietnã, ela implicou desenvolver a capacidade de combate do exército sul-vietnamita enquanto as unidades norte-americanas se retiravam gradualmente do terreno. No Camboja, Washington forneceu ajuda militar para sustentar o regime de Lon Nol de 1970 a 1975, enquanto a força aérea dos EUA executava a sua campanha de bombardeio maciço.

A estratégia dos Estados Unidos no Iraque poderá sofrer uma mudança de curso semelhante. Seymour Hersch, escrevendo na revista New Yorker em dezembro de 2005, notou que um aspecto fundamental dos planos de redução de tropas dos EUA seria a sua substituição pelo poder aéreo. “Pretendemos apenas modificar a proporção das forças empenhadas em combate – infantaria iraquiana com apoio dos Estados Unidos e maior utilização do poder aéreo,” afirmou Patrick Clawson, vice-diretor do Washington Institute for Near East Policy (WINEP).

Os críticos argumentam que a primazia do poder aéreo poderá causar um número ainda maior de vítimas civis, acabando por favorecer a insurgência no Iraque. Andrew Brookes, ex-diretor de estudos do poder aéreo da Escola do Estado-Maior da Real Força Aérea (RAF), disse a Hersch, “Não acho que o poder aéreo seja uma solução para os problemas enfrentados no Iraque, em absoluto. A substituição de tropas terrestres pela força aérea não funcionou no Vietnã, funcionou?”.

É verdade que os ataques aéreos são mais precisos hoje do que eram durante a guerra da Indochina — portanto, ao menos em teoria, alvos não-identificados seriam atingidos com menos freqüência e o número de vítimas civis tenderia a cair. No entanto, a morte de civis tem sido a norma nas campanhas do Iraque e do Afeganistão, e o mesmo se verificou durante o bombardeio do Líbano pelas forças de Israel em julho-agosto de 2006. Tal como sucedeu no Camboja, os prováveis beneficiários serão os movimentos de insurgência. Para citar um exemplo, em 13 de janeiro de 2006, um ataque desfechado por aviões teleguiados não-tripulados, Predator, contra uma aldeia situada na zona da fronteira paquistanesa matou dezoito civis, entre eles, cinco mulheres e cinco crianças. Essas mortes reverteram as expectativas favoráveis geradas pelos bilhões de dólares investidos naquela região do Paquistão após o terremoto devastador de meses antes. A questão vem a propósito: os bombardeios compensarão os riscos estratégicos?

Se a experiência do Camboja nos ensinou algo, foi que a subestimação da mortandade de civis resulta em parte de uma incapacidade de compreender como as insurgências se processam. Os motivos que levam a população local a colaborar com tais movimentos não se encaixam nas digressões estratégicas do tipo daquelas praticadas por Kissinger e Nixon. Aqueles que tiveram as suas vidas arruinadas não se preocupam com as razões de ordem geopolítica por trás dos ataques; eles tendem a responsabilizar os atacantes. O fracasso da intervenção dos Estados Unidos no Camboja reside não somente na mortandade de civis causada por uma campanha de bombardeio jamais vista em toda a história, mas também na sucessão de fatos que ela desencadeou, quando o regime do Khmer Vermelho se ergueu das crateras de bombas com trágicas conseqüências. A evolução dos acontecimentos no Iraque poderá tomar um rumo semelhante.

Tradução: Hugo Mader
Fonte: Le Monde Diplomatique

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Analistas vêem oportunidades para o Brasil com Obama




Os biocombustíveis, a crescente importância internacional do Brasil, uma maior familiaridade com temas latino-americanos e uma provável postura menos isolacionista por parte dos Estados Unidos são alguns dos fatores que servirão como oportunidades para os brasileiros durante a gestão do presidente eleito americano, Barack Obama, na opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Mas eles acrescentam que a gravidade da turbulência econômica global, a guerra no Iraque, o desafio representado pelas ambições nucleares do Irã e os mais novos desdobramentos no conflito entre Israel e palestinos deverão jogar as relações com o Brasil para o segundo plano na política externa americana.

O diretor do Brazil Institute do centro de pesquisas políticas Woodrow Wilson Center, em Washington, Paulo Sotero, diz que a crise limita as opções nas relações entre os dois países, mas julga animador o fato de que altos representantes da futura administração de Obama têm laços com o Brasil, a começar pela indicada para comandar o Departamento de Estado - a senadora Hillary Clinton.

"Ela conhece bem o Brasil e talvez seja a primeira secretária de Estado americana que inicia a função com uma base sólida de conhecimentos e contatos brasileiros", afirma Sotero. "Está familiarizada com os avanços em política social do país e, quando primeira-dama, visitou projetos desse tipo no Brasil."

"Conhece a questão do biocombustível e está perfeitamente consciente da importância que o Brasil ocupa no cenário internacional", acrescentou.

Livre comércio

Há outros expoentes da futura administração que, na avaliação de Sotero, poderiam ter posturas que beneficiariam o Brasil, em especial no que diz respeito a temas de livre comércio.

Entre eles, o diretor do Brazil Institute identifica Ron Kirk, representante do Comércio indicado por Obama, e o futuro secretário de Agricultura, Tom Vilsack.

"Kirk é claramente uma pessoa alinhada com a liberalização do comércio", diz Sotero. "É um bom político, apoiou o Nafta (o tratado de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá), é do Texas e, por isso, compreende os efeitos positivos e negativos que o Nafta teve em alguns setores da economia americana."

"Tom Vilsack é uma figura interessante, que pode ter um peso importante nas relações com o Brasil", acrescenta o analista. "É ex-governador de Iowa, o maior celeiro agrícola e o maior produtor de etanol, mas é também um defensor da reforma da política agrícola americana."

De acordo com Sotero, a despeito de sua origem, Vilsack também não é um defensor da atual lei agrícola americana, conhecida como farm bill, que oferece vultosos subsídios para agricultores americanos.

Possíveis reformas da farm bill e reduções aos subsídos agrícolas costumam esbarrar em restrições por parte da ala ruralista do Congresso americano.

Paulo Sotero avalia que, se obtiver êxito em conter a crise nos primeiros anos de sua administração, Obama poderá dar mais atenção aos temas de liberalização comercial.

"Obama e seu principal assessor econômico na Casa Branca, o ex-secretário do Tesouro Larry Summers, são internacionalistas, compreendem perfeitamente bem a importância do comércio como fator de dinamização do crescimento da economia, mas ao mesmo tempo estão bem cientes das limitações que enfrentam hoje para levar adiante essa plataforma", afirma.

Multilateralismo

Christopher Garman, diretor para a América Latina da empresa de consultoria de riscos Eurasia Group, avalia que o Oriente Médio vai permanecer sendo o foco prioritário do governo americano, mas crê que o "ímpeto mais multilateral" de Barack Obama poderá ajudar os brasileiros.

"Nesse sentido, o Brasil pode ganhar um assento na mesa em grandes temas de discussão internacional, como a crise econômica global", afirma.

Mas Garman diz que a mesma crise econômica que pode alçar o Brasil a um papel de maior expressão também vai dificultar os avanços firmados na relação entre as duas nações.

"O governo Obama já deixou explícita sua defesa de uma política agressiva de incentivo a energias renováveis", afirma o diretor do Eurasia Group.

"As perspectivas para cooperação entre Brasil e Estados Unidos em etanol permanecem boas, mas é preciso ter em vista que tudo ficou mais difícil com a crise", acrescenta. "Produtores de etanol no Brasil e nos Estados Unidos estão sofrendo com a baixa do petróleo."

Garman diz acreditar, no entanto, em um possível desdobramento positivo da crise para o Brasil. Segundo o analista, os americanos poderiam se ver obrigados a gradualmente reduzir a sobretaxa de US$ 0,54 que é cobrada sobre o etanol brasileiro que entra no mercado americano.

"O governo (de Obama) deve manter as metas de utilização de biocombustíveis elevadas", afirma. "Isso significa que vai haver mercado dentro dos Estados Unidos para maior produção de etanol, e os produtores domésticos talvez não possam cumprir as metas de produção estabelecidas pelo governo."

"Isso abre um espaço para que os produtores de etanol do Brasil exportem para os Estados Unidos e cria um incentivo econômico para a redução da tarifa", acrescenta.

América Latina

Christopher Garman afirma que "a América Latina vai permanecer tendo baixa prioridade", mas avalia que o papel cada vez maior do Brasil em fóruns internacionais é algo visto com bons olhos pela administração de Obama.

Na opinião de Garman, a crise financeira global deverá abalar alguns dos vizinhos brasileiros que vêm adotando uma retórica antiamericana.

"Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina têm tremendas vulnerabilidades econômicas, seja porque dependem de petróleo como fonte de receita ou porque já entraram na crise financeira enfrentando dificuldades macroeconômicas significativas", diz o analista.

Com o agravamento da crise, essas nações poderão, na avaliação do diretor do Eurasia Group, retomar uma postura de desafio aos Estados Unidos e, dessa maneira, aproximar os americanos de seus aliados tradicionais na região, como Brasil e México.

Cuba

Para Paulo Sotero, um provável relaxamento das sanções americanas contra Cuba, como Obama sinalizou durante a campanha presidencial, representaria outra oportunidade para o Brasil e para os latino-americanos.

"A inclinação do presidente Obama de iniciar um processo de relaxamento das medidas de isolamento de Cuba tomadas por Bush, como restrições de remessas de dinheiro para a ilha por parte de cubanos-americanos e restrições de viagens para Cuba, serão bem recebidas na América Latina", afirma.

Essas possíveis medidas, segundo o analista, "abrem caminho para interesses dos Estados Unidos, que querem uma transição pacífica em Cuba, para os cubanos, que vivem uma situação econômica bem difícil, e para o Brasil, que quer ter uma participação na reconstrução da economia cubana".

Sotero diz que o Brasil teria condições, e contaria com a aprovação americana, de contribuir para que os cubanos reerguessem sua indústria açucareira e instalassem no país caribenho uma indústria de etanol capaz de suprir as necessidades de combustível e boa parte das necessidaes de eletricidade de Cuba.

O analista lembra ainda que, ainda nos primeiros cem dias da administração Obama, o novo governo americano terá algumas oportunidades de se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula deverá ir a Nova York em março, para uma cúpula de empresários, e pode ter seu primeiro encontro com o novo presidente dos Estados Unidos.

Os dois líderes deverão se reunir novamente no mês seguinte em duas ocasiões: primeiro, na Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, e no final de abril, na Grã-Bretanha, na reunião de chefes de governo do G-20.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Explosões deixam ao menos 28 mortos em Bagdá

Pelo menos 28 pessoas morreram em um ataque coordenado de bombas em Bagdá nesta segunda-feira, no que está sendo considerado o incidente mais violento no Iraque dos últimos meses.

Segundo a polícia, dois carros-bomba explodiram em Kasrah, uma vizinhança majoritariamente xiita do bairro sunita de Adamiya.

Quando, no local, se formou uma multidão para ajudar os feridos, um homem-bomba detonou seus explosivos. Quase 70 pessoas ficaram feridas.

A tática de detonar bombas coordenadamente, para causar o maior número possível de vítimas, é uma característica dos ataques da rede extremista Al-Qaeda no Iraque desde o início da invasão comandada pelos Estados Unidos, em 2003.

Al-Qaeda

Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado, mas especula-se que os ataques desta segunda-feira tenham sido uma tentativa da Al-Qaeda de reviver tensões sectárias em bairros de Bagdá onde convivem xiitas e sunitas.


Grupos de insurgentes sunitas armados que chegaram a pertencer à rede extremista passaram a receber salários do governo para ajudar a expulsar a Al-Qaeda em várias regiões do país, incluindo o distrito de Adamiya.

A iniciativa de cooptar grupos sunitas foi vista como uma estratégia americana que acabou ajudando a diminuir a violência no Iraque desde o ano passado.

Ao contrário do que acontecia durante os primeiros anos da ocupação, insurgentes ligados à Al-Qaeda não controlam mais regiões inteiras do país.

No entanto, ataques a bomba tendo como alvo a polícia, o governo ou civis ainda ocorrem com freqüência.

No domingo, uma mulher bomba detonou seus explosivos dentro de um hospital nas proximidades da cidade de Fallujah, na província de Ambar, matando três pessoas e ferindo outras cinco.

O controle da província, antes considerada reduto da Al-Qaeda, foi transferidos dos militares americanos para as mãos do governo iraquiano há dois meses.
Também nesta segunda-feira, uma suicida se explodiu em Baquba, na Província de Diyala (ao norte de Bagdá), e matou pelo menos seis pessoas.

O atentado ocorreu em um bloqueio montado por membros desses grupos sunitas cooptados para lutar contra a Al-Qaeda.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O ataque a Síria marcou o fim do Direito Internacional?

Uma nova Doutrina Bush paralela está emergindo nesses últimos dias de mandato, e precisa ser cortada pela raíz. Assím como a Doutrina Bush original - aquela que Sarah Palin não conseguiu identificar, que consiste em ações militares preventivas contra ameaças emergentes - essa nova também deixou o Direito Internacional de lado ao insistir que os EUA tem o direito inetente de cruzar fronteiras internacionais em "perseguições" de qualquer um que ele não gostar.

Eles já a aplicaram no Paquistão, e essa semana a Síria foi o alvo. Será o Irã o próximo?

Vejamos o Paquistão primeiro. Apesar de um aliado em potencial, Paquistão foi o alvo de pelo menos dezenove ataques aéreos por aeronaves não tripuladas da CIA, matando Paquistaneses e alguns afegãos em áreas tribais controladas por forças pró-Talibã. O New York Times listou, e mapeou, todos esses 19 ataques na fronteira Afegã desde Agosto. O Times diz que, dentro do governo, o comando das forças especiais Norte-Americanas e outros ramos estão tendendo para usos mais agressivos dessas unidades, incluíndo tentativas de seqüestrar e interrogar militantes suspeitos de serem líderes do Talibã e Al Qaeda. Apesar do Presidente Bush ter assinado uma ordem em Julho permitindo que Commandos dos EUA entrassem no Paquistão, com ou sem permissão de Islamabad, isso só aconteceu uma vez, no dia 3 de Setembro.

O ataque dos EUA á Síria em 26 de Outubro atropelou a sua soberania de maneira semelhante. Apesar de o Pentágono inicialmente negar que o ataque envolveu helicópteros e commandos em terra, foi exatamente isso que aconteceu. O ataque supostamente matou Badran Turki Hishan al-Mazidih, um iraquiano que "contrabandeou" lutadores estrangeiros para o Iraque através da Síria. Segundo o editorial do Washington Post:

"Se os ataques de domingo ,destinados a um líder da al-Qaeda, servir apenas para deixar
o Sr. Assad saber que os EUA também não está mais preparado para respeitar a soberania
de um regime criminoso, então tal ataque valeu a pena".


É realmente assim tão simples? Dizer que: nós declaramos seu regime criminoso, então nós vamos ataca-lo quando nós quisermos? Na sua reportagem do ataque a Síria, o Post sugere, em uma reportagem por Ann Scott Tyson e Ellen Knickmeyer, que o ataque está levando essas perseguições através de fronteiras para o nível de uma doutrina:

"O argumento dos militares é o de que "você só pode clamar a sua soberania se você
a fazer valer", disse Anthony Cordesman, um analísta militar no Centro para Estudos
Internacionais e Estratégicos. "Quando você está lidando com Estados que não man-

tém a sua soberania e se tornam um santuário, a única forma de lidar com eles é atra-
vés desse tipo de operação".

O Times aumenta a lista de possíveis alvos do Paquistão e Síria para o Irã, escrevendo (em uma reportagem de primeira página por Eric Schmitt e Thom Shanker):

" Oficiais da Administração negaram dizer se a crescente aplicação da auto-defesa pode
levar a ataques contra campos dentro do Irã, que tem sido usados para treinar "forças
especias" Xiitas que tem lutado contra forças dos EUA e Iraque.


Isso, logicamente, tem sido uma opção válida, especialmente desde o início da insurgência de Janeiro de 2007, quando o Presidente Bush prometeu atacar linhas de suprimento iranianas dentro do Iraque, e outros oficiais dos EUA, incluindo o Vice Presidente Cheney, pressionou para que realizassem ataques dentro do Irã, sem se preocupar com as consequências.

Logicamente, a própria invasão do Iraque em 2003 foi ilegal, e ignorou o Direito Internacional. Mas, alguns dizem, que esses ataques através de fronteiras são ignoráveis. Mas não são. Isso é importante. Se isso tornar-se uma parte padrão da doutrina militar dos EUA, que qualquer país pode ser considerado "criminoso", e consequentemente perder sua soberania, então não existe mais algo como Direito Internacional.

Quando o Secretário de Defesa Robert Gates foi questionado sobre isso, aqui está o que ele disse, como citado no artigo do post anterior:

"Nós vamos fazer o que for necessário para proteger as nossas tropas, ' disse o Secretário de
defesa Robert M. Gates em uma audiência do Senado no mês passado, quando questionado
sobre as operações através das fronteiras. Gates disse que ele não era um expert em Direito
Internacionaç, mas assumia que o Departamento do Estado tinha se consultado com tais
leis antes das forças armadas obterem autoridade para realizar tais ataques."


Não é um expert em Direito Internacional? Vai deixar para o Departamento do Estado? E é esse cara que os conselheiros de Barack Obama disseram que deviam ficar no Pentágono durante o novo mandato?


Rovert Dreyfuss, 30 de outubro de 2008
Fonte: AlterNet, www.alternet.org



terça-feira, 28 de outubro de 2008

Impasses no Paraíso parte III

Forças ativas dos EUA – 1990[1]

18 divisões do Exército
9 brigadas expedicionárias dos Marines
15 grupamentos de combate de porta aviões da Marinha
22 brigadas aéreas táticas da Força Aérea

Forças Ativas dos EUA – 2000

10 divisões do Exército
5 brigadas expedicionárias dos Marines
11 grupamentos de combate de porta aviões da Marinha
13 brigadas aéreas táticas da Força Aérea

As informações mencionadas carecem de alguns esclarecimentos adicionais. No caso do Exército, as divisões são as “grandes unidades” da força. Isso significa que possuem toda a estrutura necessária para operar de modo independente – isto é, uma divisão é constituída por um setor de comando com estado-maior completo, corpo de saúde, unidades de engenheiros, trem de transporte, artilharia divisionária, flotilha de helicópteros de apoio, etc. Segundo a reforma implementada durante o período Clinton, as divisões estão distribuídas em 5 leves (light divisions) e 5 pesadas (heavy divisions). Dentre as divisões leves destacam-se a 82°, a 101° aerotransportadas e a 10° divisão de montanha de Nova Iorque. Estas seriam, fundamentalmente, as grandes unidades de intervenção rápida do Exército. Uma divisão pode ter entre 10 mil e 18 mil homens, agrupados em 3 brigadas de combate. As divisões pesadas organizam-se em torno de regimentos de tanques de batalha. O exército conta também com unidades de menor porte, independentes das divisões. São tropas consideras aptas para operações especiais, tais como os Rangers , (organizados em 3 batalhões ligeiros), os Boinas Verdes (organizados em cinco grupos especiais cujos números são variados), o 160° Regimento de Operações Especiais de Aviação (provavelmente contendo 3 batalhões) e o Destacamento Delta (também conhecido como Delta Force), unidade sobre a qual nunca se sabe muita coisa.
As forças navais por seu lado, dispõem em termos de embarcações de combate, de 12 porta-aviões de ataque (dentre eles, 8 nucleares), 27 cruzadores, 54 contratorpedeiros, 35 fragatas, 132 porta-helicópteros, 50 embarcações para operações anfíbias e uma frota de 54 submarinos nucleares. Os grupos de batalha da marinha (task force) se organizam em torno dos porta-aviões (cada um deles transportando em média 70 aeronaves), sendo que os submarinos habitualmente atuam de modo independente. As brigadas dos Marines estão agrupadas em 3 divisões. A maior delas é a 1°Divisão que conta com 18.250 oficiais e soldados (quadros completos). As unidades de Marines possuem ainda sua própria aviação de apoio (sediada de um modo geral nos porta-aviões), helicópteros de reconhecimento, transporte e combate, bem como batalhões de tanques de batalha. Os efetivos totais do US Marine Corps, perto de 200 mil integrantes, perfaz a maior força de intervenção rápida e projeção de poder do mundo.
Finalmente as brigadas táticas da Força Aérea passaram a se organizar em Aerospace Expeditionary Force (AEF), cada uma delas contendo alas de aeronaves de caça, bombardeiros (médios e pesados), aeronaves de apoio aproximado, reconhecimento e transporte. Cada AEF inclui 15 mil homens e por volta de 175 aviões. As aeronaves de altíssima tecnologia, os famosos “aviões invisíveis” (isto é, dificilmente detectados pelos aparelhos de radar) costumam integrar esquadrilhas especiais.
As reduções demonstradas nas tabelas acima, ocorreram principalmente no decurso das duas administrações democratas do presidente Bill Clinton. Para termos idéia da ordem de grandeza em números absolutos, o pessoal militar que em 1990 alcançava um efetivo de 2.070.000, caiu em 1999 para um efetivo de 1.453.000. Embora entre o fim da Guerra Fria e o advento do 11 de setembro, tenha havido uma redução nos gastos militares dos EUA – retomados em escala crescente após os ataques à Nova Iorque e Washington, a redução de efetivos pode não necessariamente significar uma diminuição dos gastos militares correspondentes. Mesmo que no orçamento, os gastos com pessoal tenham diminuído, as despesas com pesquisa e desenvolvimento certamente cresceram sobremaneira.
A questão é que a escolha de apostar em equipamentos de alta tecnologia aumenta bastante a cadeia de custos. Estamos falando das verbas destinadas às universidades e às empresas para pesquisas, desenvolvimento de protótipos, testes e tudo mais. Acrescentemos o tempo mais longo indispensável para o treinamento do pessoal militar destinado a operar os engenhos. Finalmente não podemos esquecer das despesas de manutenção dos equipamentos (muitos deles sensíveis) e a reposição de perdas por causa de acidentes ou em combate. Esse aumento de custo tecnológico é em parte compensado pela redução das quantidades de munição usadas durante as campanhas (a maior precisão conduz, tanto a um número menor de sortidas (missões das aeronaves) para destruir o alvo quanto uma quantidade menor de bombas), e também economiza vidas entre os combatentes, pois o apoio de fogo aproximado mais preciso, bem como a capacidade de “decapitar o adversário”, quer dizer, destruir seu centro de comando e controle, diminui consideravelmente sua capacidade de resposta e coordenação das forças em combate.
Nem precisamos entrar em detalhes para que o leitor se recorde que este foi exatamente o tipo de campanha que os EUA, auxiliados pela Grã-Bretanha, empreenderam contra o Iraque em março-abril de 2003. Graças à formidável cobertura proporcionada pelos mísseis Tomarrock Cruise (para ataques de média distância) e pelas aeronaves e helicópteros de combate, unidades de terra bem pouco numerosas e dotadas de excepcional mobilidade puderam levar a cabo a campanha enfrentando um número muito pequeno de contratempos. Em termos de número de tropas, as forças atacantes jamais somaram mais de 160 mil homens (acrescentemos a esse montante por volta de 22 mil britânicos). O Exército iraquiano por seu lado, brilhou pela ausência. O fato é que pouco poderia fazer contra o aparato reunido pelos EUA. Suas tropas de terra não contavam com qualquer cobertura aérea. As posições de artilharia eram rapidamente localizadas e duramente bombardeadas. Qualquer tentativa de concentração de unidades, seja para a defesa estática, seja para efeito de contra-ataque, estava fadada a sofrer o mesmo destino. Finalmente, os centros de comando e controle, devidamente localizados pelo serviço de inteligência norte-americano receberam golpes demolidores logo nos primeiros dias.
Ainda não temos (pelo menos não até o presente momento) uma estimativa clara das baixas sofridas pelas unidades iraquianas durante o conflito. Supomos que esse número seja inferior às perdas em vidas humanas ocorridas na Guerra do Golfo de 1990/91. Também não temos como avaliar se a resistência tênue oferecida pelas forças armadas do Iraque foi fruto de uma decisão do regime em ordenar que suas tropas se dispersassem, já que um enfrentamento encarniçado do dispositivo militar norte-americano seria simplesmente inútil. Mesmo que o Exército iraquiano, em termos de preparo e eficiência, jamais tenha sido grande coisa (sua atuação na Guerra Irã – Iraque atesta este ponto), imaginamos que parcela de seus oficiais comandantes soubessem avaliar corretamente a desproporção das forças e aconselhado o regime a salvar o que fosse possível.
Sabe-se que durante a ofensiva anglo-americana de março de 2003, grande quantidade de dinheiro foi sacada de bancos iraquianos por autoridades governamentais. Providos de um “colchão protetor de dinheiro” e tendo o cuidado de espalhar depósitos de armas e munições em vários pontos do país, as condições para dar início a uma campanha de fustigação contra os adversários estariam lançadas.

Impasses no Paraíso: os limites do novo padrão militar dos EUA e a hora e a vez da política

O parágrafo anterior pode servir de fonte para entendermos o que anda a acontecer agora no Iraque ocupado. Grupos de integrantes das forças armadas iraquianas dispersos, podem estar por trás de pelo menos uma parte do movimento de resistência contra as tropas da coalizão. As autoridades do Pentágono tem insistido neste ponto. Na verdade, dão a entender que este seria o centro nervoso do sistema de resistência. Daí a importância de capturar os personagens do baralho distribuído aos soldados – as figuras chaves do regime deposto. Por enquanto o Pentágono afirma confiar na tática do aprisionamento ou eliminação destes elementos, indicando sua crença que uma vez neutralizados a resistência se enfraqueceria a ponto de tornar-se irrisória.
Outros (especialmente as autoridades inglesas), alegando conhecimentos mais amplos da história e das contradições que dividem os povos do Iraque, se recusam a emprestar credibilidade a um quadro tão confiante e simplista. Sunitas, grupos xiitas e líderes tribais podem perfeitamente articular a formação de unidades independentes, sem qualquer relação com os adeptos do antigo regime, e partir para a luta por conta própria. Existem ainda dois complicadores adicionais: o primeiro, devido ao colapso do sistema de segurança pública do país, constitui-se o cenário ideal para que se alastrassem práticas de banditismo puro. É possível que algumas dezenas de grupos armados estejam imbuídos unicamente do desejo de praticar pilhagens. Em seguida, o colapso dos serviços públicos do Iraque – que na verdade desde a Guerra do Golfo jamais voltaram a funcionar a contento – inspira grande descontentamento entre a população, o que serve de combustível para sobressaltos, ações espontâneas e não-organizadas contra os ocupantes. Em última análise, muita gente no Iraque entende que os causadores de suas agruras atuais mais graves são as autoridades e as tropas de ocupação, e não o regime deposto.
Ainda segundo os britânicos, o tipo de conduta a ser seguida no Iraque só pode ser a da atividade de contra-insurgência. Antes de mais nada, só mesmo um meticuloso trabalho de inteligência obraria a tarefa preliminar de mapear a identidade e a estrutura dos grupos da resistência iraquiana. Só que é muito difícil ser “inteligente” no Iraque. A relação entre as tropas de ocupação e a população tem se pautado mais pela animosidade do que pela estreita colaboração. Para muitos dos soldados da Coalizão, viver no Iraque é tão martirizante quanto passar uma temporada em outro planeta. O estranhamento cultural é notável. Segundo o jornal britânico The Guardian, os líderes militares em Washington já teriam mobilizado um exército de antropólogos, sociólogos e especialistas em cultura árabe, Islã e sociedade iraquiana para montar algum tipo de estratégia que sirva de suporte para melhorar as relações entre soldados e população civil. Não se sabe quanto tempo levará para que os resultados desses estudos comecem a surtir algum efeito nas ruas de Bagdá.
Uma outra possibilidade é a de encontrar um “Gunga Din”. Explico: o escritor Rudyard Kipling, sempre preocupado em descrever como o homem branco se virava para carregar seu “fardo” de “libertar os povos nativos das trevas do arcaísmo e da ignorância”, criou um personagem, um amigável corneteiro indiano chamado Gunga Din. Tratava-se de um cipaio – soldado nativo treinado por europeus – que manifestava grande identificação em relação aos sahibs britânicos. O ponto alto de sua carreira foi quando, em campanha, ao perceber que um regimento escocês (com gaitas, saiotes e tudo o mais) estava para ser emboscado por indianos tribais ocultos nos penhascos, galgou um dos mais altos picos e, tocando estridentemente seu clarim, alertou os escoceses do perigo. Os tribais irritados, crivaram Gunga de tiros. Este tombou, com a corneta nos lábios, dando a vida pelo regimento. Os líderes da coalizão, agora, em pleno século XXI, podem perfeitamente estar à procura no Iraque de alguns punhados de Gunga Dins, iraquianos identificados com os projetos ocidentais para o país e com disposição de “dar a vida pelo regimento”. Literalmente aliás, pois os grupos de resistência demonstram claramente que um dos alvos preferidos de seus ataques são os prováveis Gungas, com ou sem cornetas.
Nesse sentido, a questão de fundo do cenário atual, é que o dispositivo militar colocado em ação e que obteve uma vitória tão fácil contra as forças do ex-presidente Saddam Hussein, é ineficaz para enfrentar todo o quadro de confusão descrito acima. A tecnologia de última geração poderá auxiliar muito pouco o trabalho de polícia exigido às forças de ocupação nesse momento. Mas não nos enganemos em pensar que tudo se resolveria caso centenas de milhares de policiais bem treinados pudessem ser transferidos para o país. Isso ocorre porque nem a alta tecnologia, nem mesmo a polícia são capazes de substituir a política.
Os Estados Unidos que derrotaram o Iraque no campo militar, dificilmente tem condições hoje de oferecer uma política viável (isto é, palatável para a ampla maioria das forças políticas iraquianas) de reordenamento do país. Os equilíbrios internos do Iraque, anteriormente só mantidos pelo governo de força de Bagdá foram embaralhados de tal forma que existe uma forte possibilidade do Iraque transformar-se num novo Líbano das décadas da Guerra Civil (anos 70 e 80 do último século). Não temos dúvida que os soldados americanos desfrutam hoje de condições muito mais amplas do que na época da Guerra do Vietnã para se manterem no Iraque por muito tempo. Os apressados devem lembrar-se que a retirada dos soldados americanos da Indochina só ocorreu após perto de 10 anos de intervenção. Nas condições atuais, contando com tropas profissionais e com o auxilio de alguns países aliados – tais como a Grã-Bretanha e a Polônia por exemplo – a ocupação do Iraque tem tudo para se prolongar.
Contudo, ficar muito tempo por lá não implica em qualquer certeza de se conseguir desemaranhar o Nó Górdio político da região. Encontrar interlocutores entre os povos do país, conseguir colaboração em seus projetos de state building, essas são tarefas mais difíceis do que enfrentar 5 divisões da Guarda Republicana de Sadam. Com quem se aliar, e quem são os atores que se sentem inclinados a colaborar com o projeto de Washington, portando liderança suficiente para não temer as retaliações dos grupos opositores e capazes de reunir adeptos para uma reconstrução do Iraque “conveniente”, esse é o eixo político que a ocupação tem grandes dificuldades de concretizar. Para agravar o quadro, as forças de resistência já deixaram bem claro por suas atitudes que estão dispostas a atacar centros de produção importantes e a infra-estrutura do país, pois avaliam que o caos é seu dileto aliado. Não renunciam sequer ao uso de alguma criatividade, como o mundo pode observar através do episódio dos ataques com “burricos lança mísseis” ocorridos no mês de novembro de 2003.
Não pensemos também que a ONU desfrutaria de imediato de um sucesso fulgurante caso por ventura substituísse os EUA nas tarefas de administração e ocupação. O atentado contra a sede das Nações Unidas em Bagdá é uma firme demonstração que no entender de poderosos grupos armados iraquianos, a ONU não passa também de mais um poder estrangeiro e que deve igualmente ser expulso do país. Deixando um pouco as culpas de Sadam de lado, no final, para muitos iraquianos, a ONU orquestrou um apertado boicote contra o país durante uma década inteira. Dificilmente isso poderia ser esquecido. Em outras palavras, o sucesso em efetivar a emergência de uma situação política estável no Iraque seria uma tarefa tão árdua para a ONU quanto vem sendo até agora para os Estados Unidos.
Desse modo, podemos estar mais uma vez diante da tática guerrilheira de, ao enfrentar um adversário formidavelmente mais poderoso, a única forma de continuar a lutar é “atracando-se no seu pescoço”. Uma vez dentro do Iraque, diluídos nas ruelas de Basrah, entre os becos de Bagdá, ou nas escuras estradas entre as colinas do Curdistão, as vantagens da precisão e da alta tecnologia estão anuladas, e o sangue do inimigo pode finalmente ser vertido, mesmo que aos poucos.
O trabalho de “gendarme” sem a necessária condução política não funciona. Os Estados Unidos, seus aliados ou mesmo a ONU podem passar décadas no Iraque e mesmo assim, falhar miseravelmente. Os analistas militares, os cientistas em seus bem montados gabinetes e a soldadesca profissional e bem disposta, elaboraram e colocaram em prática um modo de fazer a guerra em que qualquer adversário que se atrever a permanecer em campo será inevitavelmente destruído. Como de hábito nos assuntos humanos, a resposta ao desafio acaba sendo engendrada, de um modo ou de outro. A resposta dos grupos de resistência iraquianos anda nos ensinando que depois da guerra, só resta a política. Fazer e assegurar a paz de modo adequado pode ser muito mais difícil do que prevalecer no campo de batalha. Apelar para as armas antes de se matutar satisfatoriamente todos os ângulos postos na arena política, pode não só comprometer a vitória, como também nutrir as bases de uma situação muito pior do que a anterior.
[1] Fonte para as duas tabelas, ver: BOBBIT, Philip, Guerra e paz entre as nações. Rio de Janeiro, editora Campus, 2003, pp. 235.

Impasses do Paraíso parte 1

Márcio Scalercio



Impasses no Paraíso:
A crise do Iraque: Clausewitz pode ajudar a vencer batalhas, mas é de muito pouca valia para o trabalho de gendarme.



Como você ousa cochilar à sombra da segurança complacente,
levando uma vida tão frívola quanto as flores do jardim, enquanto
seus irmãos na Síria não têm onde morar, a não ser as selas dos
camelos e as barrigas dos abutres? Sangue foi derramado! Jovens
belas foram envergonhadas (...). Será que os valorosos árabes
devem se resignar ao insulto e os valentes persas aceitar a
desonra(...). Jamais os muçulmanos foram tão humilhados.
Nunca suas terras foram tão selvagemente devastadas (...).

(Trecho do discurso do venerável cádi Abu Saad al-Harawi, ao califa de Bagdá, anunciando a invasão da Primeira Cruzada contra a Síria e Palestina em 1099 d.C e convocando o Comandante dos Crentes a reagir. O venerável cádi exibia sua cabeça raspada, nua por causa do luto. Citado de ALI, Tariq. Confronto de fundamentalismos. Rio de Janeiro - São Paulo, Record, 2002, pp. 63) .



O discurso proferido pelo venerável Abu Saad , que procurava sensibilizar o califa e os muçulmanos contra a ação dos cavaleiros cristãos invasores, se ajusta perfeitamente ao que se passa nos corações e mentes de muitos dos milhões de muçulmanos que habitam o mundo atual. Este é um dos elementos mais candentes presentes nas crises no Iraque e na Palestina. Ambas renovam a cada dia os descontentamentos e a fúria das massas islâmicas contra o Ocidente. Ambas transtornam as relações internacionais instilando discórdias entre velhos aliados (mesmo entre países ocidentais) e instabilidade no sistema entre as nações. Além disso, contribuem para a desmoralização da ONU, (Organização das Nações Unidas), revelando seus estreitos limites de influência e capacidade de formulação de políticas concretas para solucionar conflitos e crises graves. Finalmente, e porque não ressaltar, lamentavelmente, produzem vítimas fatais e prejuízos materiais por toda a parte, de Cabul a Nova Iorque.
A tarefa dos analistas e estudiosos em momentos como esse é árdua. Se devemos manter o olhar atento aos fulminantes acontecimentos do dia a dia da crise, não podemos deixar de reservar tempo para matutar as primeiras reflexões que a seriedade dos eventos exigem. Além dos lances quotidianos, diariamente exibidos com fartura pela mídia, a produção acadêmica provocada pela crise é tão abundante que a leitura minuciosa de tal quantidade de textos é de difícil execução, mesmo para os estudiosos mais dedicados e empenhados. Portanto, vai-se fazendo o humanamente possível, obedecendo os limites do engenho e as restrições de tempo, pois este fator nem sempre nos pertence inteiramente.
A proposição deste artigo é a de apresentar ao leitor a seguinte questão: enfatizando exclusivamente o cenário da atual crise do Iraque, demonstrar que a admiravelmente bem organizada máquina de guerra norte-americana, remodelada após a Campanha do Vietnã, que obteve com alguma facilidade a desagregação das forças armadas convencionais do Iraque e obrou a ocupação dos centros mais importantes do país, não está à altura da tarefa desejada pela liderança política dos Estados Unidos nesse momento: a de servir de principal suporte para a reestruturação do Estado e sociedade iraquianos que obedeça a um enquadramento entendido como viável aos interesses das Potências Ocidentais. O que se vai fazer aqui é um exercício de reflexão centrado em estudos de res militare (coisa militar, assuntos militares), um conjunto de temas em voga desde os tempos de antanho, cujas referências remontam aos textos greco-romanos da antigüidade clássica. A tradição que nutre a relevância de tais assuntos foi reforçada em nossos dias, dentre muitas outras razões, pelo fenômeno da liderança política dos EUA insistir em usar o poder militar como ferramenta fundamental de política externa.
Para que tenhamos uma idéia inicial dessa realidade, basta perceber que, durante os 50 anos de Guerra Fria, os EUA fizeram uso de seu poder militar no exterior por 16 vezes, enquanto que desde 1990, com a desagregação da URSS, forças norte-americanas se envolveram diretamente em conflitos internacionais pelo menos em 46 oportunidades (incluímos nessa contagem a Guerra do Iraque no ano de 2003)[1].

[1] Essa contagem é de Philip Bobbit e não temos razão para desconfiarmos da mesma. O cálculo do autor deixa de fora a Guerra no Iraque porque seu livro foi publicado em 2002. Ver: BOBBIT, Philip. A Guerra e Paz entre as Nações. Rio de Janeiro, editora Campus, 2002, pp. 235.