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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Quem são os Estados Unidos para Julgar?

Dando uma curta pausa na nossa programação normal, coloco aqui mais uma notícia do jornal "Oriente Médio Vivo".


O relatório anual de direitos humanos publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos provocou fortes críticas dos países que foram apontados como “violadores sistemáticos” de direitos humanos durante o ano de 2008. O relatório divulgado em março desse ano apresenta dados de 194 países e tece severas críticas aos países que, de alguma forma, fazem oposição aos Estados Unidos e aos interesses da Casa Branca.

Mas afinal, quem são os Estados Unidos para falar em direitos humanos? Essa pergunta é o mínimo que se espera de qualquer cabeça pensante. Obviamente, um país responsável por torturas sistemáticas de presos inocentes, sem acusação alguma, em que alguns casos levaram té a morte, como aconteceu em Guantánamo, Abu Ghraib e Bagram, não pode ditar regras de direitos humanos. Um país que mata civis diariamente no Afeganistão, Iraque e Paquistão com bombardeios indiscriminados a áreas residenciais não pode ter credibilidade nesse assunto. Uma nação não pode ser confiável após reeleger Bush para mais quatro anos no poder, mesmo depois de comprovadamente ter sido enganada pela administração dele e por ter visto com clareza os horrores da invasão ilegal ao Iraque.

Foram os mesmos eleitores que elegeram Barack Obama, mais no intuito de dar um sinal para o
mundo de que eles não são tão ruins assim do que pela vontade de “mudança”. Mas, por enquanto, Obama fez muito pouco do que vinha prometendo. Para ele, transformar Guantánamo
em um caso encerrado e passado era de extrema importância para a retórica de mudança adotada como slogan da campanha eleitoral.

Até agora a postura do novo presidente com relação à política de detenção sem causa ou quanto aos “outros Guantánamos”, como o campo de concentração de Bagram, continua a mesma do
antecessor.

Quanto ao relatório dos Estados Unidos, o informe denuncia violações das liberdades individuais em diversos países: Cuba, Venezuela, China, Egito, Irã, Sri Lanka, Zimbábue, Armênia, Mauritânia, República Democrática do Congo, entre outros. Mas ele diz algo sobre Guantánamo, Abu Ghraib ou Bagram? Ou sobre a invasão ilegal do Iraque? Os bombardeios diários contra civis no Afeganistão? Alguma linha foi escrita sobre o fornecimento de armas ilegais para Israel testar contra o povo palestino em Gaza? Não, para os estadunidenses isso simplesmente não aconteceu. Essa é a típica posição de descaso com relação ao resto do mundo que finalmente posicionou os Estados Unidos como inimigos do mundo nos últimos anos – e isso Obama parece não ter força nem caráter para mudar.

A atitude de dois pesos e duas medidas que reina nos relatórios dedireitos humanos publicados pelos Estados Unidos, em que aliados são parabenizados e inimigos são denunciados, é clara também na autoavaliação, em que os crimes que cometeu são sempre omitidos. Acontece que hoje, quando os crimes estadunidenses são claros para todos, esse relatório não serve mais para nada – não há credibilidade. Como afirmou o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores iraniano, Hassan Qashqavi, em resposta ao relatório, “os Estados Unidos, que são um dos principais violadores dos direitos humanos no mundo, não estão em posição de comentar sobre o
assunto.” Muitos países, pela primeira vez, assumiram essa postura. Entre eles estão muitos países da América do Sul, como Bolívia, Chile e Venezuela. O mundo só tem a ganhar com esse
levante contra os Estados Unidos, afinal, quem são eles para julgar?




Fonte: Oriente Médio Vivo, Nº 136, 6 de Abril de 2009


Humam al-Hamzah
Zaid Muhammad


terça-feira, 7 de abril de 2009

Ma Maan!

Não podia faltar aqui no nosso blog, o cumprimento do político mais popular da terra falando que o nosso político é o político mais popular da terra, o que possivelmente torna ele (o nosso) um dos políticos mais populares da terra

Prestem atenção no "handshake" inicial, próprio de líderes de estado com estilo

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Irã pratica subversão na América Latina, dizem EUA

Bruno Garcez

Da BBC Brasil em Washington

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, afirmou nesta terça-feira que o Irã está promovendo "atividades subversivas" na América Latina.

Os comentários foram feitos durante o depoimento de Gates no Senado americano - a primeira aparição do titular da Defesa desde que ele manteve o posto na transição entre a gestão do ex-presidente George W. Bush e o atual líder americano, Barack Obama.

O secretário de Defesa afirmou estar "preocupado com o grau de atividades francamente subversivas que os iranianos estão realizando em diferentes partes da América Latina e, em particular, na América do Sul e América Central".

"Eles (os iranianos) estão abrindo uma série de escritórios e diversas frentes através das quais eles interferem no que está se passando nestes países".

O secretário de Defesa não deu maiores detalhes sobre sua acusação contra o Irã.

Contatos

Em 2007, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, fez um giro pela Venezuela, Equador e Nicarágua.

Durante a viagem, o líder do Irã firmou uma série de acordos com seu colega venezuelano, Hugo Chávez.

O Irã, quarto maior produtor mundial de petróleo, e a Venezuela, o quinto, estão realizando explorações petrolíferas conjuntas na região venezuelana de Orinoco.

O país sul-americano pretende também comprar petroleiros iranianos e firmou tratados para operações conjuntas na construção de moradias de baixo custo e de tratores e bicicletas.

O Irã também abriu há poucos anos representações diplomáticas em países como a Bolívia e a Nicarágua, cujos governos são de esquerda e faziam oposição à política americana durante a gestão de George W. Bush.

Recentemente, inclusive, representantes do governo americano acusaram a representação diplomática do Irã na Nicarágua de contar com centenas de funcionários, o que, na visão dos Estados Unidos, caracterizaria a realização de operações que iriam além das de uma embaixada tradicional.

A informação foi negada pelo Irã, que disse operar com um número normal de funcionários em sua embaixada no país.

Sem preocupações

Gates fez menções ao suposto papel do Irã na América Latina quando respondia a uma pergunta sobre os recentes exercícios navais conjuntos realizados pela Marinha da Rússia e a da Venezuela, no país sul-americano.

Mas o titular da Defesa disse não se preocupar com a manobra militar russa.

''Se não fosse pelos eventos na Geórgia, em agosto, eu provavelmente teria persuadido o presidente a convidar as naves russas a realizarem uma passagem por Miami, porque eles teriam se divertido mais do que em Caracas'', ironizou Gates.

''Com o barril de petróleo a US$ 40, a Marinha russa não me incomoda tanto assim. É preciso levar em conta a capacidade deles'', afirmou.

De acordo com Gates, ''estas ações por parte dos russos não precisam nos preocupar. Mas, por outro lado, o envolvimento iraniano é uma preocupação''.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Análise: Solução de 'dois estados' pode ser sepultada no Oriente Médio

Sem ela, Israel ficará 'murado', protegendo-se de três estados falidos. Entenda quais os desafios diplomáticos do governo Obama na região.

Thomas L. Friedman
Do New York Times

Avise-me se você já ouviu essa antes. "Rapazes entram no bar..." Não, essa não – esta: "Este é o ano mais crítico de todos para a diplomacia palestina-israelense. São cinco para a meia-noite. Se não recuperarmos a diplomacia logo, será o fim da solução dos dois estados".

Ouvi essa frase praticamente todos os dias nos últimos vinte anos, e nunca caí nessa. Bom, hoje, estou começando a acreditar.

Estamos chegando perigosamente perto de fechar a janela para a solução dos dois estados, pois os dois principais fechadores de janela – o Hamas, em Gaza, e os colonos judeus fanáticos da Cisjordânia – têm ocupado o assento do motorista. O Hamas está ocupado em tornar inconcebível a solução dos dois estados, enquanto os colonos têm trabalhado persistentemente para fazer com que ela seja impossível.

Foto: AFP
Palestinos observam moto destruída durante bombardeio de Israel a Khan Younis, na Faixa de Gaza, nesta quinta-feira (29). (Foto: AFP)


Se o Hamas continuar a obter e usar foguetes de alcance cada vez mais longo, não existe jeito de qualquer governo israelense poder ou querer tolerar o controle palestino independente da Cisjordânia, pois um foguete lançado dali pode facilmente fechar o aeroporto de Tel Aviv e acabar com a economia de Israel.

Se os colonos judeus continuarem com seu "crescimento natural" para devorar a Cisjordânia, essa solução também estará efetivamente descartada. Nenhum governo israelense juntou a disposição de remover até os assentamentos "ilegais", não-autorizados, apesar das promessas dos Estados Unidos, então fica difícil entender como os assentamentos "legais" serão alguma vez removidos. Para as eleições em Israel, em 10 de fevereiro, é necessário um governo de unidade nacional que possa resistir à intimidação dos colonos, e os partidos mais de direita que os protegem, para conseguir implementar uma solução de dois estados.

Pois, sem uma solução de dois estados estáveis, o que teremos é Israel se escondendo atrás de um muro alto, defendendo-se de um estado falido controlado pelo Hamas em Gaza, de um estado falido controlado pelo Hezbollah no sul do Líbano e de um estado falido controlado pelo Fatah em Ramallah. E bom dia para vocês.

Então, se você acredita na necessidade de um estado palestino ou se você ama Israel, é melhor começar a prestar atenção. Isso não é um teste. Estamos na curva da história.

O que faz disso algo tão desafiador para a nova equipe de Obama é que a diplomacia do Oriente Médio tem se transformado, como resultado da desintegração regional desde Oslo, de três formas principais.

Primeiro, nos velhos tempos, Henry Kissinger podia voar para três capitais, reunir-se com três reis, presidentes ou primeiros-ministros e chegar a um acordo capaz de ser mantido. Não mais. Hoje, um pacificador tem de ser tanto um construtor nacional quanto um negociador.

Os palestinos estão tão fragmentados, politicamente e geograficamente, que metade da diplomacia dos Estados Unidos será sobre como alcançar a paz entre os palestinos e erguer suas instituições, para assim haver uma entidade coerente, legítima e decisória ali – antes de alcançar a paz entre os israelenses e os palestinos.

Segundo, o Hamas agora tem um veto em relação a qualquer acordo de paz palestino. É verdade que a facção acaba de provocar uma guerra precipitada que devastou a população de Gaza. Mas o Hamas não vai embora. Ele é bem-armado e, apesar de seu comportamento suicida de ultimamente, é profundamente enraizado.

A Autoridade Palestina, liderada por Mahmoud Abbas na Cisjordânia, não fará qualquer tipo de compromisso de paz com Israel, já que teme que o Hamas a denuncie como traidora. Logo, a tarefa número dois para Estados Unidos, Israel e os estados árabes é encontrar uma forma de trazer o Hamas a um governo palestino de unidade nacional.

Como diz o especialista em Oriente Médio, Stephen P. Cohen: "Não é suficiente para Israel que o mundo reconheça que o Hamas negligenciou criminalmente sua responsabilidade para com seu povo. O interesse de longo prazo de Israel é certificar-se de que tem um aliado palestino para as negociações, que terão legitimidade suficiente entre seu próprio povo, para poder assinar acordos e realizá-los. Sem o Hamas como parte de uma decisão palestina, qualquer paz entre Israel e Palestina será sem sentido".

Porém, trazer o Hamas para um governo unificado palestino, sem minar os moderados da Cisjordânia, que hoje lideram a Autoridade Palestina, será algo difícil. Precisamos que a Arábia Saudita e o Egito comprem, persuadam e pressionem o Hamas a manter o cessar-fogo, apoiando diálogos de paz e contra os foguetes – enquanto o Irã e a Síria vão tentar convencer o Hamas do contrário.

E isso leva ao terceiro novo fator – o Irã como jogador fundamental na diplomacia palestina-israelense. A equipe de Clinton tentou cortejar a Síria ao mesmo tempo em que isolava o Irã. O presidente Bush isolou tanto o Irã quanto a Síria. A equipe de Obama, como sustenta Martin Indyk em "Innocent Abroad: An Intimate Account of American Peace Diplomacy in the Middle East", "precisa tentar trazer a Síria, o que enfraqueceria o Hamas e o Hezbollah, ao mesmo tempo em que envolve o Irã também".

Então, resumindo: são cinco para a meia-noite. Antes do relógio dar as 12 badaladas precisamos reconstruir o Fatah, fundi-lo com o Hamas, eleger um governo israelense que possa congelar os acampamentos, cortejar a Síria e envolver o Irã – ao mesmo tempo em que evita que este último se torne nuclear – para convencermos as partes a iniciar um diálogo. Quem conseguir alinhar todas as peças desse cubo mágico diplomático merece dois Prêmios Nobel.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fórum de Davos começa nesta quarta com crise no centro das discussões

Encontro será aberto pelo primeiro-ministro russo, Vladimir Putin.Presidentes Lula e Obama não irão participar de reunião na Suíça.

Tem início nesta quarta-feira (28) a edição 2009 do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), encontro que reúne cerca de 2.500 dirigentes políticos e empresariais na cidade de Davos, na Suíça. Segundo analistas, o encontro deve ser dominado pelas discussões sobre a crise financeira que teve início no mercado imobiliário americano e se espalhou pelo mundo.

O presidente e fundador do WEF, Klaus Schwab, disse que o encontro terá que debater meios de "reconstruir a arquitetura financeira mundial" e "reativar a economia do planeta". "Ainda estamos no meio da crise", admitiu Schwab.

O discurso inaugural será feito pelo primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, que estará em Davos pela primeira vez. Ao seu lado, estarão alguns peso-pesados, como Jean-Claude Trichet, presidente do BC europeu, e Ban Ki-moon, secretário-general da Organização das Nações Unidas (ONU).

Também devem participar Pascal Lamy, diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, além de políticos como o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao e o inglês Gordon Brown. A chanceler alemã Angela Merkel e o primeiro-ministro japonês Taro Aso também deverão estar presentes.

Ausências

No entanto, o encontro terá também algumas ausência notáveis. A mais sentida deverá ser a do novo presidente dos EUA, Barack Obama, que não tem presença prevista no evento, segundo os organizadores do Fórum Mundial.

A delegação norte-americana deve ser representada por Valerie Jarret, conselheira econômica de Obama, e por outros nomes como o do ex-presidente Bill Clinton e do ex-vice Al Gore. Outra ausência deverá ser a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a Presidência da República, até a última sexta-feira (23) não estava prevista a participação de Lula no evento. Ao invés de Davos, Lula deverá estar em Belém, onde participará do Fórum Social Mundial.

Na Suíça, a comitiva brasileira será encabeçada pelo chanceler Celso Amorim e pelo presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Quem também deve comparecer é o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB).

Reformas financeiras

Outro tema que deverá ser discutido no evento é a reforma de instituições globais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

A idéia, já discutida nas reuniões do G20 - grupo que reúne países ricos e em desenvolvimento - é aumentar a representatividade das nações emergentes, de modo que essas organizações ganhem mais força para tomar medidas de alcance global contra a crise.

Rodada de Doha
Também podem acontecer encontros para avançar nas negociações da Rodada de Doha – as discussões para facilitar o comércio mundial, que se arrastam há vários anos sem chegarem a uma conclusão.

A presença do chanceler brasileiro Celso Amorim pode ser um indicativo que esse tema será abordado, uma vez que ele é um dos principais incentivadores das negociações. Davos também terá a presença do ministro indiano que foi considerados um dos responsáveis pelo colapso das últimas negociações sobre Doha, no segundo semestre do ano passado.

(Com informações da France Presse)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Lula apela ao fecho das negociações da Ronda de Doha

Brasília - O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, pediu hoje que o presidente dos Estados Unidos que amanhã toma posse, Barack Obama, inicie um esforço no sentido de concluir a Ronda de Doha para a liberalização do comércio global.
Segundo Lula da Silva os países que integram a Organização Mundial do Comércio (OMC) estiveram muito próximo de fechar um acordo, no entanto, George W. Bush, revelou-se indisponível uma vez que estava no fim do mandato. O desentendimento de países desenvolvidos e em desenvolvimento sobre o comércio de produtos agrícolas levou as negociações da Ronda de Doha a um impasse em meados do ano passado.

«Era importante que o presidente Obama tomasse outra vez a iniciativa para que nós pudéssemos concluir o acordo de Doha, porque seria uma ajuda enorme neste momento de crise para os países mais pobres, sobretudo para aqueles que têm a agricultura como base da sua economia», afirmou Lula da Silva no seu programa semanal de rádio, «Café com o Presidente».

O presidente brasileiro encerrou o seu programa semanal de rádio falando sobre a questão das alterações climáticas e, após lembrar que os Estados Unidos não são signatários do protocolo de Quioto, afirmou que anseia uma mudança de direcção nas acções do governo norte-americano, sob o comando de Barack Obama, no campo ambiental. «Nós temos que diminuir a emissão de gases que provocam o efeito estufa, nós precisamos fortalecer a matriz energética limpa e o Brasil tem um potencial extraordinário com o etanol», declarou Lula.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Analistas vêem oportunidades para o Brasil com Obama




Os biocombustíveis, a crescente importância internacional do Brasil, uma maior familiaridade com temas latino-americanos e uma provável postura menos isolacionista por parte dos Estados Unidos são alguns dos fatores que servirão como oportunidades para os brasileiros durante a gestão do presidente eleito americano, Barack Obama, na opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Mas eles acrescentam que a gravidade da turbulência econômica global, a guerra no Iraque, o desafio representado pelas ambições nucleares do Irã e os mais novos desdobramentos no conflito entre Israel e palestinos deverão jogar as relações com o Brasil para o segundo plano na política externa americana.

O diretor do Brazil Institute do centro de pesquisas políticas Woodrow Wilson Center, em Washington, Paulo Sotero, diz que a crise limita as opções nas relações entre os dois países, mas julga animador o fato de que altos representantes da futura administração de Obama têm laços com o Brasil, a começar pela indicada para comandar o Departamento de Estado - a senadora Hillary Clinton.

"Ela conhece bem o Brasil e talvez seja a primeira secretária de Estado americana que inicia a função com uma base sólida de conhecimentos e contatos brasileiros", afirma Sotero. "Está familiarizada com os avanços em política social do país e, quando primeira-dama, visitou projetos desse tipo no Brasil."

"Conhece a questão do biocombustível e está perfeitamente consciente da importância que o Brasil ocupa no cenário internacional", acrescentou.

Livre comércio

Há outros expoentes da futura administração que, na avaliação de Sotero, poderiam ter posturas que beneficiariam o Brasil, em especial no que diz respeito a temas de livre comércio.

Entre eles, o diretor do Brazil Institute identifica Ron Kirk, representante do Comércio indicado por Obama, e o futuro secretário de Agricultura, Tom Vilsack.

"Kirk é claramente uma pessoa alinhada com a liberalização do comércio", diz Sotero. "É um bom político, apoiou o Nafta (o tratado de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá), é do Texas e, por isso, compreende os efeitos positivos e negativos que o Nafta teve em alguns setores da economia americana."

"Tom Vilsack é uma figura interessante, que pode ter um peso importante nas relações com o Brasil", acrescenta o analista. "É ex-governador de Iowa, o maior celeiro agrícola e o maior produtor de etanol, mas é também um defensor da reforma da política agrícola americana."

De acordo com Sotero, a despeito de sua origem, Vilsack também não é um defensor da atual lei agrícola americana, conhecida como farm bill, que oferece vultosos subsídios para agricultores americanos.

Possíveis reformas da farm bill e reduções aos subsídos agrícolas costumam esbarrar em restrições por parte da ala ruralista do Congresso americano.

Paulo Sotero avalia que, se obtiver êxito em conter a crise nos primeiros anos de sua administração, Obama poderá dar mais atenção aos temas de liberalização comercial.

"Obama e seu principal assessor econômico na Casa Branca, o ex-secretário do Tesouro Larry Summers, são internacionalistas, compreendem perfeitamente bem a importância do comércio como fator de dinamização do crescimento da economia, mas ao mesmo tempo estão bem cientes das limitações que enfrentam hoje para levar adiante essa plataforma", afirma.

Multilateralismo

Christopher Garman, diretor para a América Latina da empresa de consultoria de riscos Eurasia Group, avalia que o Oriente Médio vai permanecer sendo o foco prioritário do governo americano, mas crê que o "ímpeto mais multilateral" de Barack Obama poderá ajudar os brasileiros.

"Nesse sentido, o Brasil pode ganhar um assento na mesa em grandes temas de discussão internacional, como a crise econômica global", afirma.

Mas Garman diz que a mesma crise econômica que pode alçar o Brasil a um papel de maior expressão também vai dificultar os avanços firmados na relação entre as duas nações.

"O governo Obama já deixou explícita sua defesa de uma política agressiva de incentivo a energias renováveis", afirma o diretor do Eurasia Group.

"As perspectivas para cooperação entre Brasil e Estados Unidos em etanol permanecem boas, mas é preciso ter em vista que tudo ficou mais difícil com a crise", acrescenta. "Produtores de etanol no Brasil e nos Estados Unidos estão sofrendo com a baixa do petróleo."

Garman diz acreditar, no entanto, em um possível desdobramento positivo da crise para o Brasil. Segundo o analista, os americanos poderiam se ver obrigados a gradualmente reduzir a sobretaxa de US$ 0,54 que é cobrada sobre o etanol brasileiro que entra no mercado americano.

"O governo (de Obama) deve manter as metas de utilização de biocombustíveis elevadas", afirma. "Isso significa que vai haver mercado dentro dos Estados Unidos para maior produção de etanol, e os produtores domésticos talvez não possam cumprir as metas de produção estabelecidas pelo governo."

"Isso abre um espaço para que os produtores de etanol do Brasil exportem para os Estados Unidos e cria um incentivo econômico para a redução da tarifa", acrescenta.

América Latina

Christopher Garman afirma que "a América Latina vai permanecer tendo baixa prioridade", mas avalia que o papel cada vez maior do Brasil em fóruns internacionais é algo visto com bons olhos pela administração de Obama.

Na opinião de Garman, a crise financeira global deverá abalar alguns dos vizinhos brasileiros que vêm adotando uma retórica antiamericana.

"Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina têm tremendas vulnerabilidades econômicas, seja porque dependem de petróleo como fonte de receita ou porque já entraram na crise financeira enfrentando dificuldades macroeconômicas significativas", diz o analista.

Com o agravamento da crise, essas nações poderão, na avaliação do diretor do Eurasia Group, retomar uma postura de desafio aos Estados Unidos e, dessa maneira, aproximar os americanos de seus aliados tradicionais na região, como Brasil e México.

Cuba

Para Paulo Sotero, um provável relaxamento das sanções americanas contra Cuba, como Obama sinalizou durante a campanha presidencial, representaria outra oportunidade para o Brasil e para os latino-americanos.

"A inclinação do presidente Obama de iniciar um processo de relaxamento das medidas de isolamento de Cuba tomadas por Bush, como restrições de remessas de dinheiro para a ilha por parte de cubanos-americanos e restrições de viagens para Cuba, serão bem recebidas na América Latina", afirma.

Essas possíveis medidas, segundo o analista, "abrem caminho para interesses dos Estados Unidos, que querem uma transição pacífica em Cuba, para os cubanos, que vivem uma situação econômica bem difícil, e para o Brasil, que quer ter uma participação na reconstrução da economia cubana".

Sotero diz que o Brasil teria condições, e contaria com a aprovação americana, de contribuir para que os cubanos reerguessem sua indústria açucareira e instalassem no país caribenho uma indústria de etanol capaz de suprir as necessidades de combustível e boa parte das necessidaes de eletricidade de Cuba.

O analista lembra ainda que, ainda nos primeiros cem dias da administração Obama, o novo governo americano terá algumas oportunidades de se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula deverá ir a Nova York em março, para uma cúpula de empresários, e pode ter seu primeiro encontro com o novo presidente dos Estados Unidos.

Os dois líderes deverão se reunir novamente no mês seguinte em duas ocasiões: primeiro, na Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, e no final de abril, na Grã-Bretanha, na reunião de chefes de governo do G-20.