terça-feira, 9 de junho de 2009
sábado, 6 de junho de 2009
Carcereiro diz que Pol Pot mandava "esmagar" prisioneiros
Por Ek Madra
PHNOM PENH (Reuters) - O carcereiro chefe de Pol Pot disse em um tribunal apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) que milhares de cambojanos foram torturados e mortos na famosa prisão S-21, sob ordens do líder do Khmer Vermelho.
Duch, o primeiro de cinco aliados de Pol Pot que irão a julgamento pelos massacres de 1975 a 1979, nos quais 1,7 milhão de cambojanos morreram, disse que o destino dos prisioneiros da S-21 foi selado em um encontro da liderança presidido pelo "Irmão Número Um", Pol Pot.
"O princípio era: quem fosse preso e interrogado, tem de ser esmagado. Isso significa ser morto", afirmou Duch, dizendo estar parafraseando minutos de um encontro em 9 de outubro de 1975.
O ex-professor de matemática, que tem 66 anos e cujo nome real é Kaing Guek Eav, era chefe da prisão também conhecida como Tuol Sleng, onde mais de 14 mil inimigos da revolução foram torturados e mortos.
Com a ausência de pena de morte no Camboja, Duch pode ser condenado a prisão perpétua se considerado culpado pelo tribunal conjunto entre ONU e o país. Ele é acusado de crimes de guerra, crimes contra a humanidade, tortura e homicídio.
Duch, que se tornou cristão após o Khmer Vemelho ter sido deposto por uma invasão vietnamita, aceitou a culpa pelas mortes, mas disse que estava apenas cumprindo ordens.
Ele descreveu nesta quinta-feira como a S-21 era estruturada. Ele se reportava ao então ministro da Defesa, Son Sen, que foi morto em 1997 sob ordens de Pol Pot, que morreu no ano seguinte.
"Pol Pot iniciou a política e Son Sen estava lá para implementá-la", afirmou Duch.
A maioria das vítimas da S-21 era torturada e forçada a confessar espionagem outros crimes antes de serem espancadas até a morte nos "Campos de Extermínio" fora da capital Phnom Penh.
Duch afirmou que encaminhava os relatórios de interrogatórios a Son Sen, e, depois, ao "Irmão Número Dois", Nuon Chea, que substituiu Son Sen como seu supervisor.
Nuon Chea e outros militares que enfrentarão julgamento - o ex-presidente Khieu Samphan, o ex-ministro das Relações Exteriores Ieng Sary e sua mulher - negaram ter conhecimento das atrocidades.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
A alucinação de Pol Pot
Por le monde 25/01/2004 às 20:44
Pol Pot, o sorriso amigo
Khieu Samphan afirma que ele não consegue "entender até hoje". "Em 1968, Pol Pot deu mostra de perspicácia na organização das zonas liberadas pelos khmers vermelhos. Durante a guerra contra os americanos e os vietnamitas do sul, a criação de cooperativas de "nível inferior" - terra privada, partilha das colheitas - correspondeu às necessidades em razão das destruições causadas pelos bombardeios americanos, e eu percebi que os camponeses estavam aderindo a valer". Por fim, ele acrescenta que a vitória de 1975 comprovou que Pol Pot era um "estrategista".
Mas, após esta vitória, e, portanto, mais uma vez no poder, Pol Pot escolheu o "comunismo total" e a passagem "para as cooperativas de nível superior", com a supressão da distribuição das colheitas". "A desgraça veio do fato de que a vitória fortaleceu Pol Pot na sua convicção de que, para escapar das pressões inimigas, o único caminho possível era a coletivização total, e não apenas a das campanhas", diz Khieu Samphan, que permaneceu ao lado do líder khmer vermelho até o fim.
"Estava claro", prossegue, "que os camponeses não podiam aceitar as expropriações nem a perda das colheitas. A economia rural havia sido destruída pela guerra e as pessoas precisavam respirar um pouco". Em vez disso, "poderes terríveis foram atribuídos aos chefes das cooperativas, o que apresentava o risco de esses indivíduos não possuírem qualquer formação política e não terem sido confrontados às duras provas da vida".
Ele cita um outro exemplo: por que notas de dinheiro haviam sido impressas e estocadas pela guerrilha em 1974 com objetivo de substituir, uma vez o poder conquistado, a moeda emitida pelo governo de Lon Nol, sitiado em Phnom Penh? "A supressão da moeda não havia sido prevista", diz. Então, por que isso foi feito logo depois da vitória de 1975? O mesmo poderia ser dito a respeito dos correios, do ensino, da família, dos intelectuais...
Com a distância, o antigo chefe do Estado estima que "a alucinação de Pol Pot permanece um grande ponto de interrogação". Nos primeiros dias de 1979, quando o exército vietnamita já invadira o sudeste cambojano e estava dirigindo seus blindados rumo a Phnom Penh, Pol Pot permaneceu "muito calmo". "Até o último minuto, ele achou que, quanto mais o inimigo avançasse, quanto mais fácil seria destruí-lo; foi o que ele repetiu até 5 de janeiro", ou seja, 48 horas antes da entrada dos vietnamitas em Phnom Penh, após duas semanas apenas de ofensiva.
Khieu Samphan começou a ter "dúvidas" durante os dias que precederam esta ocupação da capital. "Eu estava encarregado da distribuição dos medicamentos, enquanto os hospitais estavam lotados de feridos", diz. Em 2 de janeiro de 1979, Pol Pot "considera mais prudente" afastar o príncipe Sihanouk de Phnom Penh e pede a Khieu Samphan para conduzi-lo até Sisophon, um vilarejo situado a cerca de 60 quilômetros da fronteira tailandesa, o que ele faz. Então, Pol Pot lhe ordena de trazer o príncipe de volta a Phnom Penh. Ele obedece.
Em 5 de janeiro, Pol Pot lhe pede para "convidar o príncipe para vir conversar com ele". "Era a primeira vez que ele pedia para ver o príncipe e eu entendi então que a situação estava muito ruim". Durante a conversa, Pol Pot "solicitou" a intervenção de Sihanouk perante o Conselho de Segurança da ONU, para defender o Kampuchea democrático - o regime dos Khmers vermelhos. "Eu entendi", diz Khieu Samphan, "que Pol Pot havia sido surpreendido". Sihanouk - que voltará para o seu trono em 1993 - viajou, depois de uma escala em Pequim, para Nova York, onde, após ter defendido a causa do Camboja na ONU, ele escapou da vigilância de sua escolta de khmers vermelhos.
Frente às forças vietnamitas, "houve deslocamentos de unidades porém não houve nenhuma debandada", afirma contudo Khieu Samphan. A liderança khmer vermelha reuniu-se na floresta dos montes Cardamones, não longe da Tailândia. "Todo mundo reconheceu que graves erros haviam sido cometidos, mas era tarde demais", prossegue. Os Khmers vermelhos renunciam então a uma "solução militar" e optam por uma política "frentista", portanto, por uma "união de todas as forças nacionais". Ele confirma que, em 1979, Pol Pot "assumiu as suas responsabilidades e ofereceu a sua demissão", confirmando o boato que circulou na época. Ta Mok, um pilar da direção khmer vermelha, e Nuon Chea, então o segundo oficial mais importante na hierarquia do movimento, "recusaram a sua demissão". "Quem irá substituir o senhor?", responderam-lhe, segundo Khieu Samphan, o qual acrescenta: "Estávamos distantes do espírito de 1970-1971."
Pol Pot permanece portanto à frente da guerrilha mas a sua saúde vai de mal a pior. Nuon Chea, por sua vez, preocupa-se "cada vez mais com a sua própria saúde" e participa com menos afinco da direção do movimento. Em 1985, os Khmers vermelhos decidem "preparar Son Sen" para a sucessão de Pol Pot. O herdeiro assim designado fora encarregado, entre outras coisas, de supervisionar os centros de tortura e de extermínio de 1975 a 1978. Em 1996, o movimento khmer vermelho, cuja história não passa de uma sucessão de traições e de expurgos, cinde-se novamente: Ieng Sary e o seu clã fazem as pazes com Phnom Penh. "Essa foi uma dura prova", comenta Khieu Samphan, que continuou ao lado de Ta Mok e de Pol Pot. Pouco antes da morte deste último, Son Sen "toma o poder". Ele é abatido. Quem deu a ordem? "Foi Pol Pot", responde Khieu Samphan.
Enquanto ele reconhece, de maneira muito tardia, o genocídio, este último continua a expressar sentimentos divididos - "contraditórios", repete ele - em relação ao líder khmer vermelho. "Pol Pot", diz, "sempre se mostrou amigável comigo, e eu posso afirmar que ele me estimava como um intelectual patriota. Ele comparava as nossas relações com as de Lênin com Gorki e parecia pensar, ao meu respeito, que os intelectuais nunca têm os pés no chão".
A respeito de Ta Mok, cuja aliança com Pol Pot foi crucial, ele conta que ele nunca tomava notas durante as reuniões. Quando Pol Pot o repreendia, Ta Mok começava a escrever "em papel de seda de cigarros". Será que ele chegou alguma vez a ser ameaçado pela direção khmer vermelha? Khieu Samphan responde: "Francamente, não". "Até mesmo Ta Mok gostava de mim; nunca tive problemas com ele. Em 1979, depois da ocupação do Camboja pelos vietnamitas, nós não apostamos numa solução armada, mas na necessidade de uma frente unida apoiada pelos países da região e, numa certa medida, numa intervenção do Ocidente. Ta Mok voltou-se para mim e, brincando, me disse: "Daqui para frente, você poderá aderir à CIA".
Tradução: Jean-Yves de Neufville
quinta-feira, 4 de junho de 2009
O exterminador
A informação foi divulgada na quinta-feira 6: Pol Pot, o sanguinário líder do Khmer Vermelho que dirigiu o Camboja entre 1975 e 1979 e foi responsável por um dos maiores genocídios da história, teria morrido de malária. No dia seguinte, fontes do Khmer Vermelho e setores da inteligência da Tailândia desmentiram a notícia. Não seria a primeira vez que sua morte é anunciada. Ele não é visto em público desde 1979. Vivo ou morto, Pol Pot continua a chamar a atenção do mundo para o Camboja. Seu regime foi o mais trágico exemplo da insanidade de se construir o "homem novo". Em 17 de abril de 1975, quando as tropas do Khmer Vermelho entraram em Phnom Penh, os sofridos cambojanos as saudaram como libertadoras. A euforia durou pouco. Logo começaria a transferência forçada das cidades para o campo, porque para Pol Pot a cidade era a fonte de todo o mal. Os cambojanos deveriam eliminar os vícios "burgueses" e se reeducar com as massas camponesas, como ensinava o não menos ditador da China, Mao Tsé-tung. As primeiras medidas: a moeda local foi abolida, bibliotecas foram transformadas em chiqueiros e intelectuais, profissionais liberais eram sumariamente executados. Calcula-se que 15 mil dos 20 mil professores do país foram mortos, assim como 90% dos monges budistas e um em cada cinco médicos. Até hoje as vítimas do genocídio de Pol Pot são contadas: as estimativas variam de um a três milhões de mortos, num país que tem sete milhões de habitantes.
Pol Pot (nome verdadeiro Saloth Sar), nasceu em 19 de maio de 1928 na Província de Kompong Thom, na então Indochina, dominada pela França. Foi em Paris que tomaria contato na década de 40 com a literatura comunista e o movimento anticolonialista. Em 1953 voltou ao seu país e aderiu aos movimentos clandestinos de independência da Indochina - o Camboja se tornaria independente dois anos depois. Em 1968, liderou os guerrilheiros do Khmer Vermelho em seus primeiros ataques ao governo do então príncipe Norodom Sihanouk, que pretendia manter o país neutro na Guerra do Vietnã. Sihanouk foi deposto e substituído pelo general Lon Nol, aliado dos EUA. Pol Pot tomou o lugar do general em 1975. O regime do Khmer acabaria com a invasão do Camboja, justamente por tropas do Vietnã, no Natal de 1978. O Khmer voltou para a selva. Se o "irmão número um" - como gostava de ser chamado - estiver morto, é provável que o Khmer finalmente morra também. Se estiver vivo, continuará a pesar como uma maldição sobre o povo cambojano.
domingo, 31 de maio de 2009
O massacre do Camboja
Cambodia Genocide (Pol Pot) - 1975-1979 - 2,000,000 Deaths
An attempt by Khmer Rouge leader Pol Pot to form a Communist peasant farming society resulted in the deaths of 25 percent of the country's population from starvation, overwork and executions.
Pol Pot was born in 1925 (as Saloth Sar) into a farming family in central Cambodia, which was then part of French Indochina. In 1949, at age 20, he traveled to Paris on a scholarship to study radio electronics but became absorbed in Marxism and neglected his studies. He lost his scholarship and returned to Cambodia in 1953 and joined the underground Communist movement. The following year, Cambodia achieved full independence from France and was then ruled by a royal monarchy.
By 1962, Pol Pot had become leader of the Cambodian Communist Party and was forced to flee into the jungle to escape the wrath of Prince Norodom Sihanouk, leader of Cambodia. In the jungle, Pol Pot formed an armed resistance movement that became known as the Khmer Rouge (Red Cambodians) and waged a guerrilla war against Sihanouk's government.
In 1970, Prince Sihanouk was ousted, not by Pol Pot, but due to a U.S.-backed right-wing military coup. An embittered Sihanouk retaliated by joining with Pol Pot, his former enemy, in opposing Cambodia's new military government. That same year, the U.S. invaded Cambodia to expel the North Vietnamese from their border encampments, but instead drove them deeper into Cambodia where they allied themselves with the Khmer Rouge.

From 1969 until 1973, the U.S. intermittently bombed North Vietnamese sanctuaries in eastern Cambodia, killing up to 150,000 Cambodian peasants. As a result, peasants fled the countryside by the hundreds of thousands and settled in Cambodia's capital city, Phnom Penh.
All of these events resulted in economic and military destabilization in Cambodia and a surge of popular support for Pol Pot.
By 1975, the U.S. had withdrawn its troops from Vietnam. Cambodia's government, plagued by corruption and incompetence, also lost its American military support. Taking advantage of the opportunity, Pol Pot's Khmer Rouge army, consisting of teenage peasant guerrillas, marched into Phnom Penh and on April 17 effectively seized control of Cambodia.
Once in power, Pol Pot began a radical experiment to create an agrarian utopia inspired in part by Mao Zedong's Cultural Revolution, which he had witnessed, first-hand during a visit to Communist China.
Mao's "Great Leap Forward" economic program included forced evacuations of Chinese cities and the purging of "class enemies." Pol Pot would now attempt his own "Super Great Leap Forward" in Cambodia, which he renamed the Democratic Republic of Kampuchea.
He began by declaring, "This is Year Zero," and that society was about to be "purified." Capitalism, Western culture, city life, religion, and all foreign influences were to be extinguished in favor of an extreme form of peasant Communism.
All foreigners were thus expelled, embassies closed, and any foreign economic or medical assistance was refused. The use of foreign languages was banned. Newspapers and television stations were shut down, radios and bicycles confiscated, and mail and telephone usage curtailed. Money was forbidden. All businesses were shuttered, religion banned, education halted, health care eliminated, and parental authority revoked. Thus Cambodia was sealed off from the outside world.
All of Cambodia's cities were then forcibly evacuated. At Phnom Penh, two million inhabitants were evacuated on foot into the countryside at gunpoint. As many as 20,000 died along the way.
Millions of Cambodians accustomed to city life were now forced into slave labor in Pol Pot's "killing fields" where they soon began dying from overwork, malnutrition and disease, on a diet of one tin of rice (180 grams) per person every two days.
Workdays in the fields began around 4 a.m. and lasted until 10 p.m., with only two rest periods allowed during the 18 hour day, all under the armed supervision of young Khmer Rouge soldiers eager to kill anyone for the slightest infraction. Starving people were forbidden to eat the fruits and rice they were harvesting. After the rice crop was harvested, Khmer Rouge trucks would arrive and confiscate the entire crop.
Ten to fifteen families lived together with a chairman at the head of each group. The armed supervisors made all work decisions with no participation from the workers who were told, "Whether you live or die is not of great significance." Every tenth day was a day of rest. There were also three days off during the Khmer New Year festival.
Throughout Cambodia, deadly purges were conducted to eliminate remnants of the "old society" - the educated, the wealthy, Buddhist monks, police, doctors, lawyers, teachers, and former government officials. Ex-soldiers were killed along with their wives and children. Anyone suspected of disloyalty to Pol Pot, including eventually many Khmer Rouge leaders, was shot or bludgeoned with an ax. "What is rotten must be removed," a Khmer Rouge slogan proclaimed.
In the villages, unsupervised gatherings of more than two persons were forbidden. Young people were taken from their parents and placed in communals. They were later married in collective ceremonies involving hundreds of often-unwilling couples.
Up to 20,000 persons were tortured into giving false confessions at Tuol Sleng, a school in Phnom Penh, which had been converted into a jail. Elsewhere, suspects were often shot on the spot before any questioning.
Ethnic groups were attacked including the three largest minorities; the Vietnamese, Chinese, and Cham Muslims, along with twenty other smaller groups. Fifty percent of the estimated 425,000 Chinese living in Cambodia in 1975 perished. Khmer Rouge also forced Muslims to eat pork and shot those who refused.
On December 25, 1978, Vietnam launched a full-scale invasion of Cambodia seeking to end Khmer Rouge border attacks. On January 7, 1979, Phnom Penh fell and Pol Pot was deposed. The Vietnamese then installed a puppet government consisting of Khmer Rouge defectors.
Pol Pot retreated into Thailand with the remnants of his Khmer Rouge army and began a guerrilla war against a succession of Cambodian governments lasting over the next 17 years. After a series of internal power struggles in the 1990s, he finally lost control of the Khmer Rouge. In April 1998, 73-year-old Pol Pot died of an apparent heart attack following his arrest, before he could be brought to trial by an international tribunal for the events of 1975-79.sábado, 30 de maio de 2009
Quem é: Pol Pot?
Em 1946, Pol Pot filia-se ao Partido Comunista da Indochina. Depois de ir para a França estudar eletrônica, volta ao Camboja em 1953, quando o país conquista a independência. Trabalha como professor em Phnom Penh até 1963, quando deixa a cidade porque a polícia suspeita de seu envolvimento com comunistas. No mesmo ano, participa da fundação do Khmer Vermelho, organização guerrilheira de extrema esquerda que cresce politicamente nos dez anos seguintes.
Em 1975, o Khmer toma o poder por meio de um golpe e, no ano seguinte, seu líder Pol Pot se torna primeiro-ministro. No governo, obriga populações inteiras a abandonar as cidades e trabalhar no campo. Entre 2 e 4 milhões de pessoas (cerca de 20% da população) morrem em conseqüência de trabalhos forçados, execuções, doenças ou tortura. É deposto em 1979, quando tropas vietnamitas invadem o Camboja, dando início a uma ocupação de onze anos, e os líderes do Khmer Vermelho se refugiam nas montanhas da fronteira com a Tailândia.
Pol Pot abandona o comando do movimento em 1985, mas continua a exercer influência. Morre de causas naturais, durante a prisão domiciliar a que fora condenado pelo próprio Khmer Vermelho.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
O Khmer Rouge e Pol Pot
Após uma guerra civil, Phnom Penh foi dominada, O Khmer Rouge estabeleceu uma das mais brutais e radicais reformas da sociedade moderna. O plano era transformar um país para ser Maoísta, baseado no cooperativismo.
A primeira medida do Khmer Rouge no poder foi tirar todo mundo das cidades e enviá-los aos campos para trabalhos escravo, sem pagamento. Velhos, criancas e doentes eram obrigados a trabalhar na agricultura. Qualquer forma de revolta era vista como extremamente perigosa e as pessoas eram executadas ali mesmo. De novo, mais massacres.
A segunda medida foi abolir a moeda local. No Cambodia durante esse período não existiu moeda, e tudo era oferecido pela China, o big brother da época. Fecharam-se todas as fronteiras e comunicação com o resto do mundo; a única via de comunicação para fora era um voo semanal de Phnom Penh para Pequim ( hoje Beijing, China ). Aliás, hoje o Cambodia tem uma moeda oficial, mas curiosamente são somente notas; não existem moedinhas. Deve ser algo fruto dessa época.
As mudanças drásticas não pararam aí. A contagem do tempo e a data foram abolidas também, imagine só, o governo Khmer Rouge declarou que a partir de então aquele era o ano zero. Seria algo como o renascimento do Cambodia. Para o resto do mundo, aquele era o ano de 1970.
O Cambodia que um dia foi o maior império Asiático, com exército de milhares, tropas inteiras de elefantes e arquitetura refinada com seu auge em Angkor Wat (depois falamos disso) viu-se totalmente fora dos trilhos e sua sociedade começava a entrar em decadência. Interessante como apenas basta um líder para destruir uma nação.
Quem era o grande líder dessa revolução? Um senhor chamado Pol Pot.
Falar no nome Pol Pot por aqui no Cambodia, ainda é um tabu para a população. Se você for numa festinha ou estiver entre amigos tomando uma cerveja, falar 'pol pot' faz com que todos olhem para ti e um clima de medo e tristeza fica no ar. Todos aqui tem pelo menos um pai, uma mãe, um avô, um grande amigo ou filho que morreu durante essa terrível época. A ferida histórica é muito grande e a cicatriz ainda está aberta. Algo vivido de forma similar na Alemanha e seu passado com Hitler; Após 50 e tantos anos, somente no ano passado durante a copa de 2006 os Alemães finalmente puderam erguer sua bandeira nacional e cantar seu hino em público sem serem chamados de Nazistas.
E o mais interessante: Pol Pot durante anos nunca foi visto por ninguém. Ele não aparecia em público, o que alimentava ainda mais sua imagem mítica. Alto, forte, um fantasma, conseguia ler as mentes das pessoas...a lenda urbana em torno de seu poder apenas aumentava cada dia.
Ele tinha um ódio, aparentemente ainda não explicado, do Vietnam que fez com que virasse uma obsessao derrota-los em batalha.
Nessa dia de batalha, de novo mais guerras, o Vietnam derrotou o Khmer Rouge e destronou Pol Pot, que fugiu para a Tailandia. Passou os anos 80 montando uma guerrilha na selva, com apoio da China e (vejam só) dos Estados Unidos. Quem está na faixa dos 30 anos lembra o que era aquela época maluca da cortina de ferro e da guerra fria.
Várias vezes sua morte foi anunciada nos jornais e na TV, mas ninguém acreditava. Era algo como se fosse hoje anunciar a morte de Ossama Bin Laden. Finalmente quando seu corpo foi exposto na TV que houve essa certeza. Mas ainda hoje no cambodia há quem acredite que ele esteja vivo.
Não se sabe exatamente quantos morreram nas mãos desse governo durante 4 anos de dominio. Aparentemente 2 milhoes de pessoas, mas muitos morreram de cansaço e fome, não contabilizados.
Conversando com o rapaz que guia nosso tuk-tuk ele falou que o povo do cambodia vive como se fosse o último dia de vida deles, como se não houvesse amanhã. Para quem visita o Cambodia, pode achar estranho essa falta de compromisso com futuras gerações, com a natureza etc...mas depois que nós, antes de começarmos a julgar suas ações, aprendemos sobre sua história recente, as coisas começam a ficar mais claras.
Eles vivem como se não houvesse amanhã, porque na verdade, há apenas alguns anos realmente não existia.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Cambodia: Evidence at the Khmer Rouge Tribunal
VOA Khmer [1]interviewed former Khmer Rouge rebels who doubt there will be sufficient evidence to convict the five leaders waiting to stand trial at the Khmer Rouge Tribunal [2]. Sok Pheap, a general in the army who had defected from the Khmer Rouge in 1996, challenges,
I didn’t know [who the killers were]; I was the soldier in the forest, and when I came back home also my relatives had gone missing, killed, and most of villagers had died.
Another former Khmer Rouge member, Meas Mouth, states that:
For instance, the skull bones that have been displayed: the court must know which skull belonged to a person killed by the Vietnamese, which belonged to a person killed by B-52 bombers, or any of the Khmers who did not die by the Khmer Rouge.
A lawyer from the Cambodian Defenders Project [3] agreed that because the events occurred 30 years ago, evidence and witnesses could be hard to come by.
However, Youk Chhang of the Documentation Center of Cambodia [4], stated there are hundreds of thousands of documents to link the accused to the war crimes.
In addition to documentary evidence, testimonies of survivors are being gathered, including in Long Beach, California [5], where many Cambodians resettled after the genocide.
Victims and their relatives have the right to file complaints through the Victims Unit of the Extraordinary Chambers in the Courts of Cambodia. Instructions on how to file a complaint are found here [6].
[7]
Photo capturing faces of the Tuol Sleng [8] prison by Yarra64 [9]and licensed through Creative Commons [10].
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Article printed from Global Voices Online: http://globalvoicesonline.org
URL to article: http://globalvoicesonline.org/2009/03/31/cambodia-evidence-at-the-khmer-rouge-tribunal/
URLs in this post:
[1] VOA Khmer : http://www.voanews.com/khmer/2009-03-26-voa1.cfm
[2] Khmer Rouge Tribunal: http://globalvoicesonline.org/2009/03/31/cambodia-trial-begins-for-khmer-rouge-leader/
[3] Cambodian Defenders Project: http://www.cdpcambodia.org/default.asp
[4] Documentation Center of Cambodia: http://www.dccam.org/
[5] Long Beach, California: http://www.presstelegram.com/news/ci_12016405
[6] here: http://www.eccc.gov.kh/english/victims_unit.aspx
[7] Image: http://www.flickr.com/photos/yarra64/3390059182/
[8] Tuol Sleng: http://www.tuolsleng.com/
[9] Yarra64 : http://www.flickr.com/photos/yarra64/
[10] Creative Commons: http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/deed.en
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Duch, líder do Khmer Vermelho, começa a ser julgado
Este será o primeiro julgamento de genocídio relacionado ao violento regime do grupo comunista Khmer Vermelho, que governou o Camboja entre 1975 e 1979. Nesse período, cerca de 1,7 milhão de cambojanos morreram executados, de fome, por trabalhos forçados e por negligência médica. Duch comandou a principal prisão do Khmer Vermelho, conhecida como S-21 ou Tuol Sleng, aonde, acredita-se, até 16 mil homens, mulheres e crianças foram enviados para a morte depois de terem sido torturados.
O tribunal, administrado pelo Camboja e pela Organização das Nações Unidas (ONU), irá julgar outros quatro líderes do Khmer Vermelho ao longo do próximo ano. O líder do grupo, Pol Pot, morreu em 1998. "O povo cambojano finalmente verá um dos mais notórios líderes do Khmer Vermelho ser julgado", disse o grupo de direitos humanos Anistia Internacional em comunicado. "Mas muitos outros precisam enfrentar o tribunal para que realmente seja feita justiça às milhões de vítimas desses crimes horríveis."
Críticos dizem que o governo do Camboja limitou o alcance do tribunal porque outros potenciais suspeitos são hoje leais ao primeiro-ministro Hun Sen, e prendê-los seria politicamente embaraçoso. As informações são da Associated Press.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
EUA contribuíram com ascensão de Pol Pot, diz réu do Khmer
Por Ek Madra
PHNOM PENH (Reuters) - O torturador-chefe do regime cambojano do Khmer Vermelho disse nesta segunda-feira a um tribunal especial que as políticas norte-americanas da década de 1970 no Sudeste Asiático contribuíram com a ascensão daquela cruel ditadura.
Kaing Guek Eav, o Duch, primeiro de cinco dirigentes do Khmer Vermelho a ser julgado pelas atrocidades cometidas durante o regime (1975-79) que matou 1,7 milhão de cambojanos, disse que o grupo do ditador Pol Pot teria sumido se os EUA não tivessem se envolvido no Camboja.
"(O presidente dos EUA) Richard Nixon e (o secretário de Estado) Henry Kissinger permitiram que o Khmer Vermelho agarrasse oportunidades de ouro", disse Duch, de 66 anos, no início da segunda semana do seu julgamento, em um tribunal promovido conjuntamente pela ONU e pelo governo do Camboja.
O réu dirigiu a célebre prisão S-21, onde mais de 14 mil "inimigos da revolução" foram torturados e mortos.
Na semana passada, ele pediu perdão por seus crimes. Acusado de crimes contra a humanidade, crimes de guerra, tortura e homicídio, Duch pode ser condenado à prisão perpétua.
Questionado pelo juiz sobre como aderiu ao Khmer Vermelho, Duch deu uma longa e errática explicação, que incluiu as referências a Nixon e Kissinger.
O Camboja se tornou um campo de batalha da Guerra Fria em 1969, quando o governo Nixon começou a bombardear rotas no leste do país que os norte-vietnamitas (pró-soviéticos) usavam para levar homens e suprimentos para seus combates no Vietnã do Sul, que tinha um governo aliado dos EUA.
Em 1970, o príncipe (hoje "rei-pai") do Camboja, Norodom Sihanouk, foi deposto por um golpe comandado pelo general pró-americano Lon Nol, que entrou em guerra contra os comunistas do Vietnã e do próprio Camboja.
Sihanouk posteriormente estabeleceu aliança com o Khmer Vermelho e conclamou os cambojanos a lutarem contra o regime de Lon Nol, derrubado em 1975 pelo Exército de Pol Pot.
"O príncipe Sihanouk convocou o povo cambojano a aderir ao Khmer Vermelho comunista na selva, e isso permitiu que o Khmer Vermelho acumulasse suas tropas entre 1970 e 75," disse ele.
Sem isso, alegou Duch, "acho que o Khmer Vermelho teria sido demolido."
O regime do Khmer Vermelho foi derrubado por uma invasão vietnamita em 1979. Após a morte de Pol Pot, em 1998, Kissinger defendeu a decisão de bombardear o Camboja como sendo parte da Guerra do Vietnã, e disse que o fato não teve relação com as atrocidades cometidas posteriormente no país.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Torturador cambojano diz que nunca matou, só "mandava executar"
O chefe torturador do Khmer Vermelho, Kaing Guek Eav, admitiu hoje ao Tribunal Internacional para o Genocídio do Camboja, que ordenou milhares de execuções como oficial no comando das prisões criadas pela organização, mas disse que nunca matou ninguém; "mandava matar".
Eav, conhecido como "Duch", compareceu ao tribunal, pelo segundo dia consecutivo, para ser interrogado sobre seu papel como diretor da prisão M-13, montada em 1971 pelo Khmer Vermelho durante a guerra civil anterior à tomada do poder pelo grupo comunista inspirado no dirigente chinês Mao Tsé Tung, em abril de 1975.
Interrogado pelo promotor Robert Petit, "Duch", também ex-chefe do centro de torturas de Tuol Sleng (S-21), por onde 14 mil pessoas passaram, entre 1975 e 1979, antes de serem executadas, negou que tenha matado qualquer pessoa por suas próprias mãos.
"Nunca matei ninguém, nem no M-13 nem no S-21, mas sempre dava as ordens quando um preso devia ser executado".
"Duch", que confirmou sua "plena autoridade" no M-13, explicou que nesta prisão as execuções eram uma missão, sobretudo, dos jovens, que "assimilavam melhor a doutrina revolucionária".
"Todas as execuções eram feitas batendo com uma barra de ferro na nuca do preso", relatou.
Além de diplomatas, estrangeiros e até ministros do próprio regime, cerca de 2 mil crianças passaram pelo S-21, para serem torturadas e assassinadas em seguida, no campo de extermínio de Choeung Ek, a 15 quilômetros da cidade.
"A tortura era inevitável" disse Duch, lembrando que elas tinham como objetivo extrair dos presos informação sobre atividades "contrarrevolucionárias", embora tenha admitido, no tribunal, que poucas vezes achou que as confissões contivessem mais de 40% de verdade.
Elas incluíam asfixias, queimaduras e a introdução de objetos pontiagudos sob as unhas, entre outras técnicas.
"Duch" é acusado de crimes contra a humanidade, de guerra, torturas e homicídio premeditado, podendo ser condenado à prisão perpétua.
domingo, 12 de abril de 2009
Evidências no Tribunal do Khmer Rouge
VOA Khmer [En] entrevistou ex-rebeldes do Khmer Rouge que duvidam que haja evidências suficientes para condenar os cinco líderes do movimento que esperam julgamento no Tribunal do Khmer Rouge [En]. Sok Pheap, um general de exército que desertou do Khmer Rouge em 1996, desafia,
I didn’t know [who the killers were]; I was the soldier in the forest, and when I came back home also my relatives had gone missing, killed, and most of villagers had died.
Outro ex-membro do Khmer Rouge, Meas Mouth, afirma que:
For instance, the skull bones that have been displayed: the court must know which skull belonged to a person killed by the Vietnamese, which belonged to a person killed by B-52 bombers, or any of the Khmers who did not die by the Khmer Rouge.
Um advogado do Projeto Defensores Cambojanos [En] concordou que uma vez que os eventos ocorreram a 30 anos atrás, será difícil encontrar evidências e testemunhas.
Contudo, Yok Chhang do Centro de Documentação do Camboja [En] afirmou que existem centenas de milhares de documentos para ligar os acusados a crimes de guerra.
Em adição às evidências documentais, testemunhos de sobreviventes estão sendo coletados, até mesmo em Long Beach, Califórnia [En], onde muitos cambojanos foram viver depois do genocídio.
As vítimas e seus parentes tem o direito de abrir processos através da Unidades [de atendimento] a Vítimas das Câmaras Extraordinárias das Cortes do Camboja. Instruções sobre como abrir um processo são encontradas aqui [En].
quarta-feira, 8 de abril de 2009
UN SUGGESTS ANTI-CORRUPTION MEASURES FOR CAMBODIAN GENOCIDE COURT
A senior United Nations legal official today underscored the need to address allegations of corruption surrounding the genocide tribunal in Cambodia, which has begun the first trial of a suspect accused of crimes committed during the notorious Khmer Rouge “killing fields” regime of the late 1970s.
Assistant-Secretary-General for Legal Affairs Peter Taksoe-Jensen has submitted a provisional ethics monitoring mechanism to Cambodian Deputy Prime Minister Sok An for his consideration, UN spokesperson Michele Montas told the press in New York.
Mr. Taksoe-Jensen has met with Mr. Sok An, who is also chair of the Royal Government Task Force on the Khmer Rouge Trials, several times this week regarding the UN-backed Extraordinary Chambers in the Courts of Cambodia (<"http://www.eccc.gov.kh/
In a statement to the press, Mr. Taksoe-Jensen stressed that for an ethics monitoring system at the ECCC to be credible, the staff should have the freedom to approach the Ethics Monitor of their own choice and put forward complaints without fear of retaliation.
“The United Nations will further strengthen its own anti-corruption mechanism within the Court,” added Mr. Taksoe-Jensen.
The trial of Kaing Guek Eav, also known as “Duch,” got underway last month, when he was charged by the ECCC in Phnom Penh with crimes including torture and premeditated murder while he was in charge of the renowned S-21 detention camp.
The ECCC, established in 2003 under an agreement between the UN and Cambodia, is tasked with trying senior leaders and those most responsible for serious violations of Cambodian and international law committed during the Khmer Rouge rule. It is staffed by a mixture of Cambodian and international employees and judges.
Estimates vary, but as many as two million people are thought to have died during the rule of the Khmer Rouge between 1975 and 1979, which was then followed by a protracted period of civil war in the impoverished South-East Asian country.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Críticos veem politicagem no esforço para limitar julgamentos do Khmer Rouge
Em uma rápida olhada, parece ser só um jogo de números: julgar cinco, dez ou mais réus pelas mortes de aproximadamente 1,7 milhão de pessoas pelas mãos do Khmer Rouge, três décadas atrás.
Porém, enquanto um tribunal respaldado pelas Nações Unidas se prepara para realizar sua primeira audiência de julgamento este mês, a discussão envolvendo esses números está fortalecendo preocupações antigas em relação à justiça e à independência do tribunal.
O governo do Camboja, afirmam os críticos, está tentando limitar o escopo dos julgamentos por suas próprias razões políticas, um limite que, segundo os críticos, comprometeria a justiça e poderia desacreditar todo o processo.
"Para mim, é a credibilidade do tribunal que está em jogo, sua integridade e, portanto, sua credibilidade", afirmou Christophe Peschoux, diretor do escritório em Camboja do Alto Comissariado das Nações Unidas pelos Direitos Humanos.
O primeiro acusado é o homem com talvez o passado mais terrível: Kaing Guek Eav, conhecido como Duch, comandante do local de tortura Tuol Sleng, em Phnom Penh, onde pelo menos 14 mil pessoas foram mortas. Seu julgamento deverá ser aberto com uma audiência processual, marcada para 17 de fevereiro, durante a qual sessões mais sólidas, envolvendo testemunhas e provas, deverão ser agendadas.
Quatro outros acusados, todos membros do Comitê Central Khmer Rouge, também estão sob custódia, esperando sua vez de enfrentar as acusações por crimes ocorridos enquanto eles estavam no topo da hierarquia do comando, de 1975 a 1979. Cerca de um quarto da população cambojana morreu vítima de doenças, fome ou excesso de trabalho, ou foram executadas sob o domínio comunista brutal do Khmer Rouge.
Esses cinco acusados são o suficiente, afirmam oficiais do governo do Camboja.
No entanto, especialistas jurídicos estrangeiros rebatem o argumento, afirmando que, dentro dos limites razoáveis, o processo judicial não deve ser arbitrariamente limitado.
Após uma década de negociações difíceis e nem sempre amigáveis entre as Nações Unidas e os cambojanos, um tribunal híbrido foi estabelecido, composto por co-promotores estrangeiros, cambojanos e um grupo de co-juízes, uma tentativa de equilíbrio político e legal.
Agora, mesmo antes do início do julgamento de Duch, esse equilíbrio está sendo testado.
No mês passado, o co-promotor estrangeiro, um canadense chamado Robert Petit, sugeriu seus outros nomes para a investigação do tribunal, afirmando ter coletado provas suficientes para respaldar possíveis acusações. O equivalente cambojano de Petit, Chea Leang, protestou – não só através de bases legais, mas também por razões que parecem refletir a posição do governo em relação aos julgamentos.
Acusações adicionais, disse a promotora cambojana, podem ser desestabilizadoras. Tais adendos custariam muito dinheiro, durariam muito tempo e violariam o espírito do tribunal que, segundo ela, vislumbra "somente um número pequeno de julgamentos".
O primeiro-ministro Hun Sem, grande negociador frente às Nações Unidas em relação ao formato e ao escopo do tribunal, disse que julgar "quatro ou cinco pessoas" seria suficiente, apesar de não haver nenhum limite formal sobre esse número.
De fato, Peter Maguire, autor de "Facing Death in Cambodia", ("Enfrentando a Morte no Camboja", em tradução livre), sugere que o plano de Hun Sem pode ser julgar somente a Duch – "um criminoso de guerra comum" – e esperar a morte dos outros réus antes de serem julgados.
Os nomes adicionais sugeridos por Petit ainda não foram divulgados. Porém, pessoas próximas do tribunal afirmam que nenhum deles possui uma posição significativa no atual governo do Camboja.
Hun Sem e vários membros mais velhos de seu governo fizeram parte do quadro de oficiais do Khmer Rouge, porém especialistas afirmam que eles não se encaixam no escopo do tribunal e não possuem risco de sofrer acusações.
A ordem do tribunal é processar a alta liderança do Khmer Rouge e "os mais responsáveis" pelos crimes – isto é, gente como Duch, acusado de supervisionar a tortura e matar milhares de pessoas.
No entanto, no Camboja, os tribunais não caminham em suas próprias direções sem o estrito controle de Hun Sem ou de seus assessores. Alguns defensores do tribunal, chamados de Câmaras Extraordinárias dos Tribunais de Camboja, ou ECCC em inglês, o veem como desafiador do controle político exercido de cima para baixo no país, ao oferecer ao Camboja um modelo de um judiciário mais independente.
"Algumas pessoas em Phnom Penh aparentemente estão desesperadas pelo fato de que a ECCC pode, de fato, ter sucesso. Isso pode servir como um exemplo de responsabilidade, capaz de ser aplicado de forma mais ampla", disse James A. Goldston, diretor executivo da Open Society Justice Initiative, uma organização sediada em Nova York que busca a reforma das leis.
"Com a proximidade do início primeiro julgamento, no dia 17, este é o momento de mostrar que o tribunal não é uma ferramenta para o governo cambojano", ele disse. "A credibilidade do tribunal está em jogo".
A maioria dos cambojanos está ansiosa para ver os líderes do Khmer Rouge sendo julgados, de acordo com uma pesquisa publicada pelo Centro de Direitos Humanos da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
No entanto, as pesquisas de opinião descobriram que cerca de um terço dos respondentes tinha dúvidas em relação à neutralidade e à independência do tribunal, talvez devido à experiência dos entrevistados com seu próprio judiciário corrupto e politicamente manipulado.
A confiança no tribunal também tem sido prejudicada por alegações de corrupção política, familiar ao sistema de tribunais cambojano.
As alegações deixaram as Nações Unidas diante da embaraçosa escolha de investigar seus próprios investigadores e juízes, ou arriscar serem vistos como tolerantes da corrupção.
Agora, com a disputa entre os dois co-promotores em aberto tornada pública, a separação dos poderes no tribunal híbrido irá enfrentar seu primeiro grande teste.
A disputa deve agora se dirigir a um painel de juízes conhecido como câmara anterior ao julgamento, cuja formação reflete a estrutura majoritária do tribunal – três juízes cambojanos e dois estrangeiros. Um dos juízes estrangeiros da câmara anterior ao julgamento deve se juntar aos cambojanos, em uma maioria de quatro votos, para que uma decisão prevaleça. Se o painel acaba em um impasse de três contra dois, segundo regras do tribunal, o julgamento deve continuar.
Porém, observadores do tribunal disseram que ainda teremos de esperar para ver o quão cooperativa será a equipe cambojana, caso o governo não queira ver esses casos seguirem adiante.
Até o momento, não existe nada sugerindo que esse processo não andará como deveria, disse David J. Scheffer, professor de direitos humanos da Northwestern University School of Law, participante das negociações para a criação do tribunal.
O verdadeiro teste, disse Scheffer em recente artigo publicado no jornal The Phnom Penh Post, será se os juízes da câmara anterior ao julgamento "enfrentarão a situação e cumprirão sua obrigação com o mais alto nível de integridade judiciária".
"Quando a decisão for divulgada, todos nós poderemos avaliar a situação", concluiu.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Cambojanos reagem com dor e alívio a julgamento de torturador
PHNOM PENH - Sobreviventes das atrocidades do Khmer Vermelho reagiram com dor, ódio e alívio na terça-feira ao verem no banco dos réus o principal torturador daquele regime comunista do Camboja, derrubado há 30 anos depois de ter matado até 1,7 milhão de pessoas.
Quase 800 pessoas, inclusive alguns monges budistas perseguidos durante o Khmer Vermelho (1975-79) assistiram ao primeiro julgamento formal de um membro do regime por um tribunal com apoio da ONU.
"Quando vejo (o réu) Duch, minha raiva volta", disse à Reuters Phok Khan, 56 anos, durante uma pausa no julgamento, nos arredores da capital, Phnom Penh.
Duch, conhecido também como Kaing Guek Eav, admite ter cometido atrocidades na S-21, uma antiga escola que virou campo de concentração na época do regime. Ali, cerca de 14 mil "inimigos da revolução" foram torturados antes de serem agredidos até a morte nos campos de extermínio próximos à cidade.
Vann Nath, hoje com 63 anos, estava entre os poucos sobreviventes. Esse artista de cabelos brancos foi duramente agredido por guardas na S-21, mas fugiu da morte graças ao seu talento para pintar retratos do ditador Pol Pot. Ao ver o julgamento do seu ex-torturador, disse se sentir tomado por sensações ambíguas.
"Este é o dia pelo qual esperamos 30 anos. Mas não sei se acabará o meu sofrimento", afirmou a jornalistas.
Duch sentou-se impassivelmente no tribunal, que tem paredes revestidas de madeira. Vestia camisa azul de manga comprida e tomava água. Eventualmente, colocava os óculos de leitura - algo irônico, já que o Khmer Vermelho perseguia pessoas que usavam óculos, por considerá-las como parte de uma elite intelectual inimiga da revolução.
Duch, hoje convertido ao Cristanismo, confessou seus crimes, mas diz que apenas cumpria ordens. O ex-professor francófono não se pronunciou na terça-feira ao tribunal, cuja sessão é transmitida pela TV.
Em frente ao plenário, protegido por vidros, centenas de cambojanos sentaram-se nas galerias, alguns se esforçando para acompanhar a audiência por fones de ouvido. Houve discussões sobre questões regimentais, envolvendo advogados estrangeiros e cambojanos.
Them Khean disse ter viajado 240 quilômetros da província de Kompong Thom, onde nasceram Duch e Pol Pot. "Quero ver o que Duch tem a dizer sobre seus crimes do passado", disse Khean, 65 anos, que perdeu dez parentes devido à fome e à tortura.
Va Boeurn, 66 anos, disse que queria ver o rosto de Duch para tentar entender como um humano poderia cometer atos tão hediondos.
"Como é o rosto dele? Por que era tão brutal", perguntou Boeurn, que perdeu sete parentes durante a tentativa de Pol Pot de criar uma utópica sociedade agrária.
A maioria dos cambojanos perdeu parentes durante os quatro anos desse regime que submetia a população a longas jornadas de trabalho, fome e perseguições. A ditadura foi deposta pelo Vietnã em 1979, e Pol Pot morreu em 1998, impune, na fronteira com a Tailândia.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Cambodia: Justice In Sight for Khmer Rouge Victims
- by Marwaan Macan-Markar (Bangkok)
- Thursday, February 12, 2009
- Inter Press Service
An experiment in international justice finally gets under way on Feb. 17 when a war crimes tribunal begins in Cambodia to prosecute the notorious jailer of the genocidal Khmer Rouge regime.
The presence of Kaing Khek Eav, or Duch, at the official opening of the Extraordinary Chambers in the Courts of Cambodia (ECCC) marks the end of a 30 year wait by Cambodians who survived the brutality of the Khmer Rouge, which held the South-east Asian country under its grip from Apr. 17, 1975 to Jan. 16, 1979.
Duch was the chief jailer of Tuol Sleng, or S-21-, as it was known by the extremist Maoist group. Only seven people came out alive from S-21, a high school in the Cambodian capital Phnom Penh that was turned into a prison to interrogate any civilian, including children, who were considered enemies of the Khmer Rouge.
Between 12,380 to 14,000 people imprisoned in Tuol Sleng were tortured and killed.
Duch and S-21 have come to symbolise the scale of war crimes committed during the Khmer Rouge period, when close to 1.7 million people, or nearly a quarter of that country’s population at the time, were either executed or died due to forced labour or from starvation.
Duch has been charged with crimes against humanity, war crimes and committing murder and torture under Cambodian law by the investigating judges of the Phnom Penh-based ECCC, which is a mixed tribunal, involving local and international judges, and is located within the Cambodian justice system.
Four more senior and influential leaders of the genocidal regime have also been arrested and charged for committing similar crimes as Duch. They include Nuon Chea, who was the second-in-command to Khmer Rouge leader Pol Pot and known as ‘’Brother Number Two’’ within the Khmer Rouge hierarchy.
The others are Ieng Sary, deputy prime minister and foreign minister of Pol Pot’s regime, Ieng Thirith, minister of social affairs, and Khieu Samphan, the president of Democratic Kampuchea, as the country was known during the Khmer Rouge years.
‘’This case is an experiment in the courts of international justice because it is a hybrid,’’ says Heather Ryan, a tribunal monitor with the Open Society Justice Initiative. ‘’No court has had this level of domestic participation.’’
‘’A lot of people looking for international justice will be looking to see if this court succeeds,’’ added the Phnom Penh-based Ryan during a discussion of the tribunal at the Bangkok-based Foreign Correspondents’ Club of Thailand. ‘’We are hoping that this trial will help bring Cambodia’s system of justice up (to international standards).’’
This hybrid court was created after years of tough and trying negotiations between the United Nations and the Cambodian government. It marked a departure from international tribunals investigating war crimes such as the one looking into human rights violations committed during the war in former Yugoslavia, which was held in The Hague, with only international jurists and lawyers given a part.
‘’The mixed tribunal model is seen as a way to provide full national participation and involvement in the trials while at the same time ensuring international standards and participation,’’ states the public affairs section of the ECCC. ‘’There are Cambodian judges and foreign judges, Cambodian prosecutors and defence lawyers and foreign prosecutors and defence lawyers.’’
In addition, the special tribunal will also throw its doors open for Cambodian victims of the Khmer Rouge oppression to be parties to the legal proceedings. Victims who ‘’suffered physical, psychological and material harm’’ qualify to be part of this unprecedented move in international law as complainants or as civil parties.
‘’The goal of civil party participation is to allow victims to present their views and contribute to the proceedings with the aim of making the court more meaningful to the population and to promote healing and rehabilitation,’’ states an ECCC background note.
‘’Unlike domestic Cambodian law, where civil parties are entitled to apply for monetary compensation or reparations, the ECCC Internal Rules provide that civil parties are entitled to ‘moral or symbolic’ reparations only,'' the note states.
The ECCC’s investigating judges have already accepted 28 civil parties for Duch’s trial, while a further 66 applications are pending. The trial court is due to rule on how many more will be permitted when the initial hearings get underway on Feb. 17.
‘’The initial hearings will be for one or two days. The substantive hearings will be in mid- to end-March,’’ says William Smith, the ECCC’s international deputy co-prosecutor. ‘’Sixty witnesses will appear in the case for the defence and the prosecution.’’
‘’What makes Duch interesting is not what he did during the Khmer Rouge, but what he did since,’’ says Richard Rogers, ECCC’s officer-in-charge of the defence support section. ‘’The fact that Duch has confessed and showed remorse makes him very, very unique.’’
‘’He has made a personal transition that is compelling,’’ adds Rogers. ‘’What is the appropriate sentence for a man such as Duch?’’
Such a transformation, nor admission of guilt for the war crimes committed, is far from the case for the other four Khmer Rouge leaders who are awaiting trial. They have denied the atrocities committed during their years in power.
Similar denial has marked out men like Sou Met and Meah Muth, who were members of the Khmer Rouge military hierarchy but not holding any senior ranks at the time. Today, both are senior officers in the Cambodian army.
But three figures who personified the scale of evil during that dark period of Cambodia’s history will not be going before the courts. The one-legged Ta Mok, known as ‘The Butcher’, and who purged Cambodian cities of their inhabitants, died in July 2006.
Also on that list is Pol Pot, the leader of the extremist movement who was bent on wiping out the country’s culture and its past in his single-minded drive to create an agrarian utopia. He died in 1998.
© Inter Press Service
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Críticos veem politicagem no esforço para limitar julgamentos do Khmer Rouge
Acusados de matar mais de 1,7 milhão começam a ser julgados dia 17.

Chan Kimsrun e seu filho, vítimas do Khmer Rouge na brutal prisão de Tuol Sleng prison, na capital Phnom Penh, em foto de 1978. (Foto: The New York Times)
Em uma rápida olhada, parece ser só um jogo de números: julgar cinco, dez ou mais réus pelas mortes de aproximadamente 1,7 milhão de pessoas pelas mãos do Khmer Rouge, três décadas atrás.
Porém, enquanto um tribunal respaldado pelas Nações Unidas se prepara para realizar sua primeira audiência de julgamento este mês, a discussão envolvendo esses números está fortalecendo preocupações antigas em relação à justiça e à independência do tribunal.
O governo do Camboja, afirmam os críticos, está tentando limitar o escopo dos julgamentos por suas próprias razões políticas, um limite que, segundo os críticos, comprometeria a justiça e poderia desacreditar todo o processo.
"Para mim, é a credibilidade do tribunal que está em jogo, sua integridade e, portanto, sua credibilidade", afirmou Christophe Peschoux, diretor do escritório em Camboja do Alto Comissariado das Nações Unidas pelos Direitos Humanos.
O primeiro acusado é o homem com talvez o passado mais terrível: Kaing Guek Eav, conhecido como Duch, comandante do local de tortura Tuol Sleng, em Phnom Penh, onde pelo menos 14 mil pessoas foram mortas. Seu julgamento deverá ser aberto com uma audiência processual, marcada para 17 de fevereiro, durante a qual sessões mais sólidas, envolvendo testemunhas e provas, deverão ser agendadas.
Quatro outros acusados, todos membros do Comitê Central Khmer Rouge, também estão sob custódia, esperando sua vez de enfrentar as acusações por crimes ocorridos enquanto eles estavam no topo da hierarquia do comando, de 1975 a 1979. Cerca de um quarto da população cambojana morreu vítima de doenças, fome ou excesso de trabalho, ou foram executadas sob o domínio comunista brutal do Khmer Rouge.
Esses cinco acusados são o suficiente, afirmam oficiais do governo do Camboja.
No entanto, especialistas jurídicos estrangeiros rebatem o argumento, afirmando que, dentro dos limites razoáveis, o processo judicial não deve ser arbitrariamente limitado.
Após uma década de negociações difíceis e nem sempre amigáveis entre as Nações Unidas e os cambojanos, um tribunal híbrido foi estabelecido, composto por co-promotores estrangeiros, cambojanos e um grupo de co-juízes, uma tentativa de equilíbrio político e legal.
Agora, mesmo antes do início do julgamento de Duch, esse equilíbrio está sendo testado.
No mês passado, o co-promotor estrangeiro, um canadense chamado Robert Petit, sugeriu seus outros nomes para a investigação do tribunal, afirmando ter coletado provas suficientes para respaldar possíveis acusações. O equivalente cambojano de Petit, Chea Leang, protestou – não só através de bases legais, mas também por razões que parecem refletir a posição do governo em relação aos julgamentos.
Acusações adicionais, disse a promotora cambojana, podem ser desestabilizadoras. Tais adendos custariam muito dinheiro, durariam muito tempo e violariam o espírito do tribunal que, segundo ela, vislumbra "somente um número pequeno de julgamentos".
O primeiro-ministro Hun Sem, grande negociador frente às Nações Unidas em relação ao formato e ao escopo do tribunal, disse que julgar "quatro ou cinco pessoas" seria suficiente, apesar de não haver nenhum limite formal sobre esse número.
De fato, Peter Maguire, autor de "Facing Death in Cambodia", ("Enfrentando a Morte no Camboja", em tradução livre), sugere que o plano de Hun Sem pode ser julgar somente a Duch – "um criminoso de guerra comum" – e esperar a morte dos outros réus antes de serem julgados.
Os nomes adicionais sugeridos por Petit ainda não foram divulgados. Porém, pessoas próximas do tribunal afirmam que nenhum deles possui uma posição significativa no atual governo do Camboja.
Hun Sem e vários membros mais velhos de seu governo fizeram parte do quadro de oficiais do Khmer Rouge, porém especialistas afirmam que eles não se encaixam no escopo do tribunal e não possuem risco de sofrer acusações.
A ordem do tribunal é processar a alta liderança do Khmer Rouge e "os mais responsáveis" pelos crimes – isto é, gente como Duch, acusado de supervisionar a tortura e matar milhares de pessoas.
No entanto, no Camboja, os tribunais não caminham em suas próprias direções sem o estrito controle de Hun Sem ou de seus assessores. Alguns defensores do tribunal, chamados de Câmaras Extraordinárias dos Tribunais de Camboja, ou ECCC em inglês, o veem como desafiador do controle político exercido de cima para baixo no país, ao oferecer ao Camboja um modelo de um judiciário mais independente.
"Algumas pessoas em Phnom Penh aparentemente estão desesperadas pelo fato de que a ECCC pode, de fato, ter sucesso. Isso pode servir como um exemplo de responsabilidade, capaz de ser aplicado de forma mais ampla", disse James A. Goldston, diretor executivo da Open Society Justice Initiative, uma organização sediada em Nova York que busca a reforma das leis.
"Com a proximidade do início primeiro julgamento, no dia 17, este é o momento de mostrar que o tribunal não é uma ferramenta para o governo cambojano", ele disse. "A credibilidade do tribunal está em jogo".
A maioria dos cambojanos está ansiosa para ver os líderes do Khmer Rouge sendo julgados, de acordo com uma pesquisa publicada pelo Centro de Direitos Humanos da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
No entanto, as pesquisas de opinião descobriram que cerca de um terço dos respondentes tinha dúvidas em relação à neutralidade e à independência do tribunal, talvez devido à experiência dos entrevistados com seu próprio judiciário corrupto e politicamente manipulado.
A confiança no tribunal também tem sido prejudicada por alegações de corrupção política, familiar ao sistema de tribunais cambojano.
As alegações deixaram as Nações Unidas diante da embaraçosa escolha de investigar seus próprios investigadores e juízes, ou arriscar serem vistos como tolerantes da corrupção.
Agora, com a disputa entre os dois co-promotores em aberto tornada pública, a separação dos poderes no tribunal híbrido irá enfrentar seu primeiro grande teste.
A disputa deve agora se dirigir a um painel de juízes conhecido como câmara anterior ao julgamento, cuja formação reflete a estrutura majoritária do tribunal – três juízes cambojanos e dois estrangeiros. Um dos juízes estrangeiros da câmara anterior ao julgamento deve se juntar aos cambojanos, em uma maioria de quatro votos, para que uma decisão prevaleça. Se o painel acaba em um impasse de três contra dois, segundo regras do tribunal, o julgamento deve continuar.
Porém, observadores do tribunal disseram que ainda teremos de esperar para ver o quão cooperativa será a equipe cambojana, caso o governo não queira ver esses casos seguirem adiante.
Até o momento, não existe nada sugerindo que esse processo não andará como deveria, disse David J. Scheffer, professor de direitos humanos da Northwestern University School of Law, participante das negociações para a criação do tribunal.
O verdadeiro teste, disse Scheffer em recente artigo publicado no jornal The Phnom Penh Post, será se os juízes da câmara anterior ao julgamento "enfrentarão a situação e cumprirão sua obrigação com o mais alto nível de integridade judiciária".
"Quando a decisão for divulgada, todos nós poderemos avaliar a situação", concluiu.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Acusado de torturar sob o Khmer Vermelho vai a julgamento no Camboja
O tribunal que cuida das causas das matanças cometidas pelo regime do Khmer Vermelho no Camboja (1975-1979) ordenou nesta terça-feira (12) o julgamento do ex-suposto torturador Kaing Guek Eav, o "Duch", por crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
Cerca de 16 mil homens, mulheres e crianças transitaram no centro de detenção S-21, sob sua responsabilidade e onde foram submetidos a torturas atrozes antes de serem executados pelo regima ultracomunista do lider khmer vermelho Pol Pot, falecido em 1998.
"Duch", de 65 anos, foi preso em 1999 e transferido em julho de 2007 para o tribunal da ONU, fazendo parte de um grupo de cinco dirigentes do Khmer Vermelho presos por genocídio.
Cerca de dois milhões de pessoas morreram sob esse regime.





