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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Agricultura em tempos de crise

Antônio Márcio Buainain é professor assistente doutor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp e pesquisador sênior do Núcleo de Economia Agrícola e Meio Ambiente (NEA)/IE/Unicamp.
03/04/2009

Antonio Márcio Buainain

A crise parece ignorar os pacotes bilionários anunciados mundo afora pelos governantes. Enquanto as bolsas flutuam ao sabor das notícias de cada dia, as estatísticas mostram assustadora progressão do nível de desemprego, forte retração da produção industrial, quedas nas vendas de veículos e do próprio comércio mundial. O mundo, que até outro dia era plano, na imagem de Thomas Friedman sobre a nova economia, está agora encolhendo como sempre aconteceu na velha e boa economia de mercado. A extensão da crise ao agronegócio brasileiro colocaria lenha em uma fogueira que pode assar mais do que as batatas doces e milhos verdes das festas juninas. Neste contexto, cabe uma reflexão sobre os possíveis impactos da crise, assim como sobre a política para os tempos de crise.

Quando se projeta o futuro mais longínquo o cenário é promissor: a demanda por alimentos continuará crescendo junto com a população mundial e o Brasil dispõe de terras e base tecnológica para atender a essa demanda. O problema é que entre este futuro promissor e o presente interpõem-se o curto e médio prazos, cheios de incertezas e pelo menos algumas dificuldades colocadas pela crise atual.

Nenhum cenário imediato é favorável. Embora o agronegócio brasileiro seja um global trader, a economia de muitos países importadores está sendo duramente abalada pela crise e os preços das commodities agrícolas - inflados no passado recente pelo forte crescimento e pela especulação - estão em queda e deverão permanecer abaixo dos níveis pré-crise por algum tempo. A concorrência internacional deverá se acirrar, em particular nos segmentos nos quais os países desenvolvidos são grandes produtores e exportadores.

A crise acentua todas as conhecidas deficiências estruturais do setor e o gap entre demandas dos produtores e propostas do governo é grande. A questão é saber se o agronegócio brasileiro, que tem inegáveis vantagens no longo prazo, está em condições de enfrentar este cenário negativo imediato. A desvalorização do real ajuda a compensar a queda de preços, mas não sustenta a competitividade de nenhum segmento em uma economia aberta.

Uma política agrícola anticrise deveria levar em conta que a crise tem um lado destruidor e purgativo, como dizia Marx, mas que também gera oportunidades para a emergência do novo, para a recriação do velho em bases mais saudáveis, para o conserto de erros e a correção de rumos. Uma política anticrise só funcionará como ponte entre o presente e o futuro promissor se for capaz de proteger os ativos construídos no passado e que são estratégicos para conquistar o futuro. No legítimo jogo das pressões que definem as políticas, corre-se sempre o risco de preservar o velho e dispensável, sem evitar os piores efeitos da crise e nem lançar as bases para o futuro, e por isto é preciso focar nos ativos estratégicos que assegurem a sobrevivência imediata e as condições de competitividade no período pós-crise.

O principal ativo do agronegócio brasileiro, base da competitividade revelada ao longo da última década na qual o país assumiu posição de liderança mundial, foi a construção de cadeias produtivas complexas, com ramificações que começam na produção de commodities e se estendem à geração de tecnologia, redes privadas de financiamento e logística, industrialização, inovação de produtos e comercialização final. Algumas são mais coordenadas e integradas, como a da avicultura, suinocultura, tabaco, suco de laranja ou sucroalcooleiro; outras menos articuladas, como a do café, fruticultura irrigada, floricultura, carne bovina, cacau e grãos, mas ainda assim a força e/ou debilidade do vendedor final se assenta em todos os demais elos.

Embora todas compartilhem problemas comuns, a rigor não se pode falar de uma agricultura, ou de um agronegócio. São vários, com dinâmicas próprias, problemas específicos e dimensões regionais bem marcadas. Portanto, o que está em jogo é a preservação da competitividade das cadeias e clusters produtivas do agronegócio, que se assenta em pesados investimentos feitos no passado - em infraestrutura física, máquinas, know-how da produção e do mercado, logística, capacidade de gestão, instituições - e se traduz em market shares duramente conquistados, apesar das conhecidas ineficiências sistêmicas e do Custo Brasil elevado.

A crise pode debilitar, ou mesmo destruir, cadeias que demandam tempo para amadurecer. A inserção em novos e promissores mercados, como o de frutas e flores, ainda incipiente, é um exemplo. A perda dos canais de comercialização nos EUA e na UE acarretaria custos elevados. A desestabilização da cadeia da carne, caso não se contenha a crise financeira dos frigoríficos, não se resolve com a ocupação do espaço pelos sobreviventes, pois isto aumentaria ainda mais a insegurança para os produtores derivada da já acentuada assimetria de poder de mercado.

O Brasil tem hoje uma das mais completas e sofisticadas políticas agrícolas dentre os países de renda média, que atua no plano do setor e não na articulação e coordenação das cadeias, considerados esferas de regulação privada. É um equívoco. Sem voltar ao IBC ou IAA do passado, é preciso identificar gargalos, fragilidades e potencialidades em cada cadeia, e atuar politicamente para superá-los e fortalecê-los. Como se faz na indústria. Os recursos para assegurar liquidez presente deveriam ser canalizados para finalidades estratégicas, como por exemplo, a erradicação de cafezais decadentes e de baixa qualidade, a recuperação de pastos degradados e a melhoria genética do rebanho - ambos redutores da pressão ambiental -, que fortaleceriam essas cadeias para competir na crise e na pós-crise.

Sem o fortalecimento dos mecanismos de financiamento e estabilização da renda da atual política, e sem focar nas cadeias, é muito provável que o agronegócio brasileiro contribua para agravar a crise e não para aliviá-la, como ocorreu no passado.

E-mail: buainain@eco.unicam

terça-feira, 5 de maio de 2009

América Latina - Região pode ter o primeiro retrocesso econômico após seis anos de crescimento

Região deve sentir efeitos negativos da crise em 2009

Adital - Em 2009, a economia da América Latina e do Caribe pode sofrer seu primeiro retrocesso após seis anos de crescimento. Os efeitos da crise internacional serão sentidos fortemente este ano na região. Esses prognósticos foram anunciados pela secretária-executiva da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Alicia Bárcena, durante o Fórum de Economias Emergentes da América Latina, que começou ontem (1º) em Bogotá, Colômbia. Segundo a Cepal, a economia da região deve sofrer uma redução de 0,3% em 2009. A taxa de desemprego regional aumentaria a níveis próximos aos 9%, após ter se situado em 7,5% em 2008, o que corresponderia a uma alta da pobreza. Os países mais afetados seriam México (-2,0% de crescimento), Brasil (-1,0%), Costa Rica (-0,5%) e Paraguai (-0,5%). Panamá, Peru, Cuba e Bolívia manteriam um crescimento positivo igual ou superior a 3%. Já o Equador e o Chile, registrariam aumento nulo em seu Produto Interno Bruto.

Entre os efeitos negativos, a Cepal destaca a desaceleração do comércio internacional, queda dos preços dos bens primários, forte diminuição das exportações, redução das remessas, menores rendas provenientes do turismo e diminuição dos fluxos de investimento estrangeiro direto. De acordo com a Comissão, tudo isso deve ocorrer em um cenário de crescente incerteza em âmbito regional e global, afetando as expectativas do setor privado, com consequências negativas sobre o investimento e o consumo.

A secretária-executiva da Cepal alertou ainda que a diminuição da disponibilidade de financiamento internacional e o aumento dos prêmios de risco da dívida soberana latino-americana também acarretarão consequências para a região. No entanto, Alicia frisou que as economias regionais estão tendo solidez para enfrentar os impactos, aproveitando as reservas acumuladas em anos anteriores.

A Cepal considera que a atual conjuntura provoca a necessidade de implementar políticas contracíclicas, ao mesmo tempo em que as autoridades econômicas têm a sua frente um panorama de falta de espaço macroeconômico para implementar medidas. Alicia Bárcena ressaltou que a crise pode converter-se em uma oportunidade para redefinir os paradigmas do desenvolvimento econômico dominantes.

Algumas das medidas citadas pela Cepal que têm como finalidade reduzir os impactos negativos são: evitar o protecionismo; preservar a capacidade de manter o gasto social, especialmente para aumentar o capital humano; concentrar o investimento em infraestrututa produtiva e social.

Um relatório contendo as medidas adotadas pelos governos da região frente à crise está sendo constantemente atualizado pela Cepal. O documento abrange as seguintes áreas: política fiscal, política monetária, políticas cambiais e comerciais, políticas setoriais, políticas trabalhistas e sociais.

O resumo pode ser acessado em:
http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/9/35349/2009-121-Rev.2-Lareacciondelosgobiernos-27FEBRERO-WEB.pdf

terça-feira, 17 de março de 2009

Amorim: Rodada Doha pode ajudar durante a crise

NOVA YORK - A Rodada Doha de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) será benéfica para as medidas anticíclicas dos países durante o período de crise, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em palestra, em Nova York, o ministro ponderou que a rodada não é o mesmo que livre comércio. "Apenas visa eliminar as maiores distorções que existem no comércio internacional, como os subsídios agrícolas", acrescentou para a plateia composta por investidores, executivos e membros do governo. "Não vejo contradição na necessidade de criar empregos e a necessidade de retirar os subsídios", completou.



Amorim reconhece que há "dificuldades" para a conclusão da Rodada Doha, mas disse que o "acordo é mais difícil também no momento em que é mais necessário". "Se nos deixarmos levar pelo protecionismo todos sairemos perdendo", afirmou, reiterando a metáfora "o comércio é como uma bicicleta: ou ele vai para frente ou ele cai".



Amorim disse que foi a "globalização da política externa brasileira que atuou como um dos colchões para ajudar o País a enfrentar a crise". "Hoje dispomos de um leque maior de parceiros em várias partes do mundo, o que faz com que o impacto (da crise) seja menor", afirmou.



Assim como o comércio, Amorim acrescentou que a paz não é um "bem que se tem de graça". "Paga-se pela paz em programas de desenvolvimento comum e integração que ajude os seus vizinhos", ponderou. Ele citou a integração na América do Sul como um dos passos ajudando a consolidar a democracia na região e "moderar até alguns ímpetos radicais". O ministro avaliou que o "Mercosul tem sido o motor da união interamericana".



O ministro disse ainda que vê necessidade de uma nova governança global. No comércio mundial, quando se falava dos quatro principais países, os citados eram EUA, UE, Canadá e Japão. Agora, quando se "falar em quatro serão EUA, UE, Brasil e Índia", o que indica mudança, ponderou.



Amorim avalia que os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), que vieram de um conceito de Wall Street, agora começam a "ser realidade". "O Brasil está tendo estas realidades, mas não significa que temos de deixar de lado os países desenvolvidos".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

ONU denuncia que dinheiro da droga salvou vários bancos da crise

Viena, 26 jan (EFE).- Em um mercado financeiro em crise e carente de liquidez o narcotráfico serviu para resgatar alguns bancos do colapso ao atuar como fonte de capital líquido, afirma o diretor do Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC), o italiano Antonio Maria Costa.

Em entrevista publicada hoje pelo semanário austríaco "Profil", Costa afirma que o dinheiro da droga se introduz no circuito da economia legal até tal ponto que "há indícios de que alguns bancos se salvaram desta forma" do colapso provocado pela crise financeira mundial.
Embora reconheça que é difícil provar isto e não menciona nome de instituições, o italiano denuncia que alguns empréstimos interbancários foram financiados com dinheiro procedente do tráfico de drogas e de outras atividades ilegais.

A UNODC, com sede em Viena, conta com um programa próprio contra a lavagem de dinheiro.
Segundo Costa, hoje em dia o dinheiro proveniente do narcotráfico é "o único capital líquido de investimento disponível" para, por exemplo, adquirir propriedades imobiliárias.
O alto diplomata da ONU lembra que no segundo semestre de 2008 a falta de liquidez foi o principal problema do sistema financeiro mundial, o que transformou o capital líquido em um fator muito importante.