domingo, 3 de maio de 2009
domingo, 19 de abril de 2009
Cientistas chineses fazem clonagem manual de porcos
São Paulo
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Os cientistas chineses clonaram oito leitões através de um método simplificado, comparado com a clonagem tradicional.
Os leitões nasceram em 30 de agosto por clonagem manual, uma alternativa à operação convencional, que requer de uma equipe de alto custo, disse o cientista do Instituto da Genomía de Beijing (BGI, sigla em inglês) em Shenzhen, Yang Huanming, que desenvolveu a tecnologia para a clonagem manual, durante uma entrevista coletiva.
A clonagem manual, que reduz os gastos e aumenta a eficiência, necessita somente de uma navalha de metal e mãos hábeis.
Yang, também um acadêmico da Academia Chinesa de Ciências, disse que os leitões poderão se reproduzir de forma natural.
Especialistas do BGI praticaram a clonagem manual com cientistas dinamarqueses em 2006. Os especialistas chineses trouxeram a tecnologia em 2007 e atingiram o êxito depois de um ano de esforços.
A clonagem de porcos poderia oferecer órgãos para transplante humano e também é uma forma importante para conservação e melhoria de espécies raras, afirmou.
Agência Xinhua
segunda-feira, 6 de abril de 2009
A Santa Sé se pronuncia contra a clonagem humana e contra a clonagem terapêutica através das células-tronco de embriões
Orlando Fedeli
Foi publicada no site do Vaticano, pela Secretaria de Estado, uma NOTA entregue a todos os embaixadores creditados junto à Santa Sé, para que a remetessem a seus respectivos governos, tratando do problema da utilização de células-tronco de embriões para clonagem reprodutiva ou terapêutica.
Nessa NOTA, fundamentada em farta documentação científica, a Santa Sé, depois de reconhecer que a Igreja não se opõe às pesquisas científicas, afirma que não só a clonagem reprodutiva é algo extremamente condenável – como é geralmente admitido pelos cientistas – mas que também a clonagem terapêutica, usando células-tronco de embriões, é mais condenável ainda, pois transforma seres humanos em meros fornecedores de órgãos de reposição.
Essa NOTA da Santa Sé exprime sua proposta à ONU – e que, agora, já foi apresentada na Assembléia Geral das Nações Unidas – para que seja proibida, em todos os países, a utilização de células-tronco retiradas de embriões, especialmente para fins terapêuticos.
A Santa Se argumenta que:
1) É imoral usar seres humanos – tirando-lhes a vida – para curar outros seres humanos;
2) Tem-se cientificamente comprovado que o uso de células-tronco de adultos é eficaz, e que elimina problemas de rejeição, quando se utilizam células-tronco da medula do indivíduo a ser curado;
3) Não há nenhuma prova científica de que a utilização das células-tronco de embriões seja eficaz;
4) Há grave risco de que a utilização de células-tronco embrionárias possa ser causadora de câncer, assim como de outros problemas patológicos.
Contra a proposta da Santa Sé à ONU, foi feita outra proposta pelo governo da Bélgica, defendendo exatamente a clonagem para fins terapêuticos.
No Brasil, se fez um grande estardalhaço propagandístico na Mídia e no Congresso em favor da aprovação da chamada Lei dos Transgênicos, na qual estava escondida, sob a questão da soja, como por contrabando, a aprovação da utilização de células-tronco embrionárias. No fundo, era uma forma velada de introduzir um princípio do qual decorreria o direito ao aborto na legislação nacional. Graças a Deus, e ao Manifesto divulgado pela Montfort, que já conta com quase 150.000 assinaturas (até esta data) contra o uso de células-tronco embrionárias, o projeto de lei i anda não foi aprovado.
Estranhamos que a Mídia, que anuncia até que um papagaio engoliu uma moedinha, e que noticia com alarde que as células-tronco embrionárias são, comprovadamente, uma panacéia, não tenha dito uma só palavra sobre essa NOTA da Santa Sé – NOTA PUBLICADA NO SITE DO VATICANO – portanto, algo de conhecimento público.
Esse silêncio da Mídia sobre o Documento emanado da Santa Sé foi tão perfeito que até mesmo autoridades católicas eminentes desconheciam a Nota da Santa Sé que já foi apresentada na ONU.
O site Montfort, então, colocando-se a serviço da Santa Sé, tem a honra de publicar, em primeira mão, a NOTA contra o uso de células tronco embrionárias, mesmo para fins terapêuticos.
Considerando, em primeiro lugar, a autoridade da Sé Apostólica, e, em seguida, a cabal fundamentação científica da NOTA citada, temos certeza de que ela esclarecerá o debate em torno do uso de células-tronco embrionárias, levando enfim os senhores congressistas brasileiros a não aprovarem aquilo que é contra a Lei de Deus, contra a Constituição Brasileira – a qual garante o direito à vida humana desde a sua concepção –, contra, enfim, os tão propalados direitos humanos.
São Paulo, 29 de Outubro de 2.004
Orlando Fedeli
Presidente da Associação Cultural Montfort.
Leia a Nota na íntegra: Documento da Santa Sé sobre a clonagem humana - O Vaticano
sexta-feira, 13 de março de 2009
A MORALIDADE DA CLONAGEM[1]
Fermin Roland Schramm[2]
Por “moralidade da clonagem” entendo o conjunto de argumentos morais pró e contra a utilização da tecnologia clonagem com fins reprodutivos e/ou terapêuticos, ou seja, consistentes em produzir seres vivos, ou partes de seres vivos (por exemplo, órgãos e tecidos), a princípio iguais ao original do ponto de vista de alguma característica considerada essencial, ou de todas.
Uma primeira pergunta, espontânea, que surge frente a essa nova forma de reprodução e terapêutica, consiste em perguntar se o ser humano teria o direito de interferir nos processos naturais da vida ou – para utilizar a linguagem religiosa - nos desígnios divinos?
Alguns respondem que sim, outros que não. Quem responde sim o faz, via de regra, tendo em conta os possíveis benefícios para a saúde humana: seja porque permitiria a reprodução em casais que não podem recorrer, satisfatoriamente, a outros meios, seja porque a clonagem permitiria ter uma reserva de partes do corpo sadias capazes de substituir as partes doentes. Esta resposta é intuitivamente correta do ponto de vista moral, pois se baseia num benefício em prol do bem-estar humano.
Outros respondem negativamente, argumentando que os riscos, de vários tipos, seriam muito mais importantes dos benefícios potenciais, razão pela qual a clonagem deveria ser banida. Mas, respondendo assim, deveriam então responder a questão seguinte: se o Homem não pudesse interferir nos processos naturais, na realidade não haveria praticamente nenhum tipo de ciência e tampouco a Medicina. Efetivamente, o que a Medicina faz é interferir em processos naturais que não são considerados bons, ou seja, nas doenças, e ninguém pode razoavelmente contestar que a medicina é a princípio algo bom, a não ser que se acredite em alguma forma de fatalismo, o que seria completamente contrário ao imaginário contemporâneo da maioria das pessoas, que valoriza positivamente a saúde e o bem-estar humanos.
Como sanitarista e bioeticista preocupado menos com o valor da vida em si, mas com o valor da vida enquanto condição para obter bens que considero moralmente legítimos, isto é, com a qualidade de vida e os meios que permitem valorizá-la, julgo que o ser humano, embora seja também um ser natural, submetido a leis naturais compartilhadas com os outros seres vivos, deve ser considerado também como ser cultural e técnico. Como tal o ser humano é alguém que tenta interferir nos processos naturais por razões de sobrevivência ou de saúde.
Atualmente, como já mencionei no começo, fala-se em dois tipos de clonagem humana: a reprodutiva e a terapêutica.
A clonagem reprodutiva produz em tese um ser geneticamente idêntico a um indivíduo existente. Digo “em tese” porque o ser clonado compartilha só o DNA do núcleo do original, que é só uma parte do genoma de uma célula visto que existe ainda o DNA das mitocôndrias (que não é reproduzido visto que a clonagem pode ser utilizada para evitar doenças de origem mitocondrial); não conhecemos ainda bem a estrutura do genoma, nem suas funções exatas, nem como ele evolui (questões estudadas pelos emergentes âmbitos da genômica estrutural, funcional e evolutiva) e, sobretudo, não sabemos quais genes sintetizam quais proteínas e como (estudos feitos pela recém nascida proteômica). No entanto, essas não são questões morais, mas técnicas. Sendo assim, a moralidade da clonagem reprodutiva implica em ponderar se ela é lícita, ou não, tendo em conta que pode vir ao encontro do aumento da infertilidade humana: deste ponto de vista pode ser considerada um bem pois evita sofrimentos evitáveis. Este tipo de clonagem pode, por exemplo, ajudar casais que queiram ter um filho sem recorrer à reprodução assistida através de um doador externo (chamada heteróloga) ou que queiram selecionar o sexo de sua cria para evitar doenças genéticas ligadas ao sexo.
Já a clonagem terapêutica é considerada menos problemática visto que tem como finalidade a terapia contra determinadas doenças de origem genética. Atualmente conhecem-se dezenas, senão centenas, desse tipo de doenças, tais como distrofia muscular progressiva, diabetes, Alzheimer, Parkinson, doenças autoimunitárias, cânceres do sangue (leucemias), etc. Mas no futuro serão certamente milhares pois este campo de pesquisa está em pleno desenvolvimento. Portanto, a clonagem terapêutica é moralmente legítima porque permite o desenvolvimento de terapias úteis a um grande número de pessoas, evitando seu sofrimento e melhorando em princípio sua qualidade de vida.
Do meu ponto de vista, ambos os tipos de clonagem são moralmente defensáveis e não vejo uma diferença substantiva entre eles.
Uma das questões muito debatida nos últimos anos, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, é a clonagem de embriões para fins terapêuticos, mas não considero que a clonagem de embriões traz novas questões, diferentes daquelas que dizem respeito às pesquisas sobre os embriões (nisso concordo com o bioeticista australiano Peter Singer).
Ultimamente vem se discutindo muito sobre a utilização das assim chamadas células-tronco (stem cells em inglês), que são células ainda indiferenciadas e que permitiriam fabricar qualquer tipo de tecido e órgão desejado, desde que “reparadas” em suas características portadoras de doenças. Tais células, tiradas do próprio paciente - e que são portanto geneticamente idênticas às outras células de seu organismo – têm a vantagem de não sofrer rejeição (contrariamente aos órgãos recebidos de doadores), podendo-se vislumbrar, num futuro não muito longínquo, um banco de células-tronco para cada indivíduo. Essas células-tronco, adicionadas de substâncias adequadas e, se necessário, “reparadas”, podem dar origem ao tecido desejado, regenerando portanto a parte do organismo afetada pela doença.
Atualmente, existem três fontes conhecidas de células-tronco: (1) aquelas possuídas a princípio por qualquer organismo humano, jovem ou velho que seja (mas com a tendência a diminuir com a velhice), e que estão presentes na medula óssea, no sangue e outros tecidos; tais células têm a vantagem de evitar a rejeição pelo organismo, mas a desvantagem atual de não sabermos ainda se existem em quantidade suficiente em cada organismo e se podem diferenciar-se em qualquer tipo de tecido (totipotência), além de não servirem, sem manipulação, no caso do doador ser portador de doenças de origem genética; (2) aquelas contidas no cordão umbilical, que é reconhecidamente rico em células-tronco; tais células têm também a desvantagem de não sabermos ainda com certeza se são totipotentes; (3) as embrionárias, que sabemos que são totipotentes.
Dos dois tipos de clonagem – como vimos – a terapêutica é evidentemente a mais aceitável moralmente, embora, no meu entender, existam bons argumentos também para a aceitação moral da primeira, apesar de ser quase universalmente ainda rejeitada.
A possibilidade de se clonar um ser humano existe. No entanto, várias perguntas ainda estão sem respostas: deve-se fazer a clonagem? Quem serão os beneficiados? Quais serão os problemas não previstos? Quais as possíveis e prováveis conseqüências?
Como tudo o que é novo, não se pode prever exatamente o que acontecerá, mas este não é um argumento suficiente para não tomar decisões pois o imobilismo pode ter conseqüências daninhas. Agora, muitas vezes, usa-se o argumento de que não se deve fazer nada, quando não se pode prever o que vai acontecer, aplicando assim o princípio da prudência, decorrente de uma espécie de “hermenêutica da suspeição” segundo a qual as conseqüências negativas possíveis, embora duvidosas, são tidas como certas (este argumento é defendido pelo filósofo Hans Jonas). No entanto, a prudência pode ser uma coisa muito boa em determinados casos, mas também pode ser muito ruim por poder ter conseqüências catastróficas e, neste caso, devemos justificar a omissão por sermos moralmente imputáveis tanto pelo feito como pelo omitido, o que está claramente inscrito na condenação moral e jurídica por “omissão de socorro”. Ou seja, embora a prudência possa ser considerada prima facie uma virtude moral (isto é válida a menos que existam valores julgados mais importantes), às vezes é preciso desrespeitá-la e tomar uma decisão e, para tomá-la, é preciso ter claro a justificativa ética para essa ação (ou sua omissão). Assim, se temos a possibilidade de mudar a nossa biologia em prol de uma melhor qualidade de vida e de saúde (como já permite a medicina genômica e promete a proteômica) e não o fazemos, poderemos ser declarados responsáveis, pelas gerações futuras, por não termos tomado essa decisão fundamental quando poderíamos tê-la tomada (um pouco como Pôncio Pilato). Isso implica que, do ponto de vista ético, somos responsáveis não só pelo mal que fazemos, mas também, por omissão, pelo bem que poderíamos ter feito e não fizemos.
Assim sendo, pode-se afirmar que, do ponto de vista bioético, o ser humano não só tem o direito de interferir nos processos naturais, como também tem essa necessidade vital que pode ser eticamente defendida. Caso contrário, não haveria progresso, nem civilização. Portanto, o problema não é se intervir, ou não, mas como interferir nesses processos naturais e dizer quais são as precauções que devem ser tomadas para que isso não se reverta em algo negativo.
Do ponto de vista ético, não vejo nenhuma razão sólida para não fazer a clonagem humana, seja reprodutiva ou terapêutica. Não vejo problemas, por exemplo, numa mulher, que não pode ter um bebê pelo método natural, optar por ter uma criança supostamente igual a ela ou ao seu parceiro, através da clonagem. De qualquer maneira essa “igualdade” morfológica não implica a sua “igualdade” em todas as dimensões do humano (psicológica, cultural, etc.), pois essas outras dimensões são o produto da interação com o meio ambiente, o meio cultural e social. O que faz a identidade propriamente humana é de fato o produto das intricadas interações eco-bio-psico-socio-culturais (como se diz). Portanto - costumam dizer os lógicos (e isso já era um argumento utilizado pelos escolásticos) – a identidade no sentido do “idêntico” (latim idem) não é a mesma coisa da identidade no sentido do “mesmo” (latim ipse): um clone meu pode ser idêntico a mim, mas não ser o mesmo que eu da mesma maneira que um clone de Hitler (contrariamente à mensagem passada pelo filme “meninos do Brasil”) não será necessariamente nazista nem um clone de Jesus Cristo será necessariamente cristão!
Ademais, do ponto de vista biológico, existem seres idênticos por processos naturais: os gêmeos homozigotos ou univitelinos, os quais têm o mesmo patrimônio genético mas personalidades diferentes. Se condenarmos os clones isso implicaria no fato de que criar dois seres iguais seria também moralmente reprovável, mas isso seria razoável? Mudando de linguagem: vamos dar uma reprovação moral à natureza? Pensando dessa forma, todos os gêmeos univitelinos do mundo seriam considerados uma espécie de aberração do ponto de vista moral. Acho que adotar esse caminho é muito perigoso, porque ele é discriminador. Temos que tomar muito cuidado para não sermos discriminatórios em relação aos assim chamados idênticos, o que seria tão reprovável como discriminar os “diferentes”! Para mim, a bioética, além de ser uma disciplina acadêmica, tem um papel muito importante em tentar evitar todas as formas discriminatórias possíveis: por isso é uma ética aplicada com forte preocupação democrática. Além disso, a bioética tem que aplicar valores ou princípios morais que sejam os mais gerais possíveis, para não criar éticas ad hoc, o que implicaria também em discriminação e injustiças. Portanto, se eu discrimino os clones, vou necessariamente discriminar os idênticos, como são os gêmeos.
No fundo, tanto a clonagem terapêutica como a reprodutiva são como qualquer outra técnica médica: preventivas ou reparadoras, e a prevenção é importante do ponto de vista da saúde pública. Com efeito, os testes preditivos conseguem detectar probabilidades de adoecimento, o que é positivo numa política sanitária preventiva. No entanto, deve-se ter prudência para não discriminar os eventuais portadores de doenças futuras. Para que os testes preditivos não sejam usados de modo discriminatório e abusivo, é preciso que se tenham mecanismos de controle social, como leis específicas.
Para mim, como para muitos bioeticistas, a questão mais problemática da clonagem é a sua utilização para melhorar a linhagem. Essa questão pode ter conseqüências nefastas, pois se poderia em tese querer criar uma linhagem de “super-homens”, com características muito diferentes daquelas dos demais humanos, supostamente mais adaptados a condições naturais adversas e mais performantes em termos de inteligência, força física, capacidade laboral, etc. Isso pode ser muito complicado de vários pontos de vista, uma vez que seria preciso, por exemplo, monitorar os eventuais “defeitos” implicados pelas mutações genéticas a longo prazo; evitar abusos de poder de uma “casta” sobre as demais (os “fortes” sobre os “fracos”, os “bonitos” sobre os “feios”, os “inteligentes” sobre os “burros”... ou vice-versa), etc. Para seres humanos, que têm longo ciclo de vida, seriam necessárias várias gerações para detectar, por exemplo, os aspectos negativos resultantes dessa mutação, monitorá-los e mantê-los sob controle. Portanto, isso implicaria numa espécie de “policiamento” de muito tempo, que pode implicar em formas tirânicas insuportáveis. Por outro lado, é importante refletir sobre o que significam a educação, a boa higiene, a prática de esportes e tantos outros conselhos que damos às pessoas e que, em alguns momentos, impomos a nossos filhos. Esses “conselhos” nada mais são do que uma forma de tentar melhorar o ser humano. Todos os sistemas educativos tentam, de alguma forma, melhorar o ser humano, inclusive tornando-o capaz de criar soluções criativas para antigos e novos desafios e de ser autônomo. Sem essa competência não haveria, aliás, nenhum progresso científico, nem teríamos chegado à discussão atual sobre a moralidade da clonagem! Comparativamente, hoje, vivemos melhor e temos maior expectativa de vida do que antigamente, o que não nos impede de querermos melhorar ainda, inclusive utilizando a clonagem. No entanto, devido aos problemas técnicos ainda sem respostas claras, a clonagem reprodutiva deve por enquanto ser encarada como uma possibilidade futura.
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Notas
[1] Artigo publicado no jornal arte & política, ano V, número XV, de 26 de julho de 2002, pp. 4-5.
[2] PhD. Bioeticista, Pesquisador Associado da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, ENSP/FIOCRUZ, e Consultor em bioética do Instituto Nacional do Câncer, INCA.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Anúncio de nascimento de clone causa ceticismo entre cientistas
O anúncio do nascimento do primeiro bebê clonado, feito pela química Brigitte Boisselier, 46, provocou ceticismo e indignação na comunidade médica e científica.
Os cientistas desafiam Boisselier a provar a clonagem reproduzindo o código genético do bebê e o do adulto original. Ela promete a prova em oito ou nove dias.
Eles advertem sobre os perigos observados na clonagem de animais: anomalias no coração, nos pulmões, no sistema imunológico e no fígado, além de obesidade, alto índice de mortalidade antes ou imediatamente depois do nascimento, câncer e envelhecimento precoce.
O especialista de reprodução Jacques Montaigut, membro do Comitê Nacional Francês de Ética, mostrou-se "indignado" com esse "anúncio duvidoso" e por esta "corrida fantástica em direção à imortalidade, aos bancos de órgãos e aos negócios".
"Precisamos proibir a clonagem reprodutiva em todo o mundo. É uma questão que envolve os direitos humanos", afirmou Montaigut, citando os "riscos inadmissíveis para o bebê".
"Estamos presenciando uma situação absurda e escandalosa", disse o especialista francês em genética Axel Kahn. Os especialista alertam para a dificuldade da técnica. Hoje, as chances de sucesso ainda são muito pequenas. Segundo o professor Kahn, nos animais apenas 1% das experiências de clonagem são bem-sucedidas.
"Até nós, que parecemos normais quando nascemos, desenvolvemos problemas mais tarde", afirmou um veterinário norte-americano Jon Hill, especialista em clonagem bovina.
Até o ginecologista italiano Severino Antinori, que anunciou para janeiro de 2003 o nascimento de um bebê clonado, não acreditou no nascimento. "Um anúncio deste tipo não é corroborado por uma base científica, corre o risco de criar confusão", disse para a agência de notícias Ansa.
Ontem, Boisselier, integrante do movimento raeliano e presidente da empresa Clonaid, disse ter trazido ao mundo o primeiro bebê clonado, uma menina, que nasceu em uma cesariana. Os raelianos acreditam que a clonagem é uma forma de alcançar a imortalidade.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Clonagem e células-tronco
Mayana Zatz
A CLONAGEM é um mecanismo comum de propagação da espécie em plantas ou bactérias. De acordo com Webber (1903) um clone é definido como uma população de moléculas, células ou organismos que se originaram de uma única célula e que são idênticas à célula original e entre elas. Em humanos, os clones naturais são os gêmeos idênticos que se originam da divisão de um óvulo fertilizado. A grande revolução da Dolly, que abriu caminho para possibilidade de clonagem humana, foi a demonstração, pela primeira vez, de que era possível clonar um mamífero, isto é, produzir uma cópia geneticamente idêntica, a partir de uma célula somática diferenciada. Para entendermos porque esta experiência foi surpreendente, precisamos recordar um pouco de embriologia.
Todos nós já fomos uma célula única, resultante da fusão de um óvulo e um espermatozóide. Esta primeira célula já tem no seu núcleo o DNA com toda a informação genética para gerar um novo ser. O DNA nas células fica extremamente condensado e organizado em cromossomos. Com exceção das nossas células sexuais, o óvulo e o espermatozóide que têm 23 cromossomos, todas as outras células do nosso corpo têm 46 cromossomos. Em cada célula, temos 22 pares que são iguais nos dois sexos, chamados autossomos e um par de cromossomos sexuais: XX no sexo feminino e XY no sexo masculino. Estas células, com 46 cromossomos, são chamadas células somáticas. Voltemos agora à nossa primeira célula resultante da fusão do óvulo e do espermatozóide. Logo após a fecundação, ela começa a se dividir: uma célula em duas, duas em quatro, quatro em oito e assim por diante. Pelo menos até a fase de oito células, cada uma delas é capaz de se desenvolver em um ser humano completo. São chamadas de totipotentes. Na fase de oito a dezesseis células, as células do embrião se diferenciam em dois grupos: um grupo de células externas que vão originar a placenta e os anexos embrionários, e uma massa de células internas que vai originar o embrião propriamente dito. Após 72 horas, este embrião, agora com cerca de cem células, é chamado de blastocisto. É nesta fase que ocorre a implantação do embrião na cavidade uterina. As células internas do blastocisto vão originar as centenas de tecidos que compõem o corpo humano. São chamadas de células tronco embrionárias pluripotentes. A partir de um determinado momento, estas células somáticas - que ainda são todas iguais - começam a diferenciar-se nos vários tecidos que vão compor o organismo: sangue, fígado, músculos, cérebro, ossos etc. Os genes que controlam esta diferenciação e o processo pelo qual isto ocorre ainda são um mistério. O que sabemos é que uma vez diferenciadas, as células somáticas perdem a capacidade de originar qualquer tecido. As células descendentes de uma célula diferenciada vão manter as mesmas características daquela que as originou, isto é, células de fígado vão originar células de fígado, células musculares vão originar células musculares e assim por diante. Apesar de o número de genes e de o DNA ser igual em todas as células do nosso corpo, os genes nas células somáticas diferenciadas se expressam de maneiras diferentes em cada tecido, isto é, a expressão gênica é específica para cada tecido. Com exceção dos genes responsáveis pela manutenção do metabolismo celular (housekeeping genes) que se mantêm ativos em todas as células do organismo, só irão funcionar em cada tecido ou órgão os genes importantes para a manutenção deste. Os outros se mantêm "silenciados" ou inativos.

O processo de clonagem reprodutiva
A grande notícia da Dolly foi justamente a descoberta de que uma célula somática de mamífero, já diferenciada, poderia ser reprogramada ao estágio inicial e voltar a ser totipotente. Isto foi conseguido através da transferência do núcleo de uma célula somática da glândula mamária da ovelha que originou a Dolly para um óvulo enucleado. Surpreendentemente, este começou a comportar-se como um óvulo recém-fecundado por um espermatozóide. Isto provavelmente ocorreu porque o óvulo, quando fecundado, tem mecanismos, para nós ainda desconhecidos, para reprogramar o DNA de modo a tornar todos os seus genes novamente ativos, o que ocorre no processo normal de fertilização.
Para a obtenção de um clone, este óvulo enucleado no qual foi transferido o núcleo da célula somática foi inserido em um útero de uma outra ovelha. No caso da clonagem humana reprodutiva, a proposta seria retirar-se o núcleo de uma célula somática, que teoricamente poderia ser de qualquer tecido de uma criança ou adulto, inserir este núcleo em um óvulo e implantá-lo em um útero (que funcionaria como uma barriga de aluguel). Se este óvulo se desenvolver teremos um novo ser com as mesmas características físicas da criança ou adulto de quem foi retirada a célula somática. Seria como um gêmeo idêntico nascido posteriormente.

Já sabemos que não é um processo fácil. Dolly só nasceu depois de 276 tentativas que fracassaram. Além disso, dentre as 277 células "da mãe de Dolly" que foram inseridas em um óvulo sem núcleo, 90% não alcançaram nem o estágio de blastocisto. A tentativa posterior de clonar outros mamíferos tais como camundongos, porcos, bezerros, um cavalo e um veado também tem mostrado uma eficiência muito baixa e uma proporção muito grande de abortos e embriões malformados. Penta, a primeira bezerra brasileira clonada a partir de uma célula somática morreu adulta, em 2002, com um pouco mais de um mês. Ainda em 2002, foi anunciada a clonagem do copycat o primeiro gato de estimação clonado a partir de uma célula somática adulta. Para isto foram utilizados 188 óvulos que geraram 87 embriões e apenas um animal vivo. Na realidade, experiências recentes, com diferentes tipos de animais, têm mostrado que esta reprogramação dos genes, para o estágio embrionário, o qual originou Dolly, é extremamente difícil.
O grupo liderado por Ian Wilmut, o cientista escocês que se tornou famoso por esta experiência, afirma que praticamente todos os animais que foram clonados nos últimos anos a partir de células não embrionárias estão com problemas (Rhind, 2003). Entre os diferentes defeitos observados nos pouquíssimos animais que nasceram vivos após inúmeras tentativas, observam-se: placentas anormais, gigantismo em ovelhas e gado, defeitos cardíacos em porcos, problemas pulmonares em vacas, ovelhas e porcos, problemas imunológicos, falha na produção de leucócitos, defeitos musculares em carneiros. De acordo com Hochedlinger e Jaenisch (2003), os avanços recentes em clonagem reprodutiva permitem quatro conclusões importantes: 1) a maioria dos clones morre no início da gestação; 2) os animais clonados têm defeitos e anormalidades semelhantes, independentemente da célula doadora ou da espécie; 3) essas anormalidades provavelmente ocorrem por falhas na reprogramação do genoma; 4) a eficiência da clonagem depende do estágio de diferenciação da célula doadora. De fato, a clonagem reprodutiva a partir de células embrionárias tem mostrado uma eficiência de dez a vinte vezes maior, provavelmente porque os genes que são fundamentais no início da embriogênese estão ainda ativos no genoma da célula doadora (Hochedlinger e Jaenisch, 2003).
É interessante que, dentre todos os mamíferos que já foram clonados, a eficiência é um pouco maior em bezerros (cerca de 10% a 15%). Por outro lado, um fato intrigante é que ainda não se tem notícias de macaco ou cachorro que tenha sido clonado. Talvez seja por isso que a cientista inglesa Ann McLaren tenha afirmado que as falhas na reprogramação do núcleo somático possam se constituir em uma barreira intransponível para a clonagem humana.
Mesmo assim, pessoas como o médico italiano Antinori ou a seita dos raelianos defendem a clonagem humana, um procedimento que tem sido proibido em todos os países. De fato, um documento assinado em 2003 pelas academias de ciências de 63 países, inclusive o Brasil, pedem o banimento da clonagem reprodutiva humana. O fato é que a simples possibilidade de clonar humanos tem suscitado discussões éticas em todos os segmentos da sociedade, tais como: Por que clonar? Quem deveria ser clonado? Quem iria decidir? Quem será o pai ou a mãe do clone? O que fazer com os clones que nascerem defeituosos?
Na realidade, o maior problema ético atual é o enorme risco biológico associado à clonagem reprodutiva. No meu entender, seria a mesma coisa que discutir os prós e os contras em relação à liberação de uma medicação nova, cujos efeitos são devastadores e ainda totalmente incontroláveis.
Apesar de todos estes argumentos contra a clonagem humana reprodutiva, experiências com animais clonados têm nos ensinado muito acerca do funcionamento celular. Por outro lado, a tecnologia de transferência de núcleo para fins terapêuticos, a chamada clonagem terapêutica, poderá ser extremamente útil para obtenção de células-tronco.
A técnica de clonagem terapêutica para obtenção de células-tronco
Se em vez de inserirmos em um útero o óvulo cujo núcleo foi substituído por um de uma célula somática deixarmos que ele se divida no laboratório teremos a possibilidade de usar estas células - que na fase de blastocisto são pluripotentes - para fabricar diferentes tecidos. Isto abrirá perspectivas fantásticas para futuros tratamentos, porque hoje só se consegue cultivar em laboratório células com as mesmas características do tecido do qual foram retiradas. É importante que as pessoas entendam que, na clonagem para fins terapêuticos, serão gerados só tecidos, em laboratório, sem implantação no útero. Não se trata de clonar um feto até alguns meses dentro do útero para depois lhe retirar os órgãos como alguns acreditam. Também não há porque chamar esse óvulo de embrião após a transferência de núcleo porque ele nunca terá esse destino.

Uma pesquisa publicada na revista Sciences por um grupo de cientistas coreanos (Hwang e col., 2004) confirma a possibilidade de obter-se células-tronco pluripotentes a partir da técnica de clonagem terapêutica ou transferência de núcleos (TN). O trabalho foi feito graças a participação de dezesseis mulheres voluntárias que doaram, ao todo, 242 óvulos e células "cumulus" (células que ficam ao redor dos óvulos) para contribuir com pesquisas visando à clonagem terapêutica. As células cumulus, que já são células diferenciadas, foram transferidas para os óvulos dos quais haviam sido retirados os próprios núcleos. Dentre esses, 25% conseguiram se dividir e chegar ao estágio de blastocisto, portanto, capazes de produzir linhagens de células-tronco pluripotentes.

A clonagem terapêutica teria a vantagem de evitar rejeição se o doador fosse a própria pessoa. Seria o caso, por exemplo, de reconstituir a medula em alguém que se tornou paraplégico após um acidente ou para substituir o tecido cardíaco em uma pessoa que sofreu um infarto. Entretanto, esta técnica tem suas limitações. O doador não poderia ser a própria pessoa quando se tratasse de alguém afetado por doença genética, pois a mutação patogênica causadora da doença estaria presente em todas as células. No caso de usar-se linhagens de células-tronco embrionárias de outra pessoa, ter-se-ia também o problema da compatibilidade entre o doador e o receptor. Seria o caso, por exemplo, de alguém afetado por distrofia muscular progressiva, pois haveria necessidade de se substituir seu tecido muscular. Ele não poderia utilizar-se de suas próprias células-tronco, mas de um doador compatível que poderia, eventualmente, ser um parente próximo. Além disso, não sabemos se, no caso de células obtidas de uma pessoa idosa afetada pelo mal de Alzheimer, por exemplo, se as células clonadas teriam a mesma idade do doador ou se seriam células jovens. Uma outra questão em aberto diz respeito à reprogramação dos genes que poderiam inviabilizar o processo dependendo do tecido ou do órgão a ser substituído. Em resumo, por mais que sejamos favoráveis à clonagem terapêutica, trata-se de uma tecnologia que necessita de muita pesquisa antes de ser aplicada no tratamento clínico. Por este motivo, a grande esperança, a curto prazo, para terapia celular, vem da utilização de células-tronco de outras fontes
Terapia celular com outras fontes de células-tronco
a) Indivíduos adultos
Existem células-tronco em vários tecidos (como medula óssea, sangue, fígado) de crianças e adultos. Entretanto, a quantidade é pequena e não sabemos ainda em que tecidos são capazes de se diferenciar. Pesquisas recentes mostraram que células-tronco retiradas da medula de indivíduos com problemas cardíacos foram capazes de reconstituir o músculo do seu coração, o que abre perspectivas fantásticas de tratamento para pessoas com problemas cardíacos. Mas a maior limitação da técnica, do autotransplante é que ela não serviria para portadores de doenças genéticas. É importante lembrar que as doenças genéticas afetam 3-4% das crianças que nascem. Ou seja, mais de cinco milhões de brasileiros para uma população atual de 170 milhões de pessoas. É verdade que nem todas as doenças genéticas poderiam ser tratadas com células-tronco, mas se pensarmos somente nas doenças neuromusculares degenerativas, que afetam uma em cada mil pessoas, estamos falando de quase duzentas mil pessoas.
b) Cordão umbilical e placenta
Pesquisas recentes vêm mostrando que o sangue do cordão umbilical e da placenta são ricos em células-tronco. Entretanto, também não sabemos ainda qual é o potencial de diferenciação dessas células em diferentes tecidos. Se as pesquisas com células-tronco de cordão umbilical proporcionarem os resultados esperados, isto é, se forem realmente capazes de regenerar tecidos ou órgãos, esta será certamente uma notícia fantástica, porque não envolveria questões éticas. Teríamos que resolver então o problema de compatibilidade entre as células-tronco do cordão doador e do receptor. Para isto será necessário criar, com a maior urgência, bancos de cordão públicos, à semelhança dos bancos de sangue. Isto porque sabe-se que, quanto maior o número de amostras de cordão em um banco, maior a chance de se encontrar um compatível. Experiências recentes já demonstraram que o sangue do cordão umbilical é o melhor material para substituir a medula em casos de leucemia. Por isso, a criação de bancos de cordão é uma prioridade que já se justifica somente para o tratamento de doenças sangüíneas, mesmo antes de confirmarmos o resultado de outras pesquisas.
c) Células embrionárias
Se as células-tronco de cordão tiverem a potencialidade desejada, a alternativa será o uso de células-tronco embrionárias obtidas de embriões não utilizados que são descartados em clínicas de fertilização. Os opositores ao uso de células embrionárias para fins terapêuticos argumentam que isto poderia gerar um comércio de óvulos ou que haveria destruição de "embriões humanos" e não é ético destruir uma vida para salvar outra.
Aspectos éticos
Apesar de todos esses argumentos, o uso de células-tronco embrionárias para fins terapêuticos, obtidas tanto pela transferência de núcleo como de embriões descartados em clínicas de fertilização, é defendido pelas inúmeras pessoas que poderão se beneficiar por esta técnica e pela maioria dos cientistas. As 63 academias de ciência do mundo que se posicionaram contra a clonagem reprodutiva defendem as pesquisas com células embrionárias para fins terapêuticos. Em relação aos que acham que a clonagem terapêutica pode abrir caminho para clonagem reprodutiva devemos lembrar que existe uma diferença intransponível entre os dois procedimentos: a implantação ou não em um útero humano. Basta proibir a implantação no útero! Se pensarmos que qualquer célula humana pode ser teoricamente clonada e gerar um novo ser, poderemos chegar ao exagero de achar que toda vez que tiramos a cutícula ou arrancamos um fio de cabelo, estamos destruindo uma vida humana em potencial. Afinal, o núcleo de uma célula da cutícula poderia ser colocada em um óvulo enucleado, inserido em um útero e gerar uma nova vida!

Por outro lado, a cultura de tecidos é uma prática comum em laboratório, apoiada por todos. A única diferença, no caso, seria o uso de óvulos (que quando não fecundados são apenas células) que permitiriam a produção de qualquer tecido no laboratório. Ou seja, em vez de poder produzir-se apenas um tipo de tecido, já especializado, o uso de óvulos permitiria fabricar qualquer tipo de tecido. O que há de anti-ético nisso?
Quanto ao comércio de óvulos, não seria a mesma coisa que ocorre hoje com transplante de órgãos? Não é mais fácil doar um óvulo do que um rim? Cada uma de nós pode se perguntar: você doaria um óvulo para ajudar alguém? Para salvar uma vida?

Em relação à destruição de "embriões humanos", novamente devemos lembrar que estamos falando de cultivar tecidos ou, futuramente, órgãos a partir de embriões que são normalmente descartados, que nunca serão inseridos em um útero. Sabemos que 90% dos embriões gerados em clínicas de fertilização e que são inseridos em um útero, nas melhores condições, não geram vida. Além disso, um trabalho recente (Mitalipova et al., 2003) mostrou que células obtidas de embriões de má qualidade, que não teriam potencial para gerar uma vida, mantêm a capacidade de gerar linhagens de células-tronco embrionárias e portanto, de gerar tecidos.Em resumo, é justo deixar morrer uma criança ou um jovem afetado por uma doença neuromuscular letal para preservar um embrião cujo destino é o lixo? Um embrião que, mesmo que fosse implantado em um útero, teria um potencial baixíssimo de gerar um indivíduo? Ao usar células-tronco embrionárias para regenerar tecidos em uma pessoa condenada por uma doença letal, não estamos, na realidade, criando vida? Isso não é comparável ao que se faz hoje em transplante quando se retiram os órgãos de uma pessoa com morte cerebral (mas que poderia permanecer em vida vegetativa)
É extremamente importante que as pessoas entendam a diferença entre clonagem humana, clonagem terapêutica e terapia celular com células-tronco embrionárias ou não. A maioria dos países da comunidade Européia, o Canadá, a Austrália, o Japão, a China, a Coréia e Israel aprovaram pesquisas com células embrionárias de embriões há pouco tempo. Essa é também a posição das academias de ciência de 63 países, inclusive o Brasil. É fundamental que a nossa legislação também aprove estas pesquisas porque elas poderão salvar inúmeras vidas!
Bibliografia
HOCHEDLINGER, K. e JAENISH, R. "Nuclear Transplantation, Embryonic Stem Cells and the Potential for Cell Therapy". N. Engl. Journal of Medicine, 349:275-212, 2003. [ Links ]
MITALIPOVA, M.; CALHOUN, J.; SHIN, S.; WININGER, D. et al. "Human Embryonic Stem Cells Lines Derived from Discarded Embryos". Stem Cells, 21:521-526, 2003. [ Links ]
RHIND, S. M.; TAYLOR, J. E.; DE SOUSA, P. A.; KiNg, T. U. I.; MCGARRY, M. e WILMUT, I. "Human Cloning: Can it be Made Safe?" Nature Reviews, 4:855-864, 2003. [ Links ]
HWANG, S. W.; RYU, Y. J.; PARK, J. H.; PARK, E. S.; LEE, E. G.; KOO, J. M. et al. "Evidence of a Plurpotent Embryonic Stem Cell Line Derived from a Cloned Blastocyst". Scienceexpress, 12 fev. 2004. [ Links ]
Texto recebido e aceito para publicação em 23 de junho de 2004.
Mayana Zatz é professora-titular de Genética Humana e Médica do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências (IB) da USP, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano do IB-USP, presidente da Associação Brasileira de Distrofia Muscular e membro da Academia Brasileira de Ciências.
Conferência feita pela autora no Instituto de Estudos Avançados da USP no dia 19 de maio de 2004. Parte deste texto foi publicado em: Zatz, Mayana. "Clonagem e células-tronco". Cienc. Cult., jun. 2004, vol. 56, nº 3, pp. 23-27, ISSN 0009-6725.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O Clone
por Mirella Fonzar, redação ONNE
Clonar cachorros é a nova moda entre norteamericanos endinheirados. Confira!
Não faz muito tempo que o tema "clonagem" não cruzava as barreiras da ficção científica. Há poucos anos, era coisa de laboratório. Pois bem, os clones chegaram às prateleiras das lojas. Não assim, literalmente, mas quase: já tem gente convivendo com um clone em casa.
Inconsolado com a morte do labrador Lancelot, o casal americano Ed e Nina Otto desembolsou cerca de R$ 350 mil para ter uma cópia idêntica do bicho. Clonado pela empresa americana BioArts Intenational, o novo cãozinho nasceu em novembro na Coreia do Sul. Em janeiro já estava na casa da família, em Miami.
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Família Otto com o ex-morto Lancelot (Foto: Divulgação) |
Não é a primeira vez que isso acontece. A norte-americana Bernann McKinney procurou a empresa coreana RNL Bio (concorrente da BioArts) para clonar o morto Booger, cão da raça pit bull terrier. A brincadeira custou aproximadamente R$ 152 mil.
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Bernann McKinney e o sucessor do finado Booger (Foto: Divulgação) |
Para a veterinária brasileira Verena Beck, além de ser uma prática antiética, a clonagem vai contra a ordem natural da vida. “Muita gente acha que clonar é ressuscitar o bichinho, mas não é bem assim. Cada um tem suas próprias características, que são adquiridas ao longo da vida e não apenas geneticamente herdadas. Não é possível clonar a alma de ninguém.”, diz a veterinária.
O governo coreano também usa clones para assuntos internos e pesquisas. Sete labradores clonados pela RNL Bio vêm sendo usados pela polícia coreana como cães farejadores. Os cachorros são geneticamente sensíveis ao odor de narcóticos, além de terem sido treinados desde pequenos. O projeto teria custado cerca de R$ 700 mil.
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Magic e Stern nas mãos de seu criador (Foto: Divulgação) |
Os cães Magic e Stern, último feito da RNL, foram clonados a partir de um beagle por um processo inédito que utiliza células-tronco do tecido adiposo. Os filhotes permanecem na Universidade Nacional de Seul, Coréia do Sul, para futuros estudos.
Para entender melhor: um clone é um indivíduo derivado de outro, produzido por reprodução assexuada, mas com o mesmo patrimônio genético. Resumindo... Um gêmeo idêntico perdido no tempo. Aparentemente simples, a técnica cientifica ainda é bastante polêmica, pois traz à tona a discussão ética entorno da vida. A maioria das religiões considera a prática absurda e pecaminosa.
E você, teria seu cãozinho clonado? Dê sua opinião!
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Entrevista sobre Células-Tronco e Clonagem
Células-tronco são células capazes de multiplicar-se e diferenciar-se nos mais variados tecidos do corpo humano (sangue, ossos, nervos, músculos, etc.). Sua utilização para fins terapêuticos pode representar talvez a única esperança para o tratamento de inúmeras doenças ou para pacientes que sofreram lesões incapacitantes da medula espinhal que impedem seus movimentos.
As células-tronco existem em vários tecidos humanos, no cordão umbilical e em células embrionárias na fase de blastócito. Pesquisas com células-tronco, porém, estão cerceadas pela desinformação ou por certas posições religiosas que vêem nelas um atentado contra a vida em vez de um recurso terapêutico que possibilitará salvar muitas vidas.
Drauzio – O que são células-tronco?
Mayana Zatz – São células que têm a capacidade de diferenciar-se em diferentes tecidos humanos. Existem as células-tronco totipotentes ou embrionárias, que conseguem dar origem a qualquer um dos 216 tecidos que formam o corpo humano; as pluripotentes, que conseguem diferenciar-se na maioria dos tecidos humanos, e as células-tronco multipotentes que conseguem diferenciar-se em alguns tecidos apenas.
Drauzio – No momento da fecundação, quando o espermatozóide fecunda o óvulo, começam as primeiras divisões celulares e surgem as células totipotentes que vão obrigatoriamente dar origem a todos os tecidos do corpo. Essas células permanecem no indivíduo pelo resto da vida?
Mayana Zatz – As totipotentes não. Elas existem até quando o embrião atinge 32 a 64 células. A partir daí, forma-se o blastocisto cuja capa externa vai formar as membranas embrionárias, a placenta. Já as células internas do blastocisto, que são chamadas de totipotentes, vão diferenciar-se em todos os tecidos humanos.
Drauzio – Quer dizer que para obter uma célula totipotente é preciso pegar um óvulo fecundado e colhê-la nas primeiras divisões?
Mayana Zatz – Precisam colhê-la até a divisão em 64 células. Indicam as pesquisas ainda em andamento que até 14 dias depois da fecundação, as células embrionárias seriam capazes de diferenciar-se em quase todos os tecidos humanos. Depois disso, começam a dar origem a determinados tecidos.
Os adultos conservam células - por exemplo, na medula óssea - que têm a capacidade de diferenciar-se em vários tecidos, mas não em todos. Elas também existem no cordão umbilical, mas já são células-tronco adultas que não conservam a capacidade das células embrionárias.
Drauzio – Quando se trabalha com reposição de tecidos, é possível pegar células pluripotentes da medula óssea, ou seja, do tutano do osso, aquele tecido gorduroso que vai dar origem aos elementos do sangue, e obrigá-las a transformar-se, por exemplo, em neurônios no cérebro?
Mayana Zatz – Essa é a grande questão. Alguns anos atrás, quando se começou a trabalhar com células-tronco, os estudos diziam que sim, mas agora isso está sendo questionado. Um exemplo é o grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro que fez um trabalho com células-tronco em pessoas cardíacas. Hoje se discute se realmente essas células se diferenciaram em células cardíacas ou se simplesmente melhoraram a irrigação do coração.
No momento, a única coisa a respeito da qual se tem certeza é que as células-tronco de origem embrionária conseguem diferenciar-se em todos os tecidos do organismo.
Drauzio – Estou insistindo nisso, porque constitui um ponto crucial do debate que se estabeleceu sobre as células-tronco, essas totipotentes que podem diferenciar-se em qualquer tecido e têm de ser buscadas nas primeiras fases de desenvolvimento do embrião. Se pudermos obter as células pluripotentes que persistem na vida adulta, parte do problema estaria resolvida.
Mayana Zatz – Esse é um ponto crucial, especialmente se considerarmos que o cordão umbilical, fonte de células-tronco melhor do que a medula espinhal, vai para o lixo quando o bebê nasce. Por isso, estamos brigando para que se façam bancos públicos de cordões umbilicais, apesar de não sabermos se as células-tronco neles existentes têm mesmo a capacidade de diferenciar-se em outros tecidos e, caso tenham, em que tecidos poderão diferenciar-se.
No entanto, como já não se discute mais que o cordão umbilical é a melhor fonte células para tratamento da leucemia e de inúmeras outras doenças hematológicas e como se estima em praticamente 100% a chance de encontrar uma amostra compatível num grupo de dez a doze mil amostras de cordões, a criação desse banco estaria plenamente justificada.
Drauzio – Como funcionariam esses bancos de cordão umbilical?
Mayana Zatz – Quando uma pessoa tem leucemia, é preciso procurar um doador compatível e se tenta achá-lo na família do doente, por exemplo, numa irmã ou num primo que possa doar a medula óssea. Às vezes, o paciente tem a sorte de conseguir; às vezes, não e entra numa fila à espera desse doador compatível, um adulto que esteja disposto a doar sua medula.
Imagine, porém, que existam bancos de cordão umbilical com células-tronco boas para o tratamento da leucemia. Se houver 12 mil, 15 mil amostras, certamente será encontrada uma compatível, o que tornará desnecessária a procura de um parente para doação. O processo é semelhante ao dos bancos de sangue, com a diferença de que o sangue tem menos combinações possíveis.
Drauzio – Vamos imaginar que por alguma razão, experimento científico ou tentativa de tratamento de uma doença, seja necessário colher essas células totipotentes que são capazes de diferenciar-se em qualquer tecido. O potencial teórico de possibilidades de tratamentos com essas células é tão variado que, pessoalmente, não consigo sequer enxergar seus limites. Você poderia explicar como essas células retiradas do embrião se transformariam em tratamento para as mais diversas doenças?
Mayana Zatz – É preciso deixar o embrião chegar à fase de blastocisto, isto é, com 64 células, o que leva no máximo cinco dias. É fundamental deixar claro o processo para as pessoas entenderem o que pretendemos.
O blastocisto é um montinho de células menor do que a ponta de uma agulha, e ninguém está pensando em destruir embriões, muito menos fetos. A idéia é cultivar essas células em laboratório de maneira que se diferenciem no tecido desejado.
O corpo humano, porém, guarda um mistério que ainda não foi decifrado. Como se sabe, depois da fecundação, a célula se divide em duas, de duas em quatro, de quatro em oito e assim sucessivamente até atingir a fase de algumas centenas de células com o poder de diferenciar-se em qualquer tecido. No entanto, em determinado momento, elas recebem uma ordem e umas se diferenciam em fígado, outras em ossos, sangue ou músculo, por exemplo. Daí em diante, todas as suas descendentes, de acordo com essa mesma ordem, continuarão diferenciadas: a célula do fígado só vai dar origem a células do fígado; a do sangue, só a células do sangue. Não descobrimos, ainda, como funciona essa ordem que a célula recebe para diferenciar-se nos diferentes tecidos.
Em nossas pesquisas, estamos utilizando células-tronco do cordão umbilical e cultivando-as junto com células musculares. Como trabalho com doenças neuromusculares, quero que elas se diferenciem em músculo.
Drauzio – Como está sendo desenvolvida essa pesquisa?
Mayana Zatz – Na verdade, estamos fazendo duas pesquisas. Uma estudando só os resultados do contato, da vizinhança entre a célula-tronco e a célula muscular. A segunda, cultivando a célula muscular e utilizando o meio de cultura para colocar a célula-tronco ainda indiferenciada a fim de verificar se naquele meio existem os fatores necessários para sua diferenciação em célula muscular.
Como já disse, meu interesse nesse tipo de célula vem do meu trabalho com doenças neuromusculares. Há pessoas que nascem normais, mas a partir de determinada idade começam a perder musculatura por defeito do músculo ou dos nervos que deveriam estar enervando aquele músculo. Nas formas mais graves, a doença acomete meninos de 10, 12 anos que perderam a massa muscular e estão numa cadeira de rodas. Nosso objetivo com a pesquisa é, a partir de células-tronco, tentar substituir o tecido muscular que está se perdendo, o que de certa forma é uma maneira sofisticada de se fazer um transplante.
Drauzio – Você tem feito isso a partir de células colhidas do cordão umbilical?
Mayana Zatz – Essas são as únicas células que posso conseguir. Infelizmente, a lei não permite o trabalho com células embrionárias.
Drauzio – Quero discutir esse ponto porque raras áreas da ciência criaram dificuldade tão grande de comunicação com a sociedade como essa do trabalho com células-tronco, justamente porque, para obter células totipotentes, é preciso fecundar um óvulo (o que é feito “in-vitro”, não dentro do útero materno) e esperar multiplicar algumas vezes para obter a célula-tronco. Isso criou um debate, a meu ver descabido, que é o debate do abortamento, como se estivesse sendo feito um pequeno abortamento “in-vitro”.
Ora, se pegarmos um adolescente que foi parar num hospital depois de um acidente de moto e através de vários exames for constatada sua morte cerebral, se a família estiver de acordo, estamos autorizados a retirar o coração e outros órgãos para transplantá-los numa pessoa que precise. A sociedade não só aceita esse ato da medicina como o considera louvável. No entanto, qual foi o princípio que orientou esse procedimento? O sistema nervoso tinha deixado de funcionar, não havia mais condição humana e a vida era apenas vegetativa. Agora, se pegarmos um óvulo, esperarmos que se multiplique em poucas células, nas quais não existe o menor esboço de sistema nervoso central, considerar isso um atentado contra a vida não parece, no mínimo, uma coisa do outro mundo?
Mayana Zatz – Acho que é uma coisa do outro mundo e que existe muito desentendimento e desinformação, porque a proposta é usar os embriões que sobram nas clínicas de fertilização e vão para o lixo.
Veja o que acontece. O casal tem um problema de fertilidade, procura um centro de fertilidade assistida, juntam-se o óvulo e o espermatozóide e formam-se os embriões. Normalmente são dez, doze, quinze embriões, alguns de melhor qualidade, mas outros malformados que não teriam a capacidade de gerar uma vida se fossem implantados num útero e vão direto para o lixo. Esses embriões descartados serviriam como material de pesquisa para fazer a linhagem de células totipotentes.
A segunda hipótese refere-se aos casais que já implantaram os embriões, tiveram os filhos que queriam e não vão mais recorrer aos embriões de boa qualidade que permanecerão congelados por anos até serem definitivamente descartados.
Drauzio – E esses também vão morrer…
Mayana Zatz – Esses embriões têm potencial de vida baixíssimo. Muitos teriam potencial zero mesmo que fossem implantados. No entanto, sabe-se que não serão aproveitados e que, um dia, também serão jogados no lixo.
Por incrível que possa parecer, quando se discute a utilização desses embriões, o que mais se ouve dizer é que estamos destruindo vidas. Na verdade, se há alguma destruição é a das pessoas com doenças letais que estão perdendo a possibilidade de serem tratadas a partir de células-tronco embrionárias. Embora não se possa afirmar ainda que esse tratamento exista, segundo tudo indica, é enorme potencial que elas oferecem para consegui-lo.
Drauzio – Você não acha que os indivíduos que se opõem a esse tipo de pesquisa em nome de uma pretensa defesa da integridade da vida, na verdade estão agindo contra a vida porque impedem que pessoas, estas sim vivas, tenham condições de defender-se de doenças gravíssimas, como essa a que você se referiu?
Mayana Zatz – Sem dúvida. Quem proíbe esse tipo de pesquisa é contra a vida. Eu queria ver se alguém com o filho na cadeira de rodas, sabendo que ele está condenado, teria a coragem de olhar nos olhos dessa criança e dizer: “Olha, o embrião congelado é mais importante do que a tua vida!”
Por isso, defendo que é preciso ouvir as pessoas portadoras dessas doenças, porque representam um drama enorme que a população desconhece. Quando se fala em tratamento, em geral se pensa em Parkinson e Alzheimer, doenças extremamente importantes, mas que acometem pessoas mais velhas. O drama maior enfrentam as crianças e jovens que estão morrendo e das quais se está tirando a única esperança de tratamento.
Drauzio – Considerar que um óvulo fecundado por um espermatozóide num tubo de ensaio, depois de três ou quatro divisões, é uma vida com o mesmo direito da criança que está na cadeira de rodas, sentindo-se cada vez mais incapacitada, é revoltante. Nesse caso, não seria exagero encarar a masturbação masculina como um genocídio em potencial.
Mayana Zatz – Nesse sentido, toda a vez que a mulher menstrua também perde a chance de ter um óvulo fecundado e está desperdiçando uma vida naquele momento.
Drauzio – Em que consiste a técnica de clonagem terapêutica?
Mayana Zatz – A clonagem terapêutica é uma técnica que também possibilita a obtenção de células-tronco embrionárias. Vamos considerar duas hipóteses distintas.
Primeira: se eu pegasse, por exemplo, uma célula sua, tirasse o núcleo e colocasse num óvulo sem núcleo e, quando começasse a dividir-se, eu o implantasse no útero de uma mulher, caso a gestação fosse para frente, eu teria um clone do Drauzio. Somos absoluta e frontalmente contra esse tipo de clonagem. Os experimentos feitos com a ovelha Dolly e outros animais mostraram que a clonagem é um desastre e as academias de ciências de 63 países, entre eles o Brasil, já se pronunciaram contra qualquer tentativa de clonagem reprodutiva humana. Não é nem por questão de ética. O risco de malformações é tão grande que seria o mesmo que liberar um remédio sabendo que ele mata ou deixa as pessoas aleijadas.
A clonagem terapêutica, no entanto, pode ser usada para fabricar tecidos. Se eu pegar uma célula, tirar o núcleo, colocar num óvulo sem núcleo e ela começar a dividir-se, vou obter células-tronco com a capacidade de diferenciar-se em todos os tecidos humanos. Nesse caso, se uma pessoa sofrer uma lesão num acidente, teoricamente, posso conseguir uma medula nova ou qualquer outro órgão com a vantagem de que não serão rejeitados porque têm a mesma constituição do organismo do receptor.
Existem, porém, pessoas que se opõem à utilização dessa técnica porque acham que vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva, embora esteja claro que, não havendo a transferência para um útero, nunca se conseguirá produzir um clone.
Drauzio – É o mesmo que ser contra o transplante de rins porque seria possível pegar uma criança na rua, anestesiá-la, extrair seu rim e transplantá-lo para outra pessoa, apesar das leis que impedem categoricamente esse procedimento.
Mayana Zatz – Qualquer técnica tem prós e contras. Não faz muito tempo, um editor do jornal O Estado de São Paulo fez uma comparação muito elucidativa. Comparou a clonagem reprodutiva com a eletricidade. Ninguém discute os benefícios que a eletricidade trouxe, mas todos sabem que podem morrer com um choque elétrico. Por causa desse risco teria cabimento proibir o uso da eletricidade?
Recentemente, um grupo coreano conseguiu fazer uma pesquisa com 16 mulheres que doaram óvulos para os quais foram transplantados núcleos de células dessas mesmas mulheres. O resultado foi que 25% deles conseguiram crescer, chegar ao estágio de blastocisto e deram origem a células-tronco pluripotentes capazes de transformar-se em qualquer tecido daquelas mulheres.
Drauzio – Enfrentamos uma verdadeira guerra legal a respeito do tema clonagem. Como você vê a legislação brasileira que aborda o assunto? Vamos poder avançar nessa área ou seremos empurrados para os subterrâneos da ciência?
Mayana Zatz – Tínhamos um projeto de biossegurança escrito por Aldo Rabelo que abordava tanto o problema dos transgênicos como a pesquisa com células-tronco embrionárias. Entretanto, apesar de o projeto ser muito bom e permitir avanços nessas duas áreas, foi rejeitado pela Câmara dos Deputados que proibiu as pesquisas com células-tronco e a plantação de plantas transgênicas sem considerar o benefício gigantesco que estas últimas, por exemplo, poderiam representar para a população em geral.
Esse projeto foi encaminhado para o Senado e nós propusemos sugestões tentando incluir nele a possibilidade de usar os embriões descartados para fazer clonagem terapêutica. Por enquanto ele está parado e, se não for aprovado, estaremos ficando realmente para trás, o que vai ser uma lástima porque vários laboratórios no Brasil dominam essa tecnologia e só estão esperando autorização do governo para iniciar as pesquisas.
Drauzio – Além da ignorância, o que move as forças contra esse tipo de trabalho? São interesses políticos, religiosos ou de que outro tipo?
Mayana Zatz – Nessa votação que houve na Câmara dos Deputados, parece que a oposição foi feita por grupos religiosos motivados pela idéia de que mexer no embrião é destruir uma vida.
Drauzio – Sempre me pergunto que direito têm essas pessoas de impedir o tratamento e a cura de tanta gente que sofre?
Mayanaa Zatz – Esse é um aspecto extremamente importante a ser discutido. De novo vale a pena considerar que essas pesquisas estão liberadas na maior parte dos paises da Europa, no Canadá, Austrália, Japão e Israel. Portanto, se amanhã houver tratamento fora do Brasil, o governo terá de pagar royalties por eles. Podendo usar embriões para curar doenças, será que as pessoas da Comunidade Européia ou esses outros países valorizam menos a vida do que nós ou é exatamente o contrário?
Site:
www.genoma.ib.usp.br



