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terça-feira, 7 de abril de 2009

Declarações de Papa sobre uso de preservativos repercutem na Europa

ROMA - As declarações feitas pelo papa Bento XVI sobre o uso e a distribuição de preservativos tiveram ampla repercussão entre instituições e personalidades italianas, francesas, alemãs e britânicas.

- O Papa é Papa, portanto, não se pode contestar a sua afirmação. O problema é que (ele) faz demagogia e lança uma mensagem errada - opinou a presidente da associação italiana Soropositivos, Rosaria Iardino.

Segundo Iardino, "o preservativo é um instrumento cientificamente válido se usado corretamente", mas ela concorda que a educação sexual seria a maneira mais adequada para prevenir o contagio.

Na Alemanha, a ministra do Desenvolvimento, Heidemarie Wieczorek-Zeul, e a ministra da Saúde, Ulla Schmidt, explicaram que "os preservativos têm um papel decisivo, pois salvam vidas tanto na Europa quanto nos outros continentes".

"Na África Subsaariana, 22 milhões de homens são portadores da Aids. A cooperação para o desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo deve colocar a disposição dos mais pobres os meios de planejamento familiar. E os preservativos fazem parte destes meios", ressaltaram as ministras alemãs.

Nesta quarta-feira, o jornal francês "Le Monde" publicou uma matéria com o título "Preservativo: Bento XVI é mais integralista que João Paulo II".

A primeira página da publicação trouxe uma charge do desenhista Plantu retratando Cristo e a "multiplicação dos preservativos", em referência à passagem da Bíblica em que há a multiplicação dos pães.

Na mesma imagem, o chargista desenhou o bispo Richard Williamson, polêmico por ter negado a existência do Holocausto, dizendo "a Aids nunca existiu".

O ex-primeiro-ministro francês, Alain Juppé, afirmou, por sua vez, que "este Papa começa a ser um verdadeiro problema, dado que ele vive em uma situação de total autismo".

Já o diretor-executivo do Fundo Mundial da Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, Michel Kazatchkine, pediu que o Papa "retire suas afirmações", definindo-as como "inaceitáveis".

Na Grã-Bretanha, a associação beneficente britânica Christian Aid afirmou que as palavras de Bento XVI "emitem uma mensagem que pode criar confusão em uma terra como a África, onde há países em que a Igreja Católica tem uma importante influência".

Representantes da ONG Oxfam também ressaltaram que "a distribuição de preservativos é crucial na luta contra a Aids e se quisermos evitar novos casos de infecção entre os jovens, devemos aumentar a difusão dos preservativos".

Na terça-feira, a bordo do avião que o levava para a África, o Pontífice afirmou que a Aids "é uma tragédia que não pode ser superada com o dinheiro e nem com a distribuição de preservativos, os quais podem aumentar os problemas", defendendo que a doença só pode ser curada com uma renovação moral no comportamento humano.

As informações são da Ansa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ONGs fizeram tráfico de remédios para pressionar Tailândia a combater Aids

Revelação é de Paul Cawthorne, da ONG Médicos Sem Fronteiras.Acesso a tratamentos contra o vírus é complicado, por conta do alto custo.


Apesar dos avanços em relação à ampliação das ações de prevenção e cuidado, ainda há muito a ser feito na Tailândia para que as pessoas que vivem com HIV possam ter tratamento de forma sustentável, ou seja, com medicamentos para esquemas de primeira e segunda linha, disponibilizados de forma acessível para todos que precisam. O tema surge com força agora, tendo em conta que a próxima segunda-feira, 1º de dezembro, é o Dia Mundial de Luta contra a Aids.


Há 11 anos envolvido na luta contra HIV/Aids, o representante da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais da ONG internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Tailândia,
Paul Cawthorne, foi um dos grandes envolvidos na luta travada junto com outras ONGs tailandesas para tornar o acesso ao tratamento uma realidade no país. No processo, ele revela que houve até transporte ilegal de medicamentos para pressionar o governo tailandês a lidar com a situação.

Na entrevista que vem a seguir, ele conta como foi a batalha para provar a importância da atuação da organização na questão do HIV/Aids e para mostrar às autoridades de saúde da Tailândia, onde o primeiro projeto relativo à doença foi implementado há 13 anos, como era essencial oferecer tratamento.

Pergunta - Como vocês começaram a se envolver com a questão HIV/Aids na Tailândia?

Paul Cawthorne – A MSF olhava essencialmente a situação da pandemia na África e começou a observar a situação das pessoas com HIV/Aids aqui na Tailândia somente nos meados dos anos 90. Na época, fazíamos visitas domiciliares aqui em Bangcoc e percebemos que as pessoas não tinham como tratar HIV/Aids. Não havia anti-retrovirais (ARV) e o tratamento só existia em quatro ou cinco hospitais. As pessoas tinham medo de ir aos hospitais para fazer o teste porque não existia tratamento. O médico simplesmente comunicava que o paciente estava doente e que iria morrer. Começamos então a trabalhar com ONGs locais que ajudavam esses pacientes a receber tratamento para saber por que seu acesso era difícil.

Pergunta - A falta de tratamento era um problema apenas na Tailândia?

Cawthorne – Na época, o tratamento existia nos Estados Unidos e na União Européia, nos países ricos. No Brasil, o tratamento anti-retroviral estava começando (início da década de 1990), mas ainda em pequena escala.

Pergunta - Quais eram as principais barreiras para que o paciente tivesse acesso ao tratamento?


Cawthorne – Os medicamentos eram muito caros, até mesmo para a MSF. Esse foi um dos fatores que fez com que a própria organização resistisse à idéia de abraçar a questão do HIV/Aids. Além do custo alto, o tratamento era de longa duração e a atuação da organização sempre foi em caráter emergencial. Outro problema era a falta de informação. Muitos dos pacientes sofriam infecções oportunistas, mas nem eram informados de que podiam tratá-las. A MSF-Tailândia e outras ONGs se uniram em uma campanha nacional para mostrar que esse tratamento era possível. Dessa forma, se não havia tratamento para a Aids, pelo menos as pessoas podiam lutar contra essas doenças oportunistas e ter uma maior sobrevida.

Pergunta - Como essa campanha foi recebida?

Cawthorne – Surpreendentemente tivemos uma reação muito positiva de médicos e enfermeiros, que reclamavam de não ter esses medicamentos para tratamento. As doenças oportunistas começaram a ser combatidas e MSF passou a treinar médicos e enfermeiros, em parceiria com outras ONGs como a Access Foundations e a PHP (People with HIV/Aids). Pergunta - Qual foi a reação do governo? Cawthorne – Nós começamos a pressionar o Ministério da Saúde em Bangcoc, mas os principais pacientes estavam no interior. Havia muito a ser feito. Na época, os trabalhadores do governo laboratório do governo, uma espécie de Farmanguinhos da Tailândia. Eles começaram a investir na produção. Fomos ao Brasil para ver como o país estava lidando com a questão, em busca de ferramentas para enfrentar o problema aqui na Tailândia. Em 2000, a MSF deu início a seu primeiro tratamento com tinham seguros de saúde, que variavam conforme seus cargos. Mas para o povo, o acesso a saúde era cobrado e caro para muitas doenças.

Pergunta - Como vocês conseguiram mudar essa situação?

Cawthorne – Começamos a trabalhar com o GPO (Organização Farmacêutica do Governo), anti-retrovirais em um hospital distrital perto de Bangcoc, mas apenas para 60 pacientes. Ao mesmo tempo, a MSF pagava ao GPO adiantado pelos anti-retrovirais, para que eles tivessem dinheiro para comprar substâncias para tentarem fabricá-los. Começamos também a tratar os ativistas, porque era fundamental que eles vivessem para manter essa batalha. Decidimos enviá-los para a Índia, onde anti-retrovirais genéricos já eram produzidos, e eles voltavam com malas cheias de remédios para que pudéssemos distribuir por aqui.

Pergunta - A importação era ilegal?

Cawthorne – Sim, mas fazíamos isso abertamente, de forma a pressionar o governo. Finalmente, o governo decidiu que se pudéssemos produzir esses medicamentos por um preço determinado, justo, mas que não dava para comprar remédios patenteados, por exemplo, os anti-retrovirais seriam distribuídos na Tailândia. Pergunta - Depois de tantas barreiras vencidas, como está a situação hoje? Cawthorne – Na Tailândia, quase todos os medicamentos de primeira linha têm versão genérica disponível. Apenas o efavirenz ainda é patenteado. Isso é muito bom porque o salário mínimo aqui é de cerca de 1.100 baht (US$ 32) e um genérico custa 40 baht. Se fosse um remédio patenteado, o paciente teria que pagar até cinco vezes mais. Mas ainda há a questão dos remédios de segunda linha, que custam cerca de 21.000 baht por mês.


*Juliana Braga é jornalista da ONG Médicos Sem Fronteiras